Um olhar aberto e benevolente – o poder de um olhar transformador. Comentário de Ana Casarotti

Foto: canva

06 Junho 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo Mateus 9,9-13 que corresponde ao 10° domingo do Tempo Comum Cristo, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Naquele tempo: partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: "Segue-me!" Ele se levantou e seguiu a Jesus. Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: "Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?" Jesus ouviu a pergunta e respondeu: "Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Aprendei, pois, o que significa: 'Quero misericórdia e não sacrifício'. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores".

Neste domingo, o texto do Evangelho nos convida a refletir sobre o olhar de Jesus e o convite para segui-lo dirigido a Mateus.

Paramos, em primeiro lugar, no olhar de Jesus que os Evangelhos relatam em várias ocasiões. Em Mateus, há vários relatos que incluem esse “ver” e que podem nos ajudar a compreender os diferentes olhares que implicam atitudes distintas. No início do evangelho, os magos procuram o Rei dos judeus porque “viram sua estrela” e querem adorá-lo. Depois de passarem por Jerusalém, quando viram onde a estrela havia parado, “ficaram cheios de imensa alegria”. E então “viram o menino e sua mãe”, a quem oferecem seus presentes: ouro, incenso e mirra. João Batista “vê que muitos fariseus e saduceus vinham para que ele os batizasse” e exorta-os à conversão, a uma mudança radical de vida, a um arrependimento sincero. Quando Jesus se dirige a João para ser batizado, o evangelho relata que, depois de sair da água, “viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e pousando sobre ele. E ouve uma voz que diz: ‘Este é o meu Filho amado, o meu predileto’”. É o relato de um primeiro “ver” de Jesus. Até aquele momento, Jesus já havia visto muitas realidades, diferentes situações de vida, encontros, diálogos, discussões, momentos de alegria, de celebração, mas Mateus destaca esse “ver” de Jesus, que é o Espírito Santo acompanhado da voz do Pai, que revela sua identidade, sua missão, a tarefa que lhe foi confiada.

Daí em diante, Jesus passará a “ver” com novos olhos, com o bater do coração do Pai, com a mesma sensibilidade. Um olhar misericordioso, que comunicará a ternura amorosa de Deus, o convite para se aproximar Dele, assim como Ele faz quando se estabelece em Cafarnaum. Lá ele começa a ver com outro olhar; é um “ver” que é seguido por um convite, por um chamado para segui-lo: “viu dois irmãos – Simão e Pedro – e os chamou para que o seguissem”; depois, “viu Tiago e João, que estavam lançando as redes”, e “os chamou”.

O texto de Mateus nos diz que “Jesus percorre toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando a Boa Nova do Reino e curando entre o povo todo tipo de doenças e enfermidades”.

Jesus vê a necessidade de seu povo e, junto com aqueles que foi chamando para segui-lo, cura, sana, implica-se na dor de quem está ao seu lado: a opressão, as injustiças, a marginalização, todas aquelas estruturas que geram divisões, impedem uma vida digna, deixam alguns abandonados à beira do caminho! Eles vão até Jesus e ele os recebe, os cura, os sana, alimenta sua esperança.

Mais adiante, “ao ver a multidão”, sobe ao monte e começa a ensiná-los, entregando-lhes as bem-aventuranças, que são a carta magna para aqueles que querem segui-lo e fazer parte de seu povo, construir o Reino de Deus.

É um olhar que revela a necessidade de um povo que caminha com o coração desorientado, talvez confuso por tantas normas, leis e imposições que não libertam. Jesus entrega esse tesouro, que é o cerne de sua mensagem, e não está sozinho: está acompanhado daqueles que ele “vê” e convida a segui-lo.

Mais adiante, ele dirá que Jesus “vê a sogra de Pedro de cama com febre”, também ve a “multidão que o rodeia”; “vê a fé do paralítico deitado numa maca”. É um olhar que alcança quem está excluído da sociedade, a doença que era considerada um castigo – “por alguma razão deve ter sido” – e, por isso, a doença trazia consigo uma forte carga de culpa por um pecado pessoal ou alheio. Jesus vê a pessoa que sofre e a culpa que a condena, que atravessa sua vida e a leva a permanecer prostrada sem poder se levantar, que “não serve”, não anda…

Nesse modo de ver de Jesus há muito mais do que um simples olhar; ele se deixa tocar pela realidade que observa e age, não apenas cura, mas transforma essa pessoa, dando-lhe a oportunidade de servir, de caminhar. Não é apenas um ver exterior, um olhar que clama por meio de palavras vazias, mas que age: cura, sana, devolve o sentido da vida e a integra na vida social.

“Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: "Segue-me!" Ele se levantou e seguiu a Jesus.”

O texto deste domingo nos diz que Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos. Trata-se de uma pessoa aliada ao Império que contribuiu para a opressão do povo. 

Então, o que é que Jesus vê para chamá-lo a segui-lo? Por um lado, destacamos que o olhar de Jesus não tem fronteiras, não tem um limite estabelecido de acordo com nossos parâmetros. Jesus o chama e, na hora, Mateus se levantou e o seguiu; ele passa da escravidão e da dependência do dinheiro para a liberdade de seguir Jesus, de estar com quem o ama e lhe dá a paz interior, o perdoa, o liberta da opressão de ser um mero instrumento a favor do império opressor.

Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos.

Jesus compartilha a mesa com Mateus e com aqueles que, como ele, também eram mal vistos e desprezados pela sociedade. Os pecadores e os cobradores de impostos aproximam-se da mesa com Jesus — que não está sozinho, mas sim com seus discípulos — que também se sentam para compartilhar a mesa. Um novo olhar de Jesus que tem consequências para aqueles que “veem” essa situação com escândalo:

Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: "Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?"

São olhares egoístas que se sentem interpelados e, por isso, geram reclamações, perguntas e questionamentos. Mas Jesus não perde tempo com discussões infrutíferas; em vez disso, ele os coloca no seu devido lugar: eles se consideram “saudáveis” e, por isso, não precisam de médico: "Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Aprendei, pois, o que significa: 'Quero misericórdia e não sacrifício'. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores".

Somos convidados a reconhecer o nosso “Mateus interior”, a nossa hipocrisia, essa nossa tendência de aproveitar-nos dos outros para nosso próprio bem-estar e tranquilidade, as servidões e dependências que nos subjugam e nos aprisionam a estilos e formas de agir que não respondem ao chamado de Jesus. A partir da nossa doença, reconheceremos que realmente precisamos de um médico que nos liberte.

Junto como o Papa Francisco na sua visita ao grande país Asiático –Mongólia- pedimos ampliar nosso olhar e nossa mirada. “Deus pede-nos um olhar aberto e benevolente, porque, sem cair em sincretismos prejudiciais e em irenismos fáceis, há sempre alguma riqueza a descobrir: nas pessoas como nas culturas, nas religiões como nas nações, como faz o povo mongol, dirigem o olhar para cima, para a luz do bem. Só assim, a partir do reconhecimento do bem, se constrói o futuro comum; só valorizando o outro se pode ajudá-lo a melhorar". “Por favor, expandam os limites do olhar, não fiquemos prisioneiros das pequenas coisas”, conclama o Papa Francisco.

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