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03 Abril 2013

Após a descoberta do túmulo vazio por Pedro e João (no domingo de Páscoa), temos agora as aparições do Ressuscitado: hoje e o domingo próximo são dois domingos para continuarmos a cantar: “Eis o dia que o Senhor fez!”. Hoje é o domingo da Divina Misericórdia.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras 2º Domingo de Páscoa. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1a leitura:
At 5,12-16
Salmo: Sl 117
2a leitura: Ap1,9-13.17-19
Evangelho: Jo 20,19-31

Durante quarenta dias, Jesus aparecerá aos seus discípulos para que aprendam a crer nele sem que o vejam.

Os quarenta dias que temos para viver

Que tempo misterioso é este, os quarenta dias em que Jesus aparece aos seus discípulos! Quarenta dias: um número que já deve nos alertar, pois é, de fato, um código. Foram quarenta dias de dilúvio, no tempo de Noé; quarenta anos de travessia do deserto, no Êxodo; Moisés durante quarenta dias permaneceu no Sinai, até receber a Lei; Jesus fez preceder em quarenta dias de jejum e tentações a sua “vida pública”. Mas não alonguemos mais esta lista que é interminável. Quarenta é uma espécie de número perfeito; representa a duração simbólica de uma geração. Nas “narrativas” das aparições de Jesus, este número, entre outras coisas, representa o tempo da Igreja; este entretempo em que tudo já está dado, mas que nada foi ainda plenamente assegurado. Este é o tempo em que, pela ressurreição de Cristo, tudo foi cumprido, mas que ainda está tudo por ser feito, pois esperamos a sua última vinda. No entanto, desde já Ele se encontra, pois manifestou-se numa sala aferrolhada. Isto demonstra que está presente em todas as coisas É, contudo, uma presença inaccessível. Não pode ser encontrado onde se quer; é Ele quem tem a iniciativa. Penso haver aí uma imagem de nossa atual situação: Cristo habita este nosso mundo, sem que possamos manter sempre a consciência de sua presença e de sua ação. Pode até nos visitar, em momentos privilegiados. Mas são momentos que não dependem da nossa vontade.

A visita de Deus

Estamos, pois, em tempos de crer sem ver: este é um dos temas principais do evangelho de hoje. Mais: podemos encontrar Jesus sem que, à primeira vista, o reconheçamos. Foi assim com Maria Madalena, com os discípulos de Emaús, com Pedro e seus companheiros depois de uma pescaria inútil (Jo 21). Ele é o mesmo e não o mesmo; é exatamente Ele, mas de um modo novo, diferente. Não está mais condicionado pelo espaço e pelo tempo e obrigado a mostrar as suas chagas para poder ser identificado: foi o que se passou com Tomé, este nosso irmão gêmeo na recusa da fé. Ficamos sabendo então de outra coisa: não seremos nós, por nossos esforços virtuosos nem trabalhos de autopersuasão, que iremos reconstruir a nossa fé perdida. De fato, assim como a Tomé, é Jesus quem “se move” ao nosso encontro. Buscar a fé é um procedimento complexo: confiar em Jesus para encontrar a fé vem a ser manifestar uma fé “ao quadrado”, uma fé que vai além de nossas crenças a respeito do Cristo. Ora, uma fé como esta não é obra nossa, mas de Deus. Resulta daí que não devemos ter medo além da medida, quando a fé nos escapa: o próprio Jesus virá mostrar-nos os seus membros trespassados e o seu lado aberto. E convida-nos a tocá-lo com o dedo estendido. Muitas vezes, só depois reconhecemos a sua passagem: “Deus estava aí e eu não sabia”, diz Jacó em Gn 28,16.

Do medo à paz

Como acontece muitas vezes nas Escrituras, temos aqui a questão do medo dos discípulos: medo que, na segunda leitura, ganha uma forma espetacular, quando João cai como morto, à vista do Primeiro e do Último. Pelo mesmo motivo, por três vezes em nosso evangelho, Jesus diz aos discípulos: “A paz esteja convosco”. Este voto de paz fazia parte, certamente, das saudações correntes. Mas não foi sem alguma intenção que o evangelista o mencionou por três vezes seguidas. Em geral, a fé dada como contrária ao medo; podemos, então, concluir que a fé e a paz andam juntas. Alguém pode decepcionar-se, ao ler que a missão dos apóstolos se reduz à remissão dos pecados. É que temos uma noção de pecado muito limitada e jurídica. Ora, esta palavra designa tudo o que vem alterar ou destruir a relação de amor que deve fazer de todos nós um só corpo; designa tudo o que vai de encontro ao que Cristo veio trazer ao mundo. De onde vem o pecado? Deste medo que sinaliza a ausência da fé e que, armando-nos uns contra os outros, nos faz perder a paz, paz que é o outro nome da unidade. Suspeitas, medo de ser desqualificado, ignorado, eliminado. Medo que nos induz a dominar, a reduzir os outros ao estado de objetos de uso. Tudo isto faz de nós pessoas perigosas, daninhas, causando-nos grande fadiga. É disto mesmo que a fé na ressurreição de Cristo vem nos curar. As curas atribuídas aos apóstolos, na primeira leitura, são o símbolo disso.