“As pessoas confundem um objeto com a fé.” Entrevista com Massimo Introvigne

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18 Fevereiro 2020

Não se trata de um despertar da fé. “Eu acho que nem todos que compram uma relíquia depois rezam na frente dela, talvez se comovendo.” O risco é “confundir um objeto com a espiritualidade”. Esse é o desvio potencial que Massimo Introvigne, sociólogo e diretor do Centro de Estudos das Novas Religiões (Cesnur), identifica na crescente busca popular de “restos sagrados”, especialmente na internet.

A entrevista é publicada por La Stampa, 17-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O que nos diz esse aumento de pedidos de relíquias? Pode haver uma retomada da fé na base disso?

Temo que não. Concordo com aqueles que veem nessa ânsia de adquirir relíquias mais uma das tantas facetas do fenômeno do colecionismo, uma realidade imensa e poliédrica, que envolve milhões de pessoas e bilhões de euros, e que mereceria mais atenção por parte dos sociólogos também. A pode ser fortalecida por uma meditação diante das relíquias, que às vezes prescinde do debate sobre a sua autenticidade. Pensemos na devoção genuína de tantos peregrinos que vão a Turim para as exposições do Sudário. Mas uma suposta relíquia comprada na internet é outra coisa. Certamente, nunca se deve generalizar, e não podemos excluir que alguém que adquire uma relíquia depois se comova e reze na frente dela. Mas não acho que seja o caso da maioria dos colecionadores.

É um fenômeno atribuível apenas ao âmbito católico?

Não. Também existe uma busca semelhante de objetos sagrados no budismo, em que há uma longa tradição, mesmo que a corrida contemporânea por relíquias como objetos colecionáveis também foi condenada por vozes autorizadas lá. E os budistas ficam muito preocupados quando relíquias reais ou supostas do Buda são compradas por ocidentais não budistas para expô-las na sala de estar, fora de um contexto religioso.

Por quê?

Para eles, trata-se de uma grave falta de respeito, que, na verdade, se estende às estátuas que muitos levam para casa de viagens à Ásia. Na Tailândia, nasceu uma associação específica, que expõe outdoors nos aeroportos e nas cidades, e distribui folhetos para os turistas. Eles não pedem que os colecionadores ocidentais renunciem às estátuas e às relíquias, mas sim que, depois, tratem-nas com a veneração devida àqueles que, para milhões de pessoas, são objetos sagrados, expondo-as em um contexto e de um modo apropriados.

E o que você acha dessa mistura entre a antiguidade das relíquias e a internet, símbolo da modernidade?

Geralmente, a internet ou uma loja de antiguidades não têm diferença. No entanto, a mistura entre as relíquias arcaicas e a moderníssima rede nos diz algo, isto é, que certas formas de religiosidade popular – neste caso, misturadas com outras – sobrevivem também no mundo pós-moderno. Algo que o Papa Francisco entendeu muito bem ainda quando estava na América do Sul. Lembremos a sua contribuição ao documento de Aparecida dos bispos latino-americanos, que reavaliava a religiosidade popular. As formas deteriorantes certamente devem ser condenadas, mas a Igreja não pode renunciar à religiosidade popular em nome de um racionalismo mal compreendido.

Além dos casos criminais, quais são os possíveis perigos sociais e sociológicos desse fenômeno?

O risco é sempre a reificação da fé, do latim “res”, coisa, confundir um objeto que é sempre material com a espiritualidade. Esse é um fantasma presente geralmente em uma sociedade consumista e materialista. A religião também pode ser reduzida a um objeto de consumo. Eu compro algo e me sinto inserido em um caminho de fé. Obviamente não é assim.

O Vaticano e a Igreja deveriam intervir mais? E em que nível?

A reportagem do La Stampa fará com que a Igreja descubra as dimensões do fenômeno. Talvez o papa pudesse fazer uma menção a isso. Às vezes, as suas frases fulminantes nas pregações em Santa Marta são mais eficazes do que uma carta de uma congregação romana.

 

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