Müller torna a exagerar nas críticas e acusa Francisco de dar um enfoque "marxista"

Cardeal Müller | Foto: YouTube

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

02 Outubro 2017

Depois de desafiar o papa para um debate formal sobre o conteúdo de Amoris laetitia, o Cardeal Gerhard Müller já tem preparado seus primeiros golpes retóricos. O mais contundente: que Francisco, em seu pontificado, ao fazer distinções tão marcantes entre a doutrina e a prática pastoral, sucumbiu a um enfoque essencialmente "marxista" baseado em um "dualismo entre a teoria e a prática".

A reportagem é de Cameron Doody, publicada por Religión Digital, 30-09-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Falando com o National Catholic Register, o ex-Prefeito da Doutrina da Fé tomou a liberdade de discutir as diferenças, a partir do seu julgamento, entre os pontificados de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, por um lado, e o de Francisco, por outro. Os três primeiros papas, segundo o purpurado alemão, tomaram do magistério de Pedro um estilo no qual "deram resposta à todas as questões modernas e à gênese do mundo moderno", perguntas pelas quais eles "deram boas explicações". O Papa Bergoglio, apesar disso, "pensa que sua contribuição não é essa, porque [ele busca] um enfoque pastoral a partir do chamado Terceiro Mundo".

Um enfoque em que "os pobres são fundamentais para a Nova Evangelização" e que Müller qualifica como tendo uma "intenção muito boa". No entanto, também trouxe consigo uma nova atitude, na qual o Santo Padre "não quer apenas discutir a permissividade de alguns pontos da doutrina, mas também dar mais importância às boas intenções, à positividade, dizendo que o Evangelho está a favor da vida, e não apenas contra o aborto, por exemplo".

Segundo Müller, qual é o problema disto tudo? Na Igreja "temos a relação inseparável entre a fé e a vida, a graça e o amor, e não o dualismo entre a teoria e a prática". Distinguir entre estas últimas se constituiria em um "enfoque marxista". "Nossas categorias não são a teoria e a prática, mas a verdade e a vida", prosseguiu o purpurado, em uma observação que se torna um ataque ao papa que, especialmente em Amoris laetitia, tentou distinguir precisamente a doutrina de sua aplicação, em casos concretos.

Mas não é que, segundo Müller, o Amoris laetitia tenha sido o único lugar no qual o Papa Francisco tentou aplicar sua metodologia "marxista" na vida da Igreja. Em outra instância, seria a de ter continuado o "erro" que Paulo VI cometeu ao equiparar a Congregação para a Doutrina da Fé - historicamente, o mais importante dos dicastérios romanos - com as outras diversas Congregações. Além disso, ter aumentado a visibilidade e o poder da Secretaria de Estado, decisão de Francisco em que Müller voltou a fazer duras críticas por ter deixado a Doutrina da Fé ainda mais debilitada.

"A verdade", argumentou Müller, "é que a Doutrina da Fé é mais importante do que as demais [Congregações] porque a fundação da Igreja não é a política, mas a fé", tornando a fazer uma crítica que já havia lançado a Francisco algumas vezes: de que, como papa, ele se preocupa mais com as questões terrenas do que as da fé. "A Secretaria de Estado", continuou o purpurado, "tem o trabalho de organizar os núncios apostólicos, promover a paz e a liberdade entre os Estados, fomentar a justiça social, etc.". E ainda que este seja um papel "muito importante", disse Müller, com o Papa Francisco esqueceu-se que "a Igreja não é uma organização política; não é uma organização social; não é uma ONG".

E quais são as outras consequências deste "dualismo" marxista do Papa Francisco, segundo Müller? Não apenas que ele causou, em certo sentido, a atual polêmica sobre a Amoris laetitia, mas que ele a continua exacerbando. Além disso, pelo fato de que já não há "nenhuma ideia clara do status eclesiológico da Igreja romana na forma de congregação de cardeais e da Cúria romana", a última, que não é meramente "um aparato funcional ou burocrático". Por mais que o ex-Prefeito da Doutrina da Fé não creia que seja necessário pôr diretamente a culpa no papa por esta "confusão", ele acredita que Francisco "está autorizado por Jesus Cristo para superá-la".

"Não quero lhe criticar [a Francisco], públicamente ou em privado", suavizou Müller. "Mas sou livre para dizer o que acredito que seja para o bem da Igreja". A partir disso que o purpurado alemão aconselha a estratégia de "distinguir entre o que é a doutrina oficial da Igreja e o que [o papa] está dizendo" em suas "opiniões particulares".

"Estas opiniões particulares do papa precisam ser respeitadas porque são as opiniões e as palavras do Santo Padre, mas ninguém é obrigado a aceitar acriticamente tudo o que ele diz por exemplo sobre as questões políticas ou científicas". Acerca do lugar na Igreja merecido pelos divorciados e pelas pessoas que tornaram a se casar, também parece ser o caso para as críticas de Müller, já que, por mais que a discussão suscitada pelos 'dubia' e pela "correção filial" acerca do conteúdo de Amoris laetitia "não tenham ido contra ele", é verdade "que há uma necessidade de mais esclarecimentos" antes que os fiéis possam aceitar conscientemente os ensinamentos que a exortação apostólica contém.

Leia mais