Como os novos cardeais nomeados por Francisco podem impactar os católicos LGBTs

Imagem: Papa Francisco / wikipedia

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11 Outubro 2016

O Papa Francisco nomeou 17 novos cardeais no último dia 9, e estas escolhas terão um impacto sobre temas LGBTs, seja por quem foi nomeado, seja por quem não o foi.

Os três prelados dos EUA elevados a cardeal são Dom Blase Cupich (de Chicago), Dom Joseph Tobin (de Indianápolis) e Dom Kevin Farrell (ex-bispo de Dallas e atual prefeito do recém-criado Dicastério para os Leigos a Família e a Vida).

Como podem estes novos cardeais impactarem temas LGBTs na Igreja, em particular nos EUA? Apresento aqui cinco pensamentos.

A reflexão é de Bob Shine, publicada por New Ways Ministry, 10-10-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Primeiro, os três bispos americanos nomeados possuem reputações bastante pastorais. Cupich vem pedindo que a Igreja respeite as consciências dos gays e lésbicas, e disse que cada família merece ter proteção jurídica. Participante do Sínodo dos Bispos sobre a família, Cupich contou ao blog Bondings 2.0, um dos projetos do sítio New Ways Ministry, que teria sido benéfico ouvir casais homoafetivos naqueles encontros. Temos de admitir: o histórico de Cupich em se tratando de temas LGBTs não é perfeito. Ele não anulou as demissões de dois ministros de música em sua arquidiocese, Colin Collette e Sandor Demkovich.

Tobin (não devemos confundir com Dom Thomas Tobin, de Providence, Rhode Island, prelado extremamente negativo para com a comunidade LGBT) juntou-se a Cupich e outros bispos no ano passado ao criticar as prioridades definidas pela Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos – USCCB (na sigla em inglês), que focou no matrimônio e na liberdade religiosa, pois estavam em sintonia com a visão do Papa Francisco.

Quando um referendo que proibia o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi proposto no estado de Indiana, a resposta de Tobin evitou a linguagem hiperbólica e pastoralmente prejudicial empregada por tantos bispos; com efeito, o porta-voz da arquidiocese disse que os católicos “têm o direito de tomar suas próprias decisões quanto a estes temas”. Tobin também defendeu as religiosas do país quando o Vaticano lançou duas investigações contra elas, em parte pelo apoio que estas mulheres dão à igualdade LGBT.

Farrell, natural da Irlanda, desenvolveu uma reputação pastoral enquanto vivia em Dallas. Hoje ele está encarregado de fazer a fusão e administrar os departamentos que agora formam o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, cujo foco central está na recepção de Amoris Laetitia. Farrell pode causar um grande impacto na forma como a Igreja responde aos – e acompanha pastoralmente os – fiéis LGBTs e suas famílias nos inúmeros contextos mundiais em que a Igreja existe.

Válidas de nota também são as palavras afirmativas do arcebispo belga Jozef De Kesel, quem no ano passado disse ter “um grande respeito pelos gays (...) e pela maneira deles de viver a sexualidade”.

Segundo, os bispos dos EUA omitidos pelo papa são significativos. Dom Charles Chaput (da Filadélfia), Dom William Lori (de Baltimore) e Dom Jose Gomez (de Los Angeles), normalmente seriam designados cardeais porque suas sés tradicionalmente recebem o barrete vermelho.

Mas estes três bispos têm liderado a campanha dos bispos americanos contra a igualdade matrimonial e os direitos LGBTs, negligenciando temas muito mais valorizados pelo atual papa. E por Chaput ter interpretado Amoris Laetitia de forma tão estreita, ele essencialmente acabou rejeitando o documento que é a exortação apostólica papal sobre a família, produção que surgiu dos Sínodos dos Bispos nos últimos dois anos.

Terceiro, tomados com conjunto estas nomeações podem levar a mudanças mais amplas de direção na Igreja Católica dos EUA. Elevar o status de bispos que se mostram mais pastoralmente inclinados e que evitam entrar em guerras culturais, ao mesmo tempo omitindo bispos confortáveis com o atual establishment episcopal, é uma declaração forte por parte do papa. Neste mês de novembro, a USCCB escolherá a sua nova administração. Vai ser interessante se os bispos terão finalmente aceitado que estamos, de fato, vivendo na era do Papa Francisco.

Quarto, essas nomeações alteram a matemática no Colégio Cardinalício, que impactará no conclave quando Francisco morrer ou renunciar. Muitos analistas católicos têm dito que as reformas do papa somente durarão se o seu sucessor prosseguir num caminho semelhante. Com estes novos cardeais, Francisco tem nomeado 44 dos 123 cardeais eleitores.

Quinto, mesmo se estas nomeações resultarem em passos positivos, o histórico do papa em se tratando de temas LGBTs e reformas da Igreja permanece, de uma maneira geral, confusa. Com certeza ele representa uma melhoria em relação a seus predecessores, mas mudanças de estilo devem, em algum momento, vir acompanhadas de mudanças mais substantivas. Tomara que estes novos cardeais voltem às suas igrejas locais e promovam medidas concretas a partir da visão misericordiosa e pastoral de Francisco.

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