Ucrânia. “A cruz de Abel e a cruz de Caim são cruzes diferentes”

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18 Abril 2022

 

A cruz de Abel (a vítima inocente) e a cruz de Caim (o arrependimento do ofensor) são cruzes diferentes. Elas não podem ser combinadas, porque todo aquele que quer seguir Jesus deve tomar a sua própria cruz (cf. Mt 16,24). Os ucranianos já estão carregando a primeira cruz; os russos ainda têm que tomar a segunda cruz sobre os seus ombros.

 

A opinião é de Myroslav Marynovych, vice-reitor da Universidade Católica Ucraniana, em artigo publicado no sítio da instituição, 13-04-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Não fosse a guerra, seria interessante acompanhar as várias formas de reação ucraniana à nova iniciativa vaticana, que deve promover a reconciliação entre ucranianos e russos. Nessas reações estão a dor sincera, a indignação, o silêncio surdo e os complexos confessionais. Mas também a sensação de que a Ucrânia, suas feridas e esperanças permanecem distantes para muitos e até se tornaram um verdadeiro obstáculo…

Assim, o tema é a Via Sacra, que o Santo Padre conduzirá no Coliseu Romano na Sexta-Feira Santa, 15 de abril de 2022. De acordo com o plano original do Vaticano, durante a XIII “Estação”, dedicada à reflexão sobre a morte de Jesus na cruz, a cruz será segurada pelas famílias de mulheres ucranianas e russas que trabalham juntas em uma clínica italiana. E o texto, em particular, deverá dizer: “Senhor, onde estás? Fala no silêncio da morte e da divisão, e nos ensina a fazer a paz, a ser irmãos e irmãs, a reconstruir o que as bombas gostariam de aniquilar”.

Foi essa tentativa de reconciliar imediatamente os dois povos que indignou muitos ucranianos. No entanto, definitivamente não há nenhuma má vontade na posição dos roteiristas do gesto – há sim uma incapacidade de ver as circunstâncias desta guerra a partir de dentro, e não apenas de fora.

A atitude deles difere pouco da de um católico italiano que recentemente me perguntou: “Sempre achamos que ucranianos e russos eram irmãos. O que aconteceu? Por que eles começaram a brigar entre si?”. Como podemos ver, o texto vaticano também contém as palavras sacramentais: “ser irmãos e irmãs” (observo que, no sentido cristão, essas palavras são compreensíveis, mas, durante a guerra, lembram demais a tese ficcional da propaganda soviética/russa sobre os “povos irmãos”).

Pois bem, conhecemos outro texto que também menciona dois irmãos: “Caim disse a seu irmão Abel: ‘Vamos sair’. E quando estavam no campo, Caim se lançou contra o seu irmão Abel e o matou” (esta e todas as citações bíblicas subsequentes são tiradas de Gênesis 4,8-15).

Como Deus reagiu a isso? Lemos: “O Senhor disse: ‘O que foi que você fez? Ouço a voz do sangue do seu irmão, clamando da terra para mim. Por isso você é amaldiçoado por essa terra que abriu a boca para receber de suas mãos o sangue do seu irmão. Ainda que você cultive o solo, ele não lhe dará mais o seu produto. Você andará errante e perdido pelo mundo’”.

Como podemos ver, a resposta do Senhor não foi nem leniente nem politicamente correta.

Pelo menos dois pontos são importantes aqui. Primeiro, vemos a disposição de Deus de ouvir a voz do sacrifício: “Ouço a voz do sangue do seu irmão, clamando da terra para mim”. Segundo, o Senhor reconhece o mérito da maldição que recai sobre o criminoso. Se a alma do morto Abel ouvisse essas palavras de Deus, certamente poderia sentir que eram justas.

Portanto, os ucranianos não sentem justiça quando ouvem as palavras do Papa Francisco que chegam até eles nestes dias. Porque o papa afirma que há vítimas e lamenta-as de um modo pastoral, mas não pode dizer a Putin: “Ouço a voz do sangue do seu irmão, clamando da terra para mim”. E, sem nomear o criminoso pelo nome, o papa dá a impressão de que procura separar o criminoso da punição merecida.

Como Caim reage à situação? Primeiro, à pergunta “Onde está Abel?”, ele mente e tenta evitar a responsabilidade: “Não sei. Por acaso eu sou o guarda do meu irmão?”. E, quando não consegue escapar, Caim começa a reclamar da punição imoderada: “Meu castigo é grande demais para que eu o possa suportar!”.

