Desaparecimento de estudantes amplia crise política no México

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Novembro 2014

Mais de um mês após o desaparecimento de 43 estudantes em Iguala, oeste do México, que foram sequestrados por policiais corruptos, a crise política não para de crescer. A incapacidade das autoridades em encontrá-los tem provocado revolta entre os mexicanos, em uma onda que já se estende para além das fronteiras, abalando o governo e toda a classe política. A imagem do México foi manchada por um caso que revela as falhas de um Estado incapaz de erradicar a violência, a impunidade, a corrupção e a infiltração de suas instituições pelos carteis do narcotráfico.

A reportagem é de Frédéric Saliba, publicada pelo jornal Lee Monde e reproduzida pelo Portal Uol, 06-11-2014.

É a mais grave crise já enfrentada pelo presidente Enrique Peña Nieto, desde que ele assumiu o cargo no final de 2012. Mas seu mandato havia começado bem. A comunidade internacional elogiava a aprovação de uma série de reformas, no setor fiscal, de ensino e energias, que por muito tempo ficaram entravadas no Congresso. Em fevereiro, Peña Nieto chegou a ser capa da prestigiosa revista americana "Time", com o título "Saving Mexico" ["Salvando o México"].

Esse panorama promissor se rompeu bruscamente na noite de 26 de setembro. Durante a madrugada, no Estado de Guerrero, policiais da cidade de Iguala abriram fogo contra uma centena de estudantes da escola rural de Ayotzinapa que foram fazer uma coleta de fundos. Resultado: seis mortos e vinte feridos. Uma das vítimas foi encontrada com o rosto marcado por terríveis sinais de tortura. Os policiais levaram outros 43 jovens, antes de entregá-los ao cartel Guerreros Unidos.

A ira da população, revoltada com essa violência sangrenta contra os estudantes, aumentou após as revelações sobre o envolvimento do prefeito de Iguala, José Luís Abarca, e de sua esposa, María de los Ángeles Pineda, ligados aos Guerreros Unidos. Segundo a investigação, o casal deu ordens aos agentes municipais de atacar os estudantes dessa escola, conhecida por ser um bastião de militância regional, para que eles não perturbassem a cerimônia de uma instituição de proteção à infância, dirigida por Pineda.

Desde então o casal se encontra foragido, e as buscas pelos desaparecidos estagnaram, apesar de 2 mil policiais federais e militares estarem fazendo uma varredura pela região. Mas 56 policiais municipais e narcotraficantes foram presos, e as confissões de alguns deles permitiram a descoberta de valas contendo 38 corpos. Contudo, a lentidão na identificação aumenta a dor da espera para os parentes dos desaparecidos, que falam em um "crime de Estado".

 

Territórios nas mãos de cartéis

Essa crise levou à renúncia do governador de Guerrero, Ángel Aguirre, acusado de "omissão" em relação às ligações mafiosas do ex-prefeito de Iguala em um dos Estados mais violentos e mais pobres do país. As manifestações de revolta respingaram em Peña Nieto, que levou dez dias para se pronunciar sobre esse caso. Pior, esse caso revela o fracasso da estratégia de segurança do presidente, que não consegue controlar territórios que estão nas mãos de cartéis.

Nieto, cujo mandato marca a volta do Partido Revolucionário Institucional (PRI, centro) ao poder, passou a questão da segurança para segundo plano dando preferência a um discurso triunfante sobre suas promissoras reformas, sem atacar o sistema político-mafioso, instaurado pelo PRI há décadas.

O antigo partido hegemônico, que governou sozinho o México de 1929 a 2000, não é o único partido culpado. Os dirigentes do Partido da Revolução Democrática (PRD, esquerda), a maior parte deles oriundos do PRI, por muito tempo apoiaram o governador de Guerrero, antes de ceder à pressão popular. Até Andrés Manuel López Obrador, candidato derrotado da esquerda nas eleições presidenciais de 2012, é suspeito de ter acobertado os desvios do ex-prefeito de Iguala.

Para tentar desativar essa bomba-relógio, Peña Nieto vem insistindo em sua vontade de reforçar o Estado de direito. A polícia federal assumiu o controle de quatorze municípios de Guerrero, corroídos pelos cartéis. Na quarta-feira (29), o presidente conversou durante quase cinco horas com os pais de desaparecidos, comprometendo-se a intensificar as buscas. Na saída, esses pais se declararam "decepcionados" e "desconfiados" com o governo, ameaçando radicalizar seus protestos caso os desaparecidos não sejam encontrados em breve.

Já os estudantes das escolas rurais do país, que surgiram com a revolução de 1910, estão mais determinados do que nunca. Seus métodos de mobilização são muito eficazes (bloqueios em estradas, tomada de pedágios, ocupações de prédios públicos...), reivindicando o legado revolucionário de guerrilheiros célebres dos anos 1960-1970, como Lucio Cabañas, da escola de Ayotzinapa.

Se o governo não elucidar esse caso, rompendo radicalmente com a lei do silêncio das elites políticas em relação à corrupção e à impunidade, a credibilidade da jovem democracia mexicana e as perspectivas de reformas poderão estar em risco.