''Francisco está do lado desses meninos em defesa da criação.'' Entrevista com Marcelo Sánchez Sorondo

Foto: campact | Flickr CC

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16 Março 2019

“Estou certo de que Francisco está muito contente com essa iniciativa em defesa do clima. Ele foi o primeiro a querer escrever a encíclica Laudato si’, também em vista dos acordos de Paris, e falou várias vezes sobre os acordos com diversos chefes de governo, dando de presente a própria encíclica a Donald Trump.”

Dom Marcelo Sánchez Sorondo, arcebispo argentino, chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, conselheiro e amigo de Francisco, diz ao La Repubblica que o desinteresse dos governos pelo clima “é um suicídio coletivo: o pensamento do Vaticano é de que é preciso uma conversão ecológica integral, um novo imperativo moral que decorra da ideia bíblica de que somos responsáveis pela criação. O papa escreveu a encíclica por esse motivo e compartilha o apelo do presidente [italiano] Mattarella. Nós somos a última geração que pode mudar as coisas”.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada em La Repubblica, 15-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Todas as sextas-feiras, a ativista sueca de 16 anos Greta Thunberg não vai à escola para se manifestar para que os poderosos da Terra lutem pelo clima. Hoje, estão previstas manifestações em todo o mundo. Os pequenos podem ver aquilo que os grandes não conseguem?

É isso. Há pouco mais de um mês, no Panamá, durante a viagem do papa, encontramos 500 adolescentes. Pedimos que eles nos dissessem qual é a maior urgência que o mundo deve enfrentar. Eles responderam: o clima, que hoje está abalado por culpa do aquecimento global e que só pode ser salvo com a energia renovável.

Quem não quer salvar o mundo?

Uma parte dos ricos da terra. Há presidentes de países que foram eleitos com campanhas eleitorais fortalecidas pelas empresas petrolíferas para que, uma vez no poder, se calassem sobre o clima.

Você se refere ao Trump?

De maneira positiva, digo que, felizmente, nos Estados Unidos, uma parte da opinião pública entende que os problemas são dois: a exploração do carvão fóssil e o desmatamento. O problema é agravado por um modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis, que é o coração do sistema energético mundial. Outro fator determinante é o aumento dos usos modificados do solo, principalmente o desmatamento para fins agrícolas.

O que Francisco pensa disso?

Ele conhece o problema a fundo. Ele está a par, por exemplo, daquilo que está ocorrendo na Argentina por causa do aquecimento: as geleiras dos Andes encolheram em 50%, e o Pampa, que tem um microclima capaz de produzir colheitas três vezes por ano, pela falta de água, viu uma diminuição de 30% nas safras.

No relatório sobre o estado do planeta, a ONU afirmou que a poluição provoca mais de um quarto das doenças e das mortes no mundo.

É isso, e a nossa Pontifícia Academia diz isso há muito tempo. Não é só a saúde dos pobres que está em perigo, mas também a dos ricos. Talvez por isso, aqueles que têm os meios para agir farão alguma coisa.

Acordos foram assinados em Paris em 2012. Em que ponto estamos?

A situação é muito mais dramática do que se acreditava em Paris. Os acordos devem ser revistos.

Quem paga as consequências do aquecimento global?

Os pobres, evidentemente. Os mais ricos, que representam 19% da população, consomem mais da metade dos recursos do mundo. A sua renda per capita é de 41.000 dólares contra a média do bilhão de pessoas mais pobres que é de 3.500 dólares. Os ricos são responsáveis pelo aumento do aquecimento e pela diminuição da biodiversidade.

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