O mais novo CaimPutin – ainda está mentindo e inventando razões “decentes” para a guerra contra a Ucrânia, que deveriam afastar a sua responsabilidade. Mas, quando crimes de guerra horríveis forem documentados e relatados, e seus perpetradores aparecerem no tribunal em Nuremberg II, será hora de reclamar que “o castigo é grande demais para suportar”.

No entanto, a propaganda russa já está divulgando a “incomensurabilidade das sanções”, o que amolece o coração de muitos cristãos europeus. Eles já sentem pena dos russos e já estão tentando protegê-los da responsabilidade e da punição. Dizem que Putin está em guerra – e não o povo russo. Então, dizem eles, por que punir os russos bons que também sofrem? Não é melhor para ambas as nações apertar as mãos agora?

Essa lógica é ilustrada pelo cenário da Via Sacra vaticana deste ano. O Pe. Justin (Boyko) reagiu talvez não da forma mais eloquente: “Jesus e Pilatos, ucranianos e russos, não podem carregar a cruz ao mesmo tempo”. Alguém pode perguntar: por que não podem? Minha resposta é: “Porque a cruz de Abel (a vítima inocente) e a cruz de Caim (o arrependimento do ofensor) são cruzes diferentes”. Elas não podem ser combinadas, porque todo aquele que quer seguir Jesus deve tomar a sua própria cruz (cf. Mt 16,24). Os ucranianos já estão carregando a primeira cruz; os russos ainda têm que tomar a segunda cruz sobre os seus ombros.

O cristianismo não pode ser reduzido à compaixão sentimental, porque ele deve ser justo. Os europeus compassivos precisam perceber que, ao tirar a responsabilidade dos russos, eles estão, na realidade, prestando um desserviço a eles. Porque o crime do Estado russo na Ucrânia, não entendido como pecado e não retirado da alma por meio do arrependimento, inevitavelmente levará a um pecado ainda pior.

Amar verdadeiramente os russos é precisamente revelar-lhes a escala do seu crime, permitir que fiquem horrorizados com o que fizeram e direcionar as suas almas ao arrependimento sincero perante Deus e os homens. Somente depois que a alma coletiva russa tropeçar diante do peso da sua própria responsabilidade e derramar as lágrimas de arrependimento diante das vítimas é que se abrirá a porta para o futuro.

Os alemães conseguiram fazer isso apenas dez anos após a sua derrota na Segunda Guerra Mundial. Se os russos terão sucesso nisso – e, se sim, quando –, só o futuro mostrará. Acreditamos que a corajosa resistência do povo ucraniano e a solidariedade internacional com a Ucrânia estão tornando esse dia mais próximo.

Mas isso certamente não pode ser alcançado por meio de encenações excessivamente teatrais, mesmo que simbólicas. Elas não só não promovem a reconciliação, mas, ao contrário, a prejudicam.

Portanto, sou grato ao chefe da Igreja Greco-Católica Ucraniana, Sua Beatitude Sviatoslav, pela sua explicação: “Eu considero essa ideia inoportuna, ambígua e do tipo que não leva em conta o contexto da agressão militar da Rússia contra a Ucrânia”.

Também sou grato ao núncio apostólico, o arcebispo Visvaldas Kulbokas, que afirmou: “É claro que sabemos que a reconciliação ocorre quando o agressor admite a sua culpa e pede perdão”.

Os comentaristas vaticanos estão certos quando dizem que “bons e maus, agressores e vítimas são permitidos debaixo da cruz de Jesus”. Pois, pelo Seu sacrifício, Ele redimiu tanto os justos quanto os pecadores. Pois, de fato, “nosso Pai que está no céu faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos” (Mt 5,45). Portanto, a cruz de Jesus é uma só.

Mas as nossas cruzes, com as quais vamos ao encontro d’Ele, são diferentes: para uns, é a cruz do sacrifício; para outros, é a cruz penitencial do pecador. E as nossas vestes são diferentes: os inocentes mortos têm “vestes brancas” (Ap 6,11), e os seus assassinos têm manchas de sangue (cf. Is 59,3). E, embora o amor do Senhor seja um só, Ele nos fala de modos diferentes: às vítimas, com compaixão, e aos ofensores, com dureza.

E esse é o significado da justiça do Senhor.

 

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