26 Novembro 2020
"Os ataques neopentecostais às religiões de matriz africana, uma das sementes do fascismo em voga, é o tema do impactante documentário 'Fé e Fúria'", escreve Carlos Alberto Mattos, em artigo publicado por Carta Maior, 23-11-2020.
Eis o texto.
"Não é uma guerra, mas um genocídio" – é como o babalaô Ivanir dos Santos define os ataques que os evangélicos, traficantes e milícias vêm perpetrando contra praticantes de religiões afro-brasileiras nas periferias e comunidades de grandes cidades brasileiras. Fé e Fúria, o impactante documentário de Marcos Pimentel, traça um painel dessa chamada "guerra santa", recorrendo a depoimentos dos dois lados. Será exibido online por apenas 24 horas no site do Forum Doc BH (ver abaixo) e na competição do Festival de Havana, em dezembro.

Crédito: Reprodução
O filme se divide em segmentos nomeados pelo referencial bélico. Histórias de agressões a pessoas e atentados contra terreiros de umbanda ilustram o clima de tirania religiosa. Vemos imagens estarrecedoras de crianças sendo doutrinadas para a "guerra espiritual", formação de grupos paramilitares como o "Exército de Deus" e os "Gladiadores do Altar", dos quais "Jesus é o general".
A relação entre armas e almas tem sido mais que um trocadilho. O vídeo da música "Facção Jesus Cristo" termina com meninos apontando arminhas para a câmera e fingindo disparar uns contra os outros, que caem mortos no chão. Versículos, salmos e a palavra "Jesus" são marcas de conquista de território nas favelas e subúrbios do Rio e Belo Horizonte, onde Marcos Pimentel gravou seu filme.
Vale dizer que o documentarista mineiro se converteu à palavra. Por muito tempo fez documentários baseados na observação silenciosa da vida em cidades e no interior (Sopro, A Parte do Mundo que me Pertence e excelentes curtas). Nessa volta ao filme falado, ele não joga conversa fora. Se evangélicos neopentecostais, em sua maioria, se manifestam à sua maneira – irracionais, mitômanos, preconceituosos –, o pessoal do candomblé e da umbanda demonstra fina capacidade de análise e a conhecida vocação para a tolerância.
Cabe a eles dissecar o que está por trás da perseguição que sofrem: racismo sobretudo, mas também o poder econômico das novas igrejas com sua "Teologia da Prosperidade", a esperteza em conquistar a massa pela música e pelo espetáculo, a entrada nas prisões e a adesão de ex-bandidos, a aliança com traficantes, policiais e milicianos. Com tudo isso, adquirem um status respeitável nas comunidades. O resultado é uma radiografia das entranhas de um processo que levou o Brasil aos braços da extrema-direita, como anotado nos créditos finais.
Pimentel, desta vez, está mais preocupado em expor com clareza seu arrazoado do que em experimentar com a forma do documentário. Ele filma com a classe e a calma habituais. Insere entre as falas preciosas de seus personagens uma iconografia espantosa, que alia religião e violência, fé e fúria.
A "guerra" dos evangélicos é ainda mais perigosa porque se dirige também a eles próprios. É preciso lutar contra os seus maus instintos, contra o diabo que está à espreita e pode surgir de dentro deles mesmos. O outro, então, passa a ser a encarnação dessa ameaça, que urge destruir ou pelo menos desfigurar simbolicamente. O fascismo, enfim. Fé e Fúria é mais um filme de enorme importância para a compreensão do que estamos vivendo.
Fé e Fúria estará disponível para exibição neste link por 24 horas entre 12:00 de quarta-feira (25/11) e 12:00 de quinta (26/11).
Assista ao trailer abaixo:
Leia mais
- 100 anos do fascismo: 'O perigo atual é que democracia vire repressão com apoio popular', diz historiador
- A ‘guerra santa’. Igrejas evangélicas e o poder conservador na América Latina
- A extrema direita resgata a experiência maquiavélica de usar a religião em favor de quem governa. Entrevista especial com Roberto Romano
- Brasil, Bolsonaro e a teologia da prosperidade
- Quem são? Por que eles crescem? No que eles creem? Pentecostalismo e política na América Latina
- Os santos perseguidos
- Casas de religiões de matriz africana enfrentam a pandemia sem apoio de políticas públicas
- A bancada evangélica representa de fato seus fiéis?
- Líderes das três principais igrejas neopentecostais travam “armagedom midiático”. Entrevista especial com Alexandre Dresch Bandeira
- As Eleições 2018 e o Fanatismo Religioso
- Bancada evangélica cresce e terá 91 parlamentares no Congresso
- A Santa Sé, os evangélicos e os pentecostais
- “Os evangélicos no Brasil ocuparam o espaço do Estado”. Entrevista com Lamia Oualalou
- Os evangélicos vão da aliança pragmática com o PT à conversão a Bolsonaro
- Frente evangélica apoia Israel por crença no Apocalipse e na volta de Cristo
- Evangélicos, pentecostales y neopentecostales: de la fe a la política
- A tragédia do Brasil hoje: só Lula e o neopentecostalismo falam à grande massa dos pobres. Entrevista especial com Adriano Pilatti
- De onde vêm os demônios? A força evangélica neopentecostal na América Latina
- Evangélicos têm representatividade, mas não protagonismo no governo Bolsonaro
- Poder evangélico contra o feminismo. Artigo de Raúl Zibechi
- As mulheres evangélicas pobres e a eleição de Bolsonaro
- Os evangélicos e o poder na América Latina
- Igrejas evangélicas e a Internet cumprem função de escola no Brasil popular
- Os valores e 'boatos' que conduzem evangélicos a Bolsonaro