Hitler, o Vaticano e o papa que entendeu tudo errado. Artigo de John Cornwell

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06 Junho 2020

É pouco provável que os debates em torno do histórico do Papa Pio XII no período da guerra sejam resolvidos com a abertura dos Arquivos Papais. O grande fracasso do seu papado não foi o seu suposto antissemitismo, mas sim uma estratégia de longo prazo mal avaliada em relação à Alemanha nazista.

O comentário é de John Cornwell, jornalista e escritor inglês, autor de “O papa de Hitler: a história secreta de Pio XII” (Ed. Imago). Sua biografia do Papa Francisco será publicada em breve. O artigo foi publicado em The Tablet, 04-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Inaugurado no dia 2 de março deste ano, o arquivo de Pio XII foi fechado uma semana depois pela ameaça da Covid-19. No entanto, até o fim de abril, o historiador da Igreja e professor Hubert Wolf, da Universidade de Münster, anunciou que havia descoberto novas evidências entre os documentos de que Pio XII e seus assessores no período da guerra eram culpados pelas atitudes antissemitas e, como resultado, falharam em agir de acordo com as informações de que centenas de milhares de judeus estavam sendo assassinados na Polônia e na Ucrânia. O Pe. Wolf também afirma que, três décadas depois da guerra, o Vaticano tentou enterrar essas evidências.

O documento crucial, de acordo com o Pe. Wolf, é um appunto (memorando) escrito no outono de 1942 pelo Mons. Angelo Dell’Acqua, que então trabalhava como na Secretaria de Estado e depois se tornou cardeal. O appunto se refere a relatórios separados sobre o massacre de judeus naquele verão: um de uma fonte judaica na Suíça, o outro de Andrey Sheptytsky, metropolita da Igreja Católica Grega da Ucrânia.

No dia 27 setembro de 1942 a Casa Branca pediu a opinião de Pio sobre os relatórios, acrescentando que esperavam a sua ajuda em denunciar o regime nazista pela sua perseguição dos judeus da Europa.

No appunto, Dell’Acqua aconselha seu chefe, o cardeal secretário de Estado, Luigi Maglioni, que os relatórios não eram confiáveis, porque os judeus “exageram” e os católicos orientais “não são confiáveis”. O Pe. Wolf conclui que a avaliação de Dell’Acqua influenciou a decisão do papa de dar uma resposta evasiva ao inquérito dos estadunidenses.

Poucos meses depois, Pio fez uma transmissão de 45 minutos em italiano na Rádio Vaticano na véspera de Natal de 1942 [disponível aqui, em português]. A transmissão continua sendo debatida até hoje. Inserida em suas 5.000 palavras, nas quais nem o povo judeu nem os nazistas são mencionados explicitamente, há uma referência às “centenas de milhares de pessoas que, sem nenhuma culpa própria e às vezes só em razão da nacionalidade ou da estirpe, são destinadas à morte ou a uma progressiva extinção”. Isso foi o mais próximo que Pio chegou de uma denúncia pública da Solução Final em todo o curso da guerra.

“O que torna este appunto particularmente oneroso”, disse Wolf ao Jerusalem Post, é que os historiadores jesuítas que editaram as Actes et Documents – a compilação de 11 volumes dos arquivos do período da guerra encomendados pelo Papa Paulo VI em 1965 – “claramente o tinham em suas mãos, pois, no lado inferior da folha, há uma nota manuscrita que eles incluíram em sua edição, enquanto retiveram deliberadamente os três quartos superiores da folha com o appunto datilografado por Dell’Acqua”.

O Pe. Wolf disse ao Catholic News Service que seu estudo não pretendia ser exaustivo. Não obstante, sua interpretação do significado do appunto foi imediatamente descartada como “desenfreadamente errônea” e “ridícula”.

Matteo Luigi Napolitano, professor de História das Relações Internacionais da Universidade de Molise, discute a tradução do appunto por parte do Pe. Wolf, argumentando que o sentido da redação é que muitas pessoas exageram os seus relatórios, “até mesmo os judeus”.

O Prof. Jan Zaryn, historiador da Igreja polonês, disse a Jonathan Luxmoore: “Eu nunca me deparei pessoalmente com uma situação em que 11 volumes de material, publicados ao longo de duas décadas, sejam subitamente anulados por um único documento, depois alguns poucos dias de pesquisa”.

De fato, o Pe. Wolf não era um investigador solitário à caça de um “fato matador”. Ele tinha uma equipe de seis colegas doutorandos, financiada pela fundação Alfried Krupp von Bohlen und Halbach. A sala de leitura tem 120 lugares. A equipe de Wolf ocupava sete deles. O appunto de Dell’Acqua não foi descoberto pessoalmente por Wolf, mas sim pelo seu colega, Dr. Sascha Hinkel.

Wolf explicou: “Minha equipe e eu temos trabalhado nos Arquivos Vaticanos há mais de 20 anos. Estamos familiarizados com a prática do arquivamento e sabíamos em quais séries relevantes tínhamos que procurar. Preparamos nossa estada nos arquivos de uma forma muito diferenciada e procedemos de acordo com planos precisos”.

