É chegada a hora de acabar com a supremacia masculina na Igreja Católica. Artigo de Roy Bourgeois

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27 Julho 2020

"Hoje, quando vejo pessoas ocuparem as ruas exigindo o fim do racismo e o desmantelamento do poder institucional que permite que a supremacia branca permaneça intocada, só posso esperar que um dia os católicos se levantem de forma semelhante e exijam o fim da supremacia masculina na Igreja com a mesma coragem e determinação", escreve Roy Bourgeois, que foi padre pertencendo à Ordem Maryknoll, em artigo publicado National Catholic Reporter, 24-07-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

 

Eis o artigo.

 

Nestes tempos desafiadores, me encho de esperança ao ver tantas pessoas se manifestando a respeito do racismo e da supremacia branca. Parece que uma conscientização maior da necessidade de igualdade tem tomado forma onde, antes, só víamos apatia e indiferença.

Uma outra forma de supremacia – uma supremacia masculina – corre solta no mundo há muitíssimo tempo. Tendo trabalhado de padre por 40 anos, me sinto bastante familiarizado com as injustiças que resultam quando o poder institucional reside unicamente nas mãos de um grupo de elite, neste caso, o sacerdócio somente composto por homens. Enquanto o mundo ao redor se debate no sentido da igualdade, a hierarquia católica apega-se ao poder lançando mão de justificativas ultrapassadas para a subordinação da mulher, com grande parte dessas justificativas tendo raízes na pseudociência e em meditações ignorantes de filósofos medievais.

Os supremacistas masculinos católicos – e, de fato, não acho exagero descrevê-los como tais – acreditam que a Igreja pertence a eles. Ultimamente, testemunhamos o Vaticano se engajar em tentativas pouco engenhosas de encontrar um “papel” aceitável às mulheres dentro da Igreja, crendo que algumas poucas mudanças superficiais poderão convencê-las a parar de buscar por igualdade. Estes homens enxergam as mulheres como menores, inferiores, aptas somente para o trabalho que consideram abaixo deles.

Consequentemente, as mulheres na Igreja permanecem relegadas a prestar, à elite masculina reinante, um trabalho gratuito e barato, seja como irmãs (freiras), seja como voluntárias ou colaboradoras que trabalham por salários de pobreza. Aquelas que aspiram à ordenação, rota única para um lugar significativo na hierarquia – e mesmo os que se atrevem a falar abertamente sobre uma tal possibilidade –, acabam sendo alvo de um sacerdócio profundamente misógino, com o objetivo único de silenciar a pessoa que ousa questionar a subserviência feminina na Igreja.

Em 2012, 40 anos depois de minha ordenação na Ordem Maryknoll, fui expulso por um delito dessa natureza, com o Vaticano me acusando de criar “grave escândalo” ao apoiar publicamente a ordenação feminina ao sacerdócio católico.

Um ano antes, mandei uma carta aos membros da comunidade maryknoll, acreditando que, por terem vivenciado o chamado de Deus ao sacerdócio, eles também sentir-se-iam compelidos a prestar solidariedade às mulheres chamadas a servir o Povo de Deus como católicas ordenadas ao sacerdócio.

Muitos destes meus companheiros responderam com um silêncio estonteante, outros reagiram com raiva, comportando-se como se eu estivesse do lado do inimigo. Um pequeno número deles admitiu apoiar a ordenação feminina, mas detestando arriscar perder o status e o poder que detinham apoiando a causa. Desde então, passei a ver que eu tinha subestimado severamente tanto o vício clerical pelo poder quanto a profundidade do sexismo e da misoginia incorporados no sacerdócio masculino.

Hoje, quando vejo pessoas ocuparem as ruas exigindo o fim do racismo e o desmantelamento do poder institucional que permite que a supremacia branca permaneça intocada, só posso esperar que um dia os católicos se levantem de forma semelhante e exijam o fim da supremacia masculina na Igreja com a mesma coragem e determinação.

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