O Holocausto e o Vaticano dividido. Venceu a escolha pelo silêncio

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31 Agosto 2020

A questão do silêncio de Pio XII sobre o Holocausto explodiu na década de 1960, mas o problema já estava bem presente ao próprio Papa e a outros membros da Igreja durante a guerra. Tanto é verdade que o padre jesuíta Pietro Tacchi Venturi, anteriormente encarregado das relações da Santa Sé com o regime fascista, propôs em dezembro de 1943, dois meses após a incursão de 16 de outubro no gueto de Roma, apresentar uma nota verbal de protesto às autoridades alemãs pelas deportações em curso na Itália. Que, no entanto, não deu em nada, até porque outro eminente prelado e futuro cardeal, Angelo Dell'Acqua, a quem foi pedido um parecer, criticou o texto e sugeriu em memorando que deixasse a questão de lado. Os dois documentos, até agora inéditos, tornaram-se públicos graças à decisão, do Papa Francisco, de abrir os arquivos vaticanos relativos ao pontificado de Eugenio Pacelli, que durou de 1939 a 1958.

A reportagem é de Antonio Carioti, publicada por Corriere della Sera, 29-08-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

O historiador estadunidense David Kertzer os apresenta, a quem foram sinalizados pelo colega italiano Tommaso Dell'Era, no site da revista "The Atlantic", como parte de um artigo dedicado ao "caso Finaly": a odisseia sobre a qual o próprio Kertzer se propõe retornar mais extensivamente junto com o estudioso Roberto Benedetti, de dois pequenos irmãos judeus franceses, órfãos e feitos batizar pela diretora católica do hospital onde permaneceram escondidos para escapar da perseguição, que só depois de uma longa batalha judicial e complexas negociações foram confiados a uma tia residente em Israel. "Ambos os eventos refletem as raízes do preconceito antijudaico nas hierarquias eclesiásticas, mesmo durante o genocídio perpetrado pelos nazistas, do qual o Vaticano estava bem informado, e até mesmo depois da guerra", declara Kertzer ao Corriere. “Em 1953, Giovanni Battista Montini - continua - no caso Finaly seguiu a linha do Santo Ofício, para o qual as duas crianças deviam ser educadas na fé católica. No entanto mais tarde, tendo se tornado Papa Paulo VI, ele teria iniciado uma virada nas relações entre a Igreja e o mundo judaico com a declaração Nostra Aetate do Concílio Vaticano II”.

Vamos voltar aos documentos de 1943. O juízo de Kertzer é claro: “A nota proposta por Tacchi Venturi, embora visasse induzir os alemães a suspender as deportações, não era benevolente para com os perseguidos. Ele falava de ‘graves inconvenientes indiscutíveis causados pelo judaísmo quando se chega a dominar ou desfrutar de muito crédito em uma nação’. E ele argumentava que a influência judaica na Itália já havia sido limitada pelas leis raciais do fascismo e, portanto, não havia necessidade de medidas brutais como as implementadas pelas autoridades de ocupação alemãs”.

A avaliação do historiador Andrea Riccardi, autor do livro L’inverno più lungo (Laterza) sobre Roma e o Vaticano sob ocupação nazista, é mais articulada: “Tacchi Venturi certamente não era um pró-semita. Após a queda do fascismo em 25 de julho de 1943, ele indicou ao governo italiano que talvez não fosse conveniente revogar completamente as leis raciais. No entanto, ele estava ciente do drama de uma situação que, após a invasão do gueto, via naquele período um recrudescimento da perseguição. Ele também havia atuado a favor de alguns judeus.

Nesse documento, que já era conhecido em parte (recordo-o também no meu livro), ele tenta entrar na mentalidade dos alemães, para convencê-los de que não é útil nem mesmo do ponto de vista deles insistir em uma conduta tão brutal. E, em qualquer caso, prevê uma intervenção pública da Igreja para "lamentar profundamente, perante o mundo inteiro, o destino de homens e mulheres inocentes de qualquer crime", isto é, dos judeus. É uma linguagem forte, não de um diplomata.

"Mas Dell'Acqua em 20 de dezembro de 1943 desaprovou o texto elaborado por Tacchi Venturi: “E não só isso - observa Kertzer - para evitar perturbar as relações com a Alemanha com expressões de condenação que ele considera muito fortes ou explícitas. Dell'Acqua, embora ciente da gravidade das perseguições nazistas, escrevia que em qualquer caso "desconfiar da influência dos judeus" poderia ser "muito oportuno". Ele lembrava as providências tomadas no passado pelos papas precisamente "para limitar a influência dos judeus". E sugeria apenas falar com o embaixador alemão junto da Santa Sé, "recomendando que não se agrave a já grave situação dos judeus".

Uma atitude de caráter exclusivamente humanitário, da qual, no entanto, transparece a persistência de uma antiga aversão que nem mesmo o Holocausto foi capaz de mitigar”. De acordo com Riccardi, o texto de Dell'Acqua “reflete, por um lado, uma fraca compreensão da tragédia em curso, pelo outro, uma abordagem rigidamente diplomática. Ele se pergunta se seria o caso de confrontar os alemães por suas atrocidades, questionando-os diretamente, e recomenda uma atitude mais branda. Evidentemente, ele não desenvolveu a pietas que encontramos em outros membros da Igreja para com as vítimas dos nazistas”.

No entanto, a frase com a qual Dell'Acqua concluía seu memorando é impressionante, afirmando que "seria também preciso avisar os senhores judeus para falar um pouco menos e agir com grande prudência ...". Ele estava se referindo a um povo vítima de uma ação impiedosa de aniquilação. “Palavras que soam desdenhosas - nota Riccardi - nas quais percebe-se um fundo antissemita. Mas acredito que revelem sobretudo a inadequação de um funcionário do Vaticano perante uma situação sem precedentes, da qual ele não conseguia apreender as terríveis implicações”.

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