“A moral sexual deve mudar”. Entrevista com Franz-Joseph Hermann Bode, bispo de Osnabrück

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31 Março 2022

 

O vice-presidente da Conferência Episcopal Alemã, S.E.R. D. Franz-Josef Hermann Bode, concedeu uma entrevista ao jornalista católico Volker Resing. No final da assembleia plenária da Conferência Episcopal Alemã, o bispo falou sobre a sexualidade dentro da Igreja Católica e falou da campanha “Out in Church” (1).

 

“Até agora limitamos severamente a liberdade das pessoas”, disse o bispo, agora está sendo preparada uma reforma do direito trabalhista na Igreja alemã e espera-se uma mudança na moral sexual. A Igreja não deveria mais querer limitar a liberdade das pessoas, disse o bispo de Osnabrück.

 

A entrevista é publicada por Cicero, publicação alemã, e traduzida por Silere non possum, 11-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

D. Bode, a Igreja Católica pode demitir funcionários por causa de seu estilo de vida. Isso também se aplica, por exemplo, a lésbicas e gays casados. Algo está prestes a mudar. Por quê?

Aqueles que querem trabalhar para a igreja também devem apoiar os objetivos da igreja, identificar-se com a igreja. Por isso trata-se mais de um testemunho de vida e não tanto uma conduta de vida concreta. Principalmente, o automatismo de que certas circunstâncias possam levar diretamente à demissão estava errado. Isso não é mais aplicado à maioria dos funcionários. Mas agora queremos estender isso a todos. Havia também um medo subjacente entre alguns quando assumiam sua homossexualidade. Queremos acabar com isso.

 

Como aconteceu essa mudança de perspectiva?

De fato, há algum tempo estamos pensando em mudar a ordem básica do direito do trabalho. Mas a campanha "Out in Church", na qual as pessoas assumiram sua homossexualidade, obviamente acelerou isso. E a implementação certamente causará discussões dentro da Conferência Episcopal. Deveria ser tratado igualmente em toda a Alemanha, caso contrário, o regulamento como um todo não estará à altura da lei.

 

Por trás disso, porém, há também a questão da moral sexual da Igreja. Proibição de atos homossexuais, de sexo fora do casamento, de contraceptivos... Nada muda em Roma, mas na Alemanha muda?

Algo está mudando lentamente em Roma e na Alemanha. Eu fiz campanha por uma ética das relações por anos. Trata-se de como os casais se sustentam segundo a visão cristã, dentro e fora do casamento, homossexual ou heterossexual. Em nossa sociedade, prevalece uma ética da negociação: se ambos concordarem, presumivelmente está tudo bem. Mas isso não é suficiente para nós. Queremos levar a norma cristã de amor. Isso significa que os parceiros nunca devem ser objetivados, mesmo que concordem. Isso depois se traduz em avaliações positivas da sexualidade em todas as suas dimensões.

 

Mas isso significa que a Igreja Católica não mais avaliaria e rejeitaria as práticas sexuais individuais, na sua opinião?

Até agora, limitamos fortemente a liberdade das pessoas com a moral sexual, as pessoas se sentiram em muitos casos completamente amordaçadas pela moral sexual. Devemos finalmente abrir o ensinamento da Igreja em muitos setores a partir do paradigma cristão de liberdade. Trata-se da importância da decisão da consciência. Ao mesmo tempo, há pessoas que buscam sua orientação. Temos algo a dizer a eles a partir do nosso entendimento cristão.

 

Alguns dizem que não é possível que tudo que estava certo na igreja agora esteja errado. O que fala para eles?

Alguns pensam que não sou mais católico porque eu estaria traindo a tradição. E para outros eu não sou mais considerado católico porque não estaria implementando mudanças com rapidez suficiente. Recebo cartas de ambos os lados me dizendo para me demitir. É uma situação muito difícil. Então eu tento explicar que ao longo da história da igreja sempre houve mais mudanças do que se poderia pensar. Isso significa que a tradição é mais viva do que algumas pessoas pensam.

 

À luz da terrível guerra na Ucrânia, muita atenção está sendo dada à Europa Oriental. Ainda há uma profunda divisão cultural entre a Europa Ocidental e Oriental. No que diz respeito à homossexualidade, por exemplo, a Igreja polonesa está em parte mais próxima da ortodoxia de Moscou do que se poderia pensar politicamente no momento. O que você fala aos bispos poloneses?

A Igreja polonesa terá que decidir qual caminho seguir, mas não pode ignorar a realidade dos fatos. Na situação de perseguição, na época do comunismo, e com a figura formativa do Papa polonês João Paulo II, conservou-se certa atitude com a qual, na minha opinião, dificilmente se poderá moldar o futuro.

 

Até o patriarca de Moscou, Cirilo I, descreveu a guerra na Ucrânia como uma luta contra as paradas gays. O que você responde a isso?

Tais afirmações são inconcebíveis para mim. Quando a Igreja Ortodoxa na Rússia se deixa usar para apoiar um sistema político, não consigo entender. Na realidade, temos uma proximidade teológica com a Ortodoxia, mas com tal comportamento é difícil chegar a um entendimento. Este é um fardo pesado para o diálogo entre as igrejas cristãs.

 

A Igreja Católica como um todo está em uma grave crise de confiança. Há uma onda de abandonos após investigações sobre os abusos, manifestações regulares em Colônia e em outros lugares. Olhando para trás, você foi bispo por 31 anos, onde você pessoalmente vê falhas?

Em retrospecto, tenho visto alguns desenvolvimentos chegarem tarde demais. Eu subestimei completamente a crise dos abusos no começo. E levei algum tempo para realmente mudar minha perspectiva sobre as vítimas. Nem esperava essa grande ruptura. Hoje temos até 1.000 demissões por mês em Osnabrück, algumas delas dentro dos limites da igreja. Eu nunca poderia ter imaginado isso.

 

O que você considera que são boas razões para permanecer na igreja?

Somente aqueles que permanecem na igreja também podem ajudar a moldá-la. Há tantas razões para permanecer porque a igreja é tão diversificada. Também criaremos novos espaços livres nesta sociedade onde a igreja não é percebida como restritiva, mas como facilitadora. Ali teremos que repropor para o nosso tempo a questão da fé em um Deus pessoal, que é central para nós.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos - IHU

 

1.- Trata-se do movimento 'coming out' de 125 membros da Igreja católica da Alemanha que publicaram o apelo #OutInChurch assinado por 119.000 pessoas, pedindo para continuar trabalhando - em qualquer nível - na comunidade eclesial como pessoas declaradamente LGBT+ sem temor de serem demitidas. Pede-se também a revisão do magistério quando define as tendências homossexuais 'objetivamente desordenadas' e as pessoas que as vivem como incapazes de 'construir relações corretas'.

 

 

Sinais de esperança em face ao colapso do armário. Encruzilhada para a comunidade cristã LGBTQIA+

 

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