22º domingo do tempo comum – Ano A – A renúncia que traduz uma vida entregue por amor

Foto: Adolfo Perz Esquível

28 Agosto 2026

A reflexão é conduzida por Erika Gomes Duarte, consagrada secular da Comunidade Missionária de Villaregia. Ela é graduada em Teologia pela PUC Minas, especialista em Espiritualidade Cristã e Orientação Espiritual e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Atualmente, cursa Psicologia na PUC Minas.

Atua como professora de Teologia no ensino superior e desenvolve seu trabalho também no âmbito da pastoral cristã.

Leituras do dia

Primeira leitura: Jr 20,7-9
Salmo responsorial: Sl 62(63),2.3-4.5-6.8-9 (R. 2b)
Segunda leitura: Rm 12,1-2
Evangelho: Mt 16,21-27

Eis a reflexão.

Neste 22º Domingo do Tempo Comum, tanto a segunda leitura, da Carta aos Romanos, quanto o Evangelho segundo Mateus nos convidam a refletir sobre a dimensão da renúncia e do sacrifício na vida cristã. Mas será que compreendemos bem o que significa sacrifício na perspectiva cristã?

No Evangelho de hoje, Jesus diz aos seus discípulos:

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24).

Mas o que Jesus quer dizer com isso?

Seguir Jesus significa procurar o sofrimento? Será que a vida cristã consiste em acumular penitências, privações e sacrifícios?

Na atualidade, encontramos diversas publicações e discursos que convocam os cristãos para uma vida extremamente austera e disciplinada. Às vezes, parece existir até mesmo um certo incentivo ao sacrifício pelo próprio sacrifício, como se sofrer, privar-se ou impor-se determinados pesos fosse, por si só, um sinal de santidade.

Frequentemente, esse discurso vem acompanhado de uma catequese que transmite a imagem de Deus como legislador, fiscal, supervisor ou castigador: um Deus que observa cada passo da pessoa e espera dela uma série de sacrifícios para que, então, Ele possa conceder seus favores.

Mas será essa a imagem de Deus revelada por Jesus? Será que todo sacrifício é querido por Deus? Que tipo de sacrifício agrada a Deus? Para refletirmos sobre essas perguntas, podemos começar pela própria Palavra de Deus.

No livro do profeta Oseias, encontramos esta afirmação:

“Porque é amor que eu quero e não sacrifícios, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6). Também no Salmo 51 encontramos uma compreensão semelhante. Deus não se agrada simplesmente de gestos exteriores, quando o coração permanece distante Dele e do próximo (Sl 51,18-19).

Essa é uma grande preocupação muito presente na tradição profética. Diversas vezes, os profetas denunciam um culto e sacrifício vazios que continuam sendo realizados e oferecidos, enquanto, ao mesmo tempo, permanecem ações de injustiça, exploração e a indiferença diante do sofrimento do próximo.

O problema, portanto, não está no culto, na oração ou nos gestos religiosos. A contradição aparece quando a prática religiosa se separa da vida. Quando a pessoa que crê participa do culto, mas continua explorando, excluindo, ou praticando a opressão social. De fato, desde o início da história da salvação, o povo de Deus experimenta essa tentação de separar a fé da vida: no cotidiano, não reconheço a dignidade do outro, posso agir de maneira injusta ou procurar apenas os meus próprios interesses. Depois, porém, com medo de perder o favor de Deus, tento compensar tudo isso por meio de sacrifícios, penitências ou práticas religiosas.

Mas, em diversos momentos da Sagrada Escritura, Deus deixa claro que essa maneira de compreender o sacrifício não corresponde ao seu projeto de salvação. Não é o sofrimento pelo sofrimento que Deus deseja. E não são os gestos exteriores vazios.

Na fé cristã, a compreensão do sacrifício ganha um sentido ainda mais profundo a partir da vida, da morte e da ressurreição de Jesus Cristo. O cristão é chamado à conversão do coração e à uma vida ética. Mas o que caracteriza, então, o autêntico sacrifício cristão? Gostaria de destacar três aspectos, fundamentados no próprio Novo Testamento e nos ensinamentos de Jesus.

