As mulheres evangélicas pobres e a eleição de Bolsonaro

Mulheres durante culto evangélico | Foto: Divulgação - Pref. de São Paulo

Mais Lidos

  • A nova missão do mundo católico diante da trajetória do trumpismo. Artigo de Stefano Zamagni

    LER MAIS
  • Pix vira foco de tensão entre Brasil e governo Trump

    LER MAIS
  • Assessora jurídica do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e bispo da Diocese de Juína refletem sobre os desafios da cultura do encontro entre indígenas e não indígenas na sociedade brasileira e relembram a memória do jesuíta Vicente Cañas, que viveu com povos isolados na década de 1970, entre eles, os Enawenê-nawê, no Mato Grosso

    “Os povos indígenas são guardiões de conhecimentos essenciais para toda a humanidade”. Entrevista especial com Caroline Hilgert e dom Neri José Tondello

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

09 Março 2019

"Não há dúvida de que o voto evangélico foi fundamental para a eleição de Jair Bolsonaro. Mesmo sendo menos de um terço do eleitorado, as lideranças evangélicas são muito atuantes na política e estão colhendo o resultado de anos de ativismo religioso na sociedade", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 06-03-2019.

Eis o artigo. 

(Fonte: EcoDebate)

O sociólogo Marcos Coimbra afirmou ao jornalista Mauro Lopes do canal “Paz e Bem” (e à TV) 247 que a parcela feminina pobre e evangélica do eleitorado foi quem decidiu a eleição presidencial de 2018 a favor do presidente Jair Bolsonaro.

Com base no gráfico acima, o presidente do Instituto Vox Populi afirmou que, nas semanas anteriores ao pleito, a diferença entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro se manteve estável no eleitorado feminino católico, mas apresentou uma grande alteração no eleitorado feminino evangélico.

Segundo Coimbra, foi a manipulação desta parte do eleitorado, e não o sentimento antipetista generalizado, que explica a derrota do PT. Ele argumentou que o antipetismo não é tão abrangente como parece, pois apenas 9% dos eleitores que votaram em Bolsonaro afirmaram “odiar” o PT. “Isso significa que cerca de 90% da sociedade brasileira gosta do PT, ou não tem nenhum sentimento a favor ou contra o partido, ou não gosta do PT bem como pode não gostar de outros partidos”. Por fim ele conclui: “Não se pode sair de um processo político complicado aceitando a versão do vencedor. O vencedor não tem o direito de impor a versão dele”.

Evidentemente, esta análise do presidente da Vox Populi está sujeita a questionamentos e a maiores debates, pois superestima o peso do “segmento feminino pobre e evangélico” do eleitorado e subestima o sentimento antipetista da sociedade brasileira que cresceu em função dos erros do PT ao longo dos 13 anos de governo e dos erros acumulados durante a campanha eleitoral de 2018.

Como mostrei em artigo publicado logo depois ao segundo turno da eleições presidenciais de 2018 (ALVES, 31/10/2018), a diferença positiva que Bolsonaro obteve entre o eleitorado evangélico foi, de fato, suficiente para compensar as derrotas entre as religiões Afro-brasileiras, os sem religião e os ateus e agnósticos. Os 11,6 milhões de votos que Bolsonaro obteve a mais do que Haddad entre os evangélicos foi maior que a diferença total registrada entre os dois candidatos, no resultado final. Mas como mostra a tabela abaixo, Bolsonaro também ganhou, por exemplo, entre os espíritas, que são um segmento de renda mais elevada.

(Fonte: EcoDebate)

Assim, não há dúvida de que o voto evangélico foi fundamental para a eleição de Jair Bolsonaro. Mesmo sendo menos de um terço do eleitorado, as lideranças evangélicas são muito atuantes na política e estão colhendo o resultado de anos de ativismo religioso na sociedade. Não foram apenas as mulheres pobres evangélicas, mas o conjunto deste segmento religioso que influiu no resultado geral.

De fato, como mostraram Alves et. al. (2017), o Brasil passa por uma transição religiosa de grande proporção. Em 1950, os católicos representavam 93,5% da população e os evangélicos apenas 3,4%. Mas nas últimas sete décadas a percentagem de pessoas que se declaram católicas caiu rapidamente e chegou a 64,6% em 2010. No mesmo período os evangélicos (tradicionais e evangélicos) cresceram e atingiram 22,2% em 2010. Houve também crescimento de outras religiões (como espíritas, etc.) e do percentual de pessoas que se declaram sem religião. Portanto, a transição religiosa brasileira se caracteriza pelo mudança na correlação de forças entre os dois maiores grupos (com queda dos católicos e ascensão dos evangélicos) e maior pluralidade religiosa, inclusive um aumento significativo de pessoas que se consideram sem religião.

Pesquisa da própria Fundação Perseu Abramo, de 2017, havia mostrado que segmentos populares das periferias das grandes cidades estavam assumindo uma visão de mundo que inclui o papel do empreendedorismo na redução da pobreza (como prega a teologia da prosperidade), além de adotar uma postura favorável ao conservadorismo comportamental. Portanto, a questão religiosa e política parece ser mais complexa na sociedade brasileira.

Não dá para reduzir o fenômeno da vitória do capitão Bolsonaro, fundamentalmente, às “fake-news” voltadas a segmentos específicos do eleitorado. Mas o debate está aberto e este assunto é realmente interessante e merece mais estudos e análises.

 

Referência:

ALVES, JED. O voto evangélico garantiu a eleição de Jair Bolsonaro, Ecodebate, 31/10/2018

Mauro Lopes. Milhões de evangélicas pobres decidiram a eleição em favor de Bolsonaro – é preciso conversar com elas, Canal Paz e Bem, 20/02/2019

ALVES, JED, CAVENAGHI, S, BARROS, LFW, CARVALHO, A.A. Distribuição espacial da transição religiosa no Brasil, Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 29, n. 2, 2017, pp: 215-242

Leia mais