Sansão merece figurar na Bíblia? Artigo de Frei Betto

Sansão, por Valentin de Boulogne. | Foto: Wikimedia CC

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01 Mai 2021

 

"Sansão agiu como, hoje, um homem-bomba, um terrorista", escreve Frei Betto, escritor, autor de “O diabo na corte – uma leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros.

 

Eis o artigo.

 

A história de Sansão, escrita seis séculos antes de Cristo e descrita no “Livro dos Juízes” em apenas quatro capítulos (13-16), mereceu diversos filmes, entre eles o épico “Sansão e Dalila”, de 1949, dirigido por Cecil B. DeMille e estrelado por Hedy Lamarr e Victor Mature.

Sansão nada tinha de santo: mulherengo, se casou com uma mulher filisteia, inimiga de seu povo; matou trinta homens para pagar uma aposta, e mais mil filisteus; amarrou o rabo de trezentas raposas, em duplas, entubou tochas de fogo no ânus de cada uma, e soltou-as para incendiarem campos de trigo, oliveiras e vinhas; e arrancou as portas de Gaza que, de largura, tinham 28 metros!

Ah, é bom lembrar: por 20 anos foi juiz em Israel! Um juiz fracassado, oriundo da mais insignificante das doze tribos de Israel, a de Dã! Aliás, o último juiz de Israel. Não há dúvida de que os autores bíblicos fizeram duras críticas a Sansão por serem partidários da monarquia. Chega de juízes sem juízo! Queremos um rei!

Na literatura quase tudo é plágio. Difícil é descobrir a fonte original. Ora, Sansão é a versão hebraica de Hércules que, por sua vez, é a versão grega do etrusco Hercle. Hércules, ainda criança, matou duas cobras com as mãos. Sansão, um leão. O profeta previu que Hércules livraria o mundo de monstros e gigantes. O anjo anunciou à mãe de Sansão que ele haveria de livrar Israel do domínio filisteu. Hércules e Sansão tinham força descomunal. Em Sansão, essa força provinha dos cabelos. Quando Dalila cortou-os, ele virou um homem normal.

Tudo a ver com os nossos super-heróis – Super-Homem, Mulher Maravilha, Homem-Aranha, Batman... Todos têm seu calcanhar de Aquiles. A pedra de kryptonita, faz Super-Homem passar a ser um simples mortal chamado Clark Kent. Adeus às maravilhas daquela mulher superpoderosa se ela perde os braceletes.

Esses super-heróis são todos versões pagãs de narrativas religiosas. O Super-Homem, como Jesus, enviado à Terra por seu pai para proteger a humanidade, é um ser extraterrestre com forma humana e destinado a combater o mal e promover o bem. Esses super-heróis simbolizam o projeto imperial dos Estados Unidos: os fracos devem se sujeitar aos mais fortes. Só eles podem derrotar nossos inimigos e assegurar a paz...

Mas voltemos ao nosso Sansão. Lembram que Sara, no “Gênesis”, é estéril e, graças à intervenção divina, deu à luz Isaac? O mesmo ocorreu com a mãe de Sansão, cujo nome o machismo dos autores bíblicos omitiram. “Um anjo do Senhor” apareceu a ela e anunciou-lhe: “Conceberás e terás um filho” que virá “salvar Israel”. E algo parecido ocorreu com Maria: embora virgem, tornou-se mãe de Deus!

Sansão se envolveu com várias mulheres filisteias. Como um juiz hebreu ousou se enamorar de quem pertencia a um povo inimigo? Ora, o que os autores bíblicos quiseram ressaltar é que não convinha se meter com mulheres estrangeiras. Sobretudo porque os filisteus tudo fizeram para derrotar Sansão. Tentaram toda sorte de artimanhas, e só conseguiram pela sedução feminina... Sansão tanto amou Dalila que acabou por revelar a ela o segredo de sua poderosa força!

Submetido aos filisteus após ter o seu cabelo cortado e, portanto, perder sua possante energia, Sansão, preso, teve os olhos vazados e o obrigaram a mover moinhos, tarefa então exclusivamente reservada às mulheres. Haja humilhação!

Debilitado, fraco e cego, Sansão foi levado à festa, em Gaza, de veneração ao deus Dagom, dos filisteus. Ali se encontravam todos os príncipes filisteus e mais três mil homens e mulheres. Os guardas não atinaram que os cabelos do bobo da corte voltaram a crescer. Sansão rogou ao Senhor, pediu que lhe concedesse força pela última vez, abraçou as duas colunas principais do palácio e exclamou: “Morra eu com os filisteus.” Tudo veio abaixo, todos pereceram esmagados.

Sansão agiu como, hoje, um homem-bomba, um terrorista. Javé permitiu que Sansão se suicidasse! E não é o único caso na Bíblia. Saul, o primeiro rei de Israel, também se matou com a própria espada para não cair em mãos dos filisteus (l Samuel 31,4). Ora, por que judeus e cristãos, por séculos, abominaram os suicidas, se o próprio Deus induziu Sansão e Saul a se demitirem da vida?

Para mais detalhes sobre a singular história de Sansão recomendo o livro “Sansão na ótica da literatura”, de André Casagrande (São Paulo, Reflexão, 2021).

 

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