Primeiro: O sacrifício que agrada a Deus é discreto e humilde, realizado no segredo.

No capítulo 6 do Evangelho segundo Mateus, Jesus fala sobre a esmola, a oração e o jejum. E, nas três situações, ele faz um alerta contra aqueles que realizam essas práticas apenas para serem vistos pelos outros.

Jesus utiliza repetidamente a palavra “hipócritas”, justamente para denunciar uma religiosidade que se preocupa mais com a aparência do que com a verdade do coração. Por isso, o sacrifício cristão não precisa ser exibido.

Segundo: o sacrifício e a penitência devem nos conduzir à caridade e fortalecer o sentido da nossa missão.

O sacrifício cristão não é uma competição de força de vontade. Ele pode, inclusive, transformar-se em um esforço que me deixa excessivamente orgulhosa(o) de mim mesmo, alimentando a minha vaidade e fazendo-me sentir melhor do que os outros. Assim, uma prática que deveria me tornar mais capaz de amar pode acabar produzindo o efeito contrário: transformar-se em um modo de me sentir superior aos demais, mais puro ou mais fiel do que os meus irmãos e irmãs. Em vez de conduzir à humildade, esse tipo de sacrifício pode inflar o meu narcisismo: “Veja como sou disciplinado! Veja do que sou capaz!”

Ou, quando não consigo praticar determinadas renúncias, sinto-me culpada(o), inferior e incapaz. Mas tanto o orgulho quanto a culpa podem nos fechar à relação com os outros e reproduzir o movimento de curvatura sobre o próprio eu. Por isso, o verdadeiro sacrifício deve produzir frutos de caridade, comunhão e responsabilidade diante do próximo.

A Carta aos Hebreus nos oferece uma síntese significativa: “Por meio dele, ofereçamos continuamente um sacrifício de louvor a Deus, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome. Não vos esqueçais da beneficência e da comunhão, porque são estes os sacrifícios que agradam a Deus” (Hb 13, 15-16). O sacrifício que agrada a Deus está ligado à beneficência e à comunhão; à responsabilidade que assumimos diante da vida e da dignidade do próximo.

E há ainda uma terceira característica que, à primeira vista, pode parecer um paradoxo. O sacrifício cristão é leve. No Evangelho segundo Mateus, Jesus diz:

“Vinde a mim, todas vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,28-30).

Jesus conhece profundamente a realidade humana. Ele caminhou perto do povo, conheceu o sofrimento dos pobres, das pessoas doentes, dos excluídos e de todos aqueles que já carregavam pesos muito grandes em suas vidas. Por isso, Jesus não acrescenta simplesmente mais um peso sobre aqueles que já estão cansados.

Mas a vida e a renúncia tornam-se mais leves porque Deus nos doa a sua Graça para o nosso caminho. O Evangelho também fala de renúncia, fala da cruz, mas a cruz de Cristo não é um culto ao sofrimento. Ela é a consequência de uma vida vivida no amor, na verdade e na fidelidade ao projeto de Deus. Jesus não nos ensina a procurar cruzes desnecessárias.

Além disso, Jesus nos recorda que Deus não deseja uma existência marcada pela destruição daquilo que é humano. Por isso, a fé também nos ensina a reconhecer a presença da graça, a acolher o descanso, a valorizar a beleza da criação, a convivência, a amizade e todos os sinais de vida que Deus nos oferece.

Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, no número 6, encontramos um convite à alegria cristã: “Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas permanece sempre, pelo menos, como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados.”

O sacrifício cristão não é a negação da vida. Por isso, ao final desta reflexão, gostaria de voltar à segunda leitura deste domingo: “Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12,1).

E deixo, então, essa pergunta para a nossa oração:

Os seus sacrifícios agradam a Deus?

Assista também

A configuração de vida com a vida de Jesus Cristo. Reflexão de Leila Janaína Pereira da Silva

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