Nos Estados Unidos, a péssima saúde dos millennials preocupa os economistas

Foto: Unsplash

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

14 Janeiro 2020

A geração dos millennials sofrerá mais do que as outras de distúrbios físicos e mentais quando ocupar um lugar predominante no mercado de trabalho.

A reportagem é de Gérard Horny, publicada por Slate, 10-01-2020. A tradução é de André Langer.

Os millennials, geração nascida entre 1981 e 1996, são certamente a geração mais numerosa, mais educada e mais conectada que os Estados Unidos já conheceram. Mas há um problema: de acordo com um estudo publicado pela Moody's Analytics, sociedade de estudo e consultoria pertencente ao mesmo grupo da conhecida empresa de classificação, os membros dessa geração sofrerão com mais distúrbios de saúde do que aqueles que a precederam e esses distúrbios teriam um potencial de pesar negativamente na economia americana.

Este estudo é baseado em dados coletados pela Blue Cross Blue Shield (BCBS), uma associação que reúne empresas de seguros de saúde presentes em todo o território estadunidense. O primeiro índice negativo é o aumento da taxa de mortalidade aos 35 anos em relação à geração anterior, a geração X. (Lembrete metodológico: de acordo com os critérios utilizados neste estudo, temos a geração silenciosa, formada pelas pessoas nascidas entre 1925 e 1945, que conheceram quando jovens a Grande Depressão após a crise de 1929 e a Segunda Guerra Mundial, geração qualificada como silenciosa, porque teriam passado por todas essas dificuldades e trabalhado muito sem resmungar; a geração dos boomers, 1946 a 1965; e a geração X, de 1966 a 1980).

Múltiplas causas de mortalidade e morbidade

No passado recente, já havia um aumento na taxa de mortalidade em uma população ainda jovem, mas cada vez uma causa específica explicava esse fenômeno: a Guerra do Vietnã no final da década de 1960, um aumento no uso de drogas no final da década de 1970. Desta vez – e é isso que preocupa os especialistas –, as causas são múltiplas, variando de acidentes (incluindo overdoses) a câncer.

Mas a mortalidade é apenas o aspecto mais visível e dramático da evolução em andamento. Como disse Jean de La Fontaine sobre a peste, “nem todos morreram, mas todos foram atingidos”. O índice de saúde calculado pelo BCBS mostra uma deterioração geral do estado de saúde em comparação com a geração X, seja física ou mental, homens ou mulheres, com, no entanto, diferenças de gênero: os homens com problemas comportamentais têm maior probabilidade de cair no alcoolismo ou na dependência de drogas, enquanto as mulheres têm maior probabilidade de sofrer depressão severa ou hiperatividade. E a frequência de certos distúrbios se acelerou acentuadamente nos últimos anos, sobre os quais dispomos de estatísticas, entre 2014 e 2017.

Forte aumento nos gastos com saúde

Com base nesta observação, estão previstos vários cenários. No primeiro, conhecido como cenário de referência, os distúrbios atualmente observados podem ser apenas temporários e a frequência das doenças físicas ou comportamentais pode retornar gradualmente às cifras registradas anteriormente. Porém, ao contrário do que foi observado no passado com causas específicas e bem identificadas, está longe de ser obtida uma correção relativamente rápida, o que justifica a construção do chamado cenário adverso, podendo a realidade se inscrever entre esses dois extremos.

Tanto em um cenário como no outro, os responsáveis pelo estudo acreditam que os Estados Unidos estão caminhando rumo a gastos maiores com saúde, observando que a frequência mais elevada dos casos de hipertensão ou de colesterol alto ainda não levam a gastos maiores, os efeitos indesejáveis dificilmente se farão sentir antes dos quarenta anos; portanto, espera-se uma aceleração clara no futuro.

A saúde precária levaria a problemas financeiros que, por sua vez, levariam a novos problemas de saúde, etc.

Os Estados Unidos já dedicam mais de 17% do seu PIB à saúde; nos próximos dez anos, essa soma poderá aumentar para 20%, incluindo os gastos bancados pelas famílias e pela coletividade.

Para os economistas, esse aumento nos gastos com saúde pode ter duas consequências: por um lado, poderia impedir que as famílias gastassem seu dinheiro com outras despesas, o que poderia desacelerar outros setores da economia; por outro lado, poderia ter um efeito provocador de ansiedade, pois as famílias acham ainda mais difícil equilibrar seus orçamentos e, portanto, ajudam a acelerar ainda mais a frequência de distúrbios comportamentais. Esta última consequência pode ter um impacto importante, porque seu efeito seria cumulativo: problemas de saúde levariam a problemas financeiros, que, por sua vez, levariam a novos problemas de saúde, etc.

Menos saúde, menos riqueza

Mais importante, o que preocupa os economistas da Moody's Analytics é o impacto geral na economia dos Estados Unidos que esses problemas de saúde poderiam ter, dado o crescente papel desempenhado pelos millennials no mercado de trabalho à medida que a geração do baby-boom desaparece; com mais licenças médicas ou ainda mais pessoas que não trabalham mais ou trabalham menos, que são menos produtivas do que os seus pais, é uma geração que pode ver sua renda per capita cair de 1% a 11% de acordo com o cenário escolhido em comparação à geração X. E, no total, o PIB dos Estados Unidos poderia crescer menos rapidamente do que se essa geração tivesse se beneficiado das mesmas condições de saúde que aquelas que a precederam.

Tudo isso é realmente sério, doutor? De fato, a parte mais interessante deste estudo aparece no final, quando os economistas chegam à questão das desigualdades de renda. Que os problemas de saúde dos millennials afetem sua produtividade e tenham um impacto negativo no crescimento do PIB podem de fato parecer secundários. A verdadeira questão é saber a causa desses problemas. E aqui descobrimos um fato que confirma que a relação entre saúde e economia segue nos dois sentidos. Os estudos comparando os dados recolhidos de condado a condado mostram que os problemas de saúde surgem nas regiões onde a economia já mostrava sinais de fraqueza, medida pelos níveis de renda, pelos custos da habitação ou pelas taxas de desemprego.

Salutar chamada à ordem

E aí os economistas da Moody's Analytics apontaram um fenômeno que poderia nos interessar também na França. A priori, nossos sistemas de saúde e de proteção social diferem significativamente daqueles dos Estados Unidos e os problemas que afetam a geração americana dos millennials podem não ser encontrados neste lado do Atlântico [isto é, na Europa]. Mas não vemos por que a relação entre bem-estar material e saúde não se possa verificar também aqui. Há um ano, durante a crise dos “coletes amarelos”, a questão da diferença nos padrões de vida entre os diferentes territórios da França apareceu brutalmente em plena luz. E, desde então, também continuamos a falar sobre o problema dos desertos médicos. Sem dúvida, há aqui uma questão a ser acompanhada muito de perto.

Basicamente, a questão não é saber se corremos o risco de perder um ou dois décimos de ponto percentual do crescimento do PIB a cada ano, mas saber se em nosso país também não haveria áreas onde o progresso teria se estancado. Porque, no final das contas, essas estatísticas americanas constituem uma salutar chamada à ordem: não há garantia de que cada geração seja levada a viver mais e com melhor saúde do que a geração anterior, como vimos durante várias décadas. A história pode nos reservar algumas surpresas ruins, se não tomarmos cuidado.

Leia mais