Pio XII para além das lendas: um projeto de hegemonia universal

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20 Agosto 2020

"Mais do que nas lendas (sejam róseas ou negras), Bidussa nos convida assim a olhar para o Papa Pacelli como o defensor de uma Igreja capaz de ditar a agenda de um mundo ocidental nas garras da Guerra Fria, em um projeto de hegemonia que, destacando o seu carácter de "instituição universal e moral", a colocava em um degrau mais elevado em relação não apenas aos Estados nacionais individuais, mas também aos vários organismos supranacionais que o mundo havia instituído após a derrota de Hitler", escreve Giovanni De Luna, historiador italiano, professor emérito da Universidade de Turim, em artigo publicado por La Stampa, 19-08-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A abertura provisória dos Arquivos da Santa Sé relativos ao pontificado de Pio XII na primavera passada foi uma oportunidade para estudar o atitude do Papa Pacelli em relação ao Holocausto: uma questão marcada pela eterna disputa entre a "lenda negra" (o Papa submisso aos delírios de Hitler) e a "lenda rósea" (a de um pontífice ferrenho defensor civitatis, solícito em proteger todos os mais fracos, incluindo os judeus). Antes do fechamento do Arquivo devido ao coronavírus, David Bidussa, um dos principais historiadores italianos, teve tempo de consultar alguns documentos interessantes, escrevendo um livro (La misura del potere. Pio XII e i totalitarismi entre il 1932 e il 1948, Solferino, p. 272, € 17) que propõe uma interpretação decididamente inovadora.

La misura del potere.
Pio XII e i totalitarismi entre il 1932 e il 1948
David Bidussa, Solferino, p. 272, € 17

Para Bidussa, a política de Pio XII cruza dois percursos distintos: a atitude em relação aos totalitarismos do século XX, por um lado; as escolhas em relação ao judaísmo e ao nascimento do Estado de Israel, por outro lado. Tudo em um cenário em que o Vaticano busca um lugar adequado nos novos arranjos geopolíticos decorrentes da Segunda Guerra Mundial. O livro sugere, assim, uma cronologia particularmente eficaz, encerrada entre 1932 (ano da encíclica de Pio XI que condena duramente o ateísmo organizado e o comunismo, ao mesmo tempo que abre um caminho favorável aos governos da Europa Ocidental, com base nos Pactos de Latrão estipulado em 1929 com a Itália fascista) e 1948 (o ano da encíclica de Pio XII que se concentra na relação com o judaísmo e a posição do Vaticano sobre o conflito entre os países árabes e Israel).

Nesse período se distinguem pelo menos quatro fases:

- a primeira, em que a URSS e o comunismo são os principais inimigos;

- a segunda (encíclica de Pio XI, Mit brennender Sorge, de 1937) em que as relações com o nazismo se tornam mais rígidas, embora mais no plano teológico do que no político;

- a terceira – começando em 1942 – quando Pio XII finalmente acolhe a pressão de Roosevelt sobre a necessidade de derrotar o nazismo como prioridade;

- a quarta, no pós-guerra, em que, na órbita norte-americana, o anticomunismo volta a ser o valor fundador da política vaticana, inspirada na necessidade de defender a Europa cristã, uma Europa que também ressalta a estranheza dos judeus por suas próprias raízes.

É nesse contexto que Bidussa situa uma substancial frieza de Pio XII em relação ao nascimento do Estado de Israel (1948), obcecado apenas pela preocupação da tutela dos "lugares santos".

Mais do que nas lendas (sejam róseas ou negras), Bidussa nos convida assim a olhar para o Papa Pacelli como o defensor de uma Igreja capaz de ditar a agenda de um mundo ocidental nas garras da Guerra Fria, em um projeto de hegemonia que, destacando o seu caráter de "instituição universal e moral", a colocava em um degrau mais elevado em relação não apenas aos Estados nacionais individuais, mas também aos vários organismos supranacionais que o mundo havia instituído após a derrota de Hitler.

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