A ditadura do presente. Entrevista com Marc Augè

Mais Lidos

  • Especialização em Protagonismo Feminino na Igreja: experiência de sororidade e crescimento humano integral

    LER MAIS
  • Católicos versus Evangélicos no Brasil: “guerra de posição” x “guerra de movimento”. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

    LER MAIS
  • No meio do caminho estava o CIMI: 50 anos do documento-denúncia “Y-Juca-Pirama” e a atuação do Pe. Antônio Iasi Jr, SJ

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

22 Março 2012

"A crise provocada pelas finanças roubou-nos o futuro. Ela literalmente sepultou-o debaixo dos medos do presente. Cabe a nós retomá-lo". Assim fala Marc Augé, um dos antropólogos mais célebres do mundo, em seu último livro, Futuro (Ed. Bollati Boringhieri).

A entrevista foi conduzida pelo antropólogo da contemporaneidade italiano Marino Miola, publicada no jornal La Repubblica, 19-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O autor de Não-lugares mede cuidadosamente as palavras. Ele não tem a veemência nem a impetuosidade do tribuno, mas, por trás da sua reflexão pacata, percebe-se o rigor inflexível do iluminista. Que deixa ao mundo uma esperança: a de ser salvo pelas mulheres.

Eis a entrevista.

Por que para a maior parte das pessoas o futuro se tornou um pesadelo mais do que uma esperança?

As causas são muitas, mas duas me parecem decisivas. A aceleração impressa às nossas existências pelas novas tecnologias e a crise das finanças. Uma mistura explosiva que mudou a experiência individual e coletiva de tempo. Fazendo com que a incerteza se difunda, tornando epidêmico o temor daquilo que nos espera.

Transformando o futuro em um fruto envenenado.

Intoxicado por uma incerteza que une a todos. Os jovens temem não encontrar um trabalho, não poder projetar o seu futuro, e se sentem bloqueados em um eterno presente feito de precariedade. Seus pais, ao contrário, têm medo de perder a aposentadoria, a assistência social, de acabar na miséria.

O resultado é que a vida parece encurralada por um imobilismo sem saída. Sem progresso.

Sem mais nenhuma esperança de mobilidade social. Essa é a diferença com o passado. Meu avô não pôde estudar, mas era um homem inteligente e investiu na educação dos seus filhos. Meu pai era funcionário público e quis que eu me tornasse um intelectual, realizando em mim os seus sonhos. Isso foi possível graças à escola pública e à educação em massa. Hoje, não é mais assim.

Até porque agora a escola reproduz as desigualdades, as confirma, não visa mais a preenchê-las, a diluí-las.

Isso é verdade para a escola, assim como para todos os outros dispositivos de educação pública. Esse é o caso da abolição do serviço militar, que reduziu as oportunidades de encontro, de mistura e de nivelamento das diversas classes, filiações, culturas, camadas. Assim, o corpo social está cada vez mais imóvel, cada um trancado em seus próprios bairros, em suas próprias escolas, em suas próprias famílias, com uma tendência quase de castas, pré-moderna.

Típica de uma civilização que aboliu os ritos de passagem, as etapas de iniciação da vida, dificultando a construção de um futuro. Assim, de fato, todos estacionamos em um perpétuo hic et nunc.

De fato, vivemos em uma espécie de hipertrofia do presente. Que é amplificada pelas mídias, velhas e novas. Em certo sentido, o nosso tempo não é mais linear, mas sim circular. Como o das sociedades primitivas, como o do mundo agrícola. Baseado na alternância das estações. E, além disso, nós também vivemos de temporadas: esportivas, escolares, políticas.

Uma existência reduzida a calendário. O oposto do tempo histórico, do progresso, do sol do futuro.