Os materiais estão digitalizados. Claramente, a equipe de Wolf se focou imediatamente no ano de 1942 e nos meses após a Conferência de Wannsee, em janeiro de 1942, quando a Solução Final foi planejada. O que Pio sabia e quando soube? O que ele fez a esse respeito nesse período de tempo? E por quê?

A equipe do Pe. Wolf pode ter encontrado a única nova evidência significativa contra Pio entre muitos milhares de documentos daquele ano.

Ao julgar o significado da descoberta em relação ao silêncio de Pio, no entanto, é crucial considerar as evidências para além do arquivo. Durante minhas próprias pesquisas sobre o silêncio de Pio na época da guerra, fiquei impressionado com dois testemunhos estranhos; ambos eram de mulheres, uma britânica e uma italiana.

Brigid McEwen, filha de um diplomata, esposa de um parlamentar conservador escocês e católica, escreveu uma carta irada a D’Arcy Osborne, o ministro britânico residente no Vaticano durante a guerra. Sem dúvida, ajudada pelo seu marido, McEwen seguiu relatos das atrocidades contra os judeus a partir da primavera de 1942 e apelou a Osborne para implorar a Pio XII que emitisse uma denúncia.

Sua carta, descrita por Osborne como “uma diatribe contra o silêncio do Vaticano diante das atrocidades alemãs nos Países Ocupados”, chegou a Roma em junho de 1942. Osborne ficou tão impressionado com a eloquência dos apelos de McEwen que os transmitiu para Pio, acreditando que isso poderia levá-lo a agir.

Em julho, Osborne escreveu para ela: “Eu concordo com cada palavra sua. O fato é que a autoridade moral da Santa Sé, que Pio XI e seus antecessores construíram sobre o poder mundial, está tristemente reduzida agora”. Osborne registra que Pio leu a carta de McEwen, mas que não se comoveu.

Dizem que Pio nunca falou sobre a perseguição nazista ao povo judeu por medo de represálias, citando o caso da Holanda, onde um protesto dos bispos motivou uma nova blitz de judeus. No entanto, uma denúncia sancionada por Pio e emitida pelas muitas vias de comunicação da Igreja no outono de 1942 poderia ter alertado incontáveis judeus, inclusive holandeses, sobre o que os aguardava quando fossem convocados pelos nazistas. No evento, a maioria desconhecia seu destino.

Esse ponto é tragicamente confirmado por Settimia Spizzichino, a única judia romana que sobreviveu à infame deportação dos moradores do gueto de Roma no dia 18 de outubro de 1943. Ela foi vítima das bárbaras experiências de Josef Mengele em Auschwitz, foi encontrada escondida em meio a uma pilha de cadáveres e retornou a Roma em 1945.

“Eu perdi a minha mãe, duas irmãs, uma sobrinha e um irmão. Pio XII poderia ter nos avisado sobre o que estava prestes a acontecer. Poderíamos ter escapado de Roma. Ele nos jogou diretamente nas mãos dos alemães”, disse ela em entrevista à BBC em 1995 e, novamente, em maior extensão, em uma edição do programa Sixty Minutes, transmitido pela CBS em 2000. Ela faleceu logo depois.

Os defensores afirmam que Pio foi responsável por salvar as vidas de muitos judeus, ao aprovar o uso de esconderijos em casas religiosas. Isso é verdade e o favorece, embora o arquivo reaberto possa mostrar até que ponto alguns dos elogios dados a Pio possam ser devidos a outros.

Mas um retrato abrangente de Eugenio Pacelli, o homem que era Pio, tem que levar em conta o seu papel diplomático desde 1933. O eminente historiador da Igreja alemão Klaus Schölder foi o primeiro a examinar isso em detalhes, e sua obra foi endossada por outros historiadores do período, incluindo Hubert Wolf.

Como cardeal secretário de Estado do Papa Pio XI, Pacelli negociou um tratado com Hitler que protegia a prática católica em troca do recuo da Igreja em relação a toda ação social e política. Esse Reichskonkordat assinado em 1933 desmoralizou a oposição e deu credibilidade a Hitler aos olhos do mundo. O tratado também envolvia o incentivo ao católico Partido do Centro a votar na ditadura de Hitler, a “Lei de Concessão”.

O Prof. Owen Chadwick, falecido historiador da Igreja de Cambridge, chamou a parte do Vaticano nesse tratado de “um dos atos mais controversos da história alemã”.

A base para argumentar que Pacelli era um papa ideal para os propósitos de Hitler não é o seu suposto antissemitismo, mas sim o monumental desastre da sua estratégia diplomática de longo alcance em relação à Alemanha nazista.

Sob essa luz, elogiar seus esforços clandestinos para salvar vidas judias durante a guerra é como tecer elogios a um homem por chamar os bombeiros para salvar a vida de seus hóspedes depois de permitir que a própria casa fosse incendiada.

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