28 Novembro 2018
Primeira mulher a presidir uma regional da Central Única dos Trabalhadores no Brasil, Vilma Aparecida de Araújo, 61 anos, morreu nesta terça-feira (27) após sofrer uma parada cardíaca, no hospital do Coração. Ela estava internada desde 30 de outubro e deixa marido, cinco filhos, além de dezenas de amigos e admiradores.

Foto: Arquivo Pessoal Fonte: SaibaMais
A reportagem é de Rafael Duarte, publicada por SaibaMais, 27-11-2018.
Vilma Aparecida é sinônimo de pioneirismo no país e uma referência na luta pela emancipação das mulheres. Natural de Ituiutaba, interior de Minas Gerais, veio com apenas 10 anos de idade para o Rio Grande do Norte e se estabeleceu com a família em Natal. Além de ter sido a primeira mulher a presidir a CUT, também foi a primeira presidenta do Sindicato dos Comerciários do Rio Grande do Norte após o processo de redemocratização no Brasil e a primeira mulher a dirigir a Executiva estadual do Partido dos Trabalhadores.
Apesar da forte ligação com o PT, a história política de Vilma Aparecida começa no final dos anos 1970 no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), fundado em 1968 como dissidência do PCB e com força tanto no Rio de Janeiro como na região Nordeste.
O economista e militante dos Direitos Humanos Roberto Monte recorda que Vilma fez parte de uma geração que renovou o perfil do sindicalismo no Rio Grande do Norte nos anos 1980: – “Junto com Aldemir Lemos, Régis Cortez, Raimundo Viturino, Crispiniano Neto, Luiz Alves e demais companheiros, Vilma deu um novo perfil ao sindicalismo no RN com a retomada de diversos sindicatos no campo e na cidade, e também com a fundação da CUT. Deixará saudades pela sua combatividade”, disse.
Uma fase marcante na trajetória de Vilma Aparecida também lembrada por Monte foi como operária e líder dos trabalhadores numa greve histórica dos funcionários da empresa Seridó, que mais tarde seria comprada pelo empresário e ex-vice-presidente da República José Alencar e passaria a ser conhecida como Coteminas: – Eu conhecia a Vilma operária da fábrica Seridó que comandou uma greve épica, quando os trabalhadores saíram da empresa e ocuparam o hotel Ducal, na Cidade Alta, que pertencia ao mesmo grupo. Os trabalhadores passaram vários dias no hotel e impediram a entrada dos hóspedes. Um acampamento foi montado na frente, na praça Kennedy, e por coincidência, num dos dias da greve, chegou para se hospedar o cantor Nelson Gonçalves, que não conseguiu entrar e teve que dormir no hotel Reis Magos.
Vilma Aparecida também fez história no movimento sindical ao liderar uma greve em 1995 mesmo grávida. Na época, ela rebateu, ao vivo, uma piada machista do apresentador e ex-vereador pela Arena nos anos 1970 Eugênio Neto, que no programa Tropical Comunidade, afirmou que ela deveria estar em casa: – “Lugar de mulher é na luta”, respondeu.
Da política sindical à eleitoral
Os amigos e colegas que conviveram com Vilma Aparecida destacam como características marcantes a oratória e a capacidade de mobilização dos trabalhadores. “Foi o maior quadro sindical do Rio Grande do Norte”, defende Roberto Monte, que narra o último encontro que teve com Vilma, na homenagem que os dois fizeram para um amigo em comum, o advogado Régis Cortêz: – Gostava muito de Vilma e a ultima vez que “tramamos” juntos foi quando faleceu o nosso grande amigo e companheiro Régis Cortez. Ela ligou para mim propondo fazermos uma homenagem a ele. Vilma conseguiu um carro de som e eu escolhi algumas versões da Internacional Comunista. E assim foi o cortejo do Centro de Velório ao Cemitério, ao som da Internacional…
Já filiada ao PT, Vilma disputou a eleição para vereadora de Natal em 1996 e ficou na segunda suplência. Educadora popular e formada em Ciências Sociais pela UFRN, Vilma Aparecida também foi fundadora do Fórum Potiguar de Economia Solidária e dirigiu a Escola de Formação Nacional da CUT.
Problemas de saúde no coração agravados nos anos 2000 afastaram Vilma Aparecida da luta diária sindical e partidária. Ainda assim, sempre que se sentia disposta, e mesmo amparada por uma cadeira de rodas, não deixava de participar de manifestações e atos de rua do PT.
Vilma deixa Carlinhos e os filhos Luana, Carol, Gutemberg, Gustavo e Pedro.
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