É o contrário do que se pensa comumente sobre a civilização tecnológica que estaria perenemente inclinada à inovação. Ao contrário, somos prisioneiros de uma espécie de eterno retorno, pontuado  não mais pelo dobrar de sinos, mas pelos comerciais de TV e pelos ritmos das finanças globais. Vivemos mais, mas começamos a viver mais tarde. Pense-se na Revolução Francesa. Foi feita por pessoas que tinham pouco mais de 20 anos. Eram jovens, mas mudaram o curso da história. Paradoxalmente, a vida mais curta obrigava todos a amadurecer mais rapidamente.

Portanto, a globalização também globalizou o tempo?

É isso mesmo. Hoje, o tempo se tornou a unidade de medida de tudo, até mesmo do espaço. Não falamos mais em termos de distância quilométrica, mas sim de tempo de viagem. Três horas de voo. Duas de trem. Quatro de carro. E as nossas referências são globais, não mais nacionais. Cidades, e não países. Fala-se de Nova York, Mumbai, São Paulo, Paris. O conjunto forma uma nova geografia, uma inédita territorialidade virtual. Nesse sentido, a tecnologia e a economia são mais velozes e mais poderosas do que a política. E a colocam no canto, a encurralam.

Dos não lugares aos não tempos. É o capitalismo financeiro global que reescreve as coordenadas da realidade.

O capitalismo financeiro, de fato, realizou, a seu modo, o ideal universalista do proletariado de antigamente, o chamado internacionalismo socialista.

Como se dissesse "proprietários do mundo, uni-vos".

Obviamente, as finanças transformaram o universalismo em globalismo, em economia multinacional. É por isso que as desigualdades aumentaram, apesar do ingresso de novos protagonistas no palco da história.

É também por isso que a política está quase reduzida a governance, a simples gestão de consumos e serviços?

Sim, e, além disso, trata-se de má gestão. É uma ideia da política do fim da história. Com um certo modelo de livre mercado e de democracia que se mundializam e se tornam pensamento único, só resta assegurar o bom funcionamento do mercado. Assim, o mundo é reduzido a uma única e imensa província. É o último ato daquele declínio das grandes narrativas, filosóficas, políticas, nacionais, em que Jean-François Lyotard identifica o espírito da pós-modernidade.

Mas então tudo está perdido ou podemos fazer alguma coisa para retornar o futuro?

Apesar das aparências, nem tudo está perdido. Enquanto isso, a ciência e a tecnologia estão lhe abrindo portas importantíssimas, passo a passo. Estamos acostumados a pensar que, para criar um mundo novo, é preciso primeiro imaginá-lo. Ao contrário, as grandes invenções que estão revolucionando as nossas vidas, da pílula à Internet, não nasceram de uma imaginação política ou de sabe-se lá qual utopia. Não de uma grande narrativa, enfim, mas simplesmente das implicações concretas das descobertas científicas. Talvez estejamos aprendendo a mudar o mundo antes de imaginá-lo. Estamos nos tornando existencialistas pragmáticos. E disso pode nascer o novo desafio para o futuro.

Portanto, graças à ciência e à tecnologia, já estamos vivendo o futuro sem saber?

Sim, mas resta darmos o passo essencial para nos tornarmos titulares do nosso futuro.

Qual?

Acolher até o fim o desafio do conhecimento. Só o saber poder nos descerrar as portas de um amanhã melhor. Talvez o segredo da felicidade dos indivíduos e das sociedades esteja no coração das ambições mais vertiginosos da ciência. E, para realizá-las, as duas prioridades absolutas são a potencialização imediata da educação pública e a obtenção efetiva da igualdade entre os sexos. Dito em outras palavras: a escola e a mulher.

É por isso que você faz o elogio do pecado original?

Sim, e não é só um paradoxo. Foi graças a Eva que o homem comeu o fruto da árvore do conhecimento e se tornou homem. Assim começou a nossa história, e, se quisermos que haja um futuro, devemos continuar comendo esse fruto. Dividindo a maçã em partes iguais.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

A ditadura do presente. Entrevista com Marc Augè - Instituto Humanitas Unisinos - IHU