Edith Stein: mística e sentido da vida em tempos de incerteza

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15 Agosto 2026

“A reflexão steiniana sobre a mística”, segundo a professora Dra. Clelia Peretti, “revela um caminho de unificação interior e de descoberta do sentido da vida. Para ela, não se trata de um fenômeno extraordinário reservado a poucos, mas de um processo que envolve a pessoa em sua totalidade: razão, vontade, afetividade e abertura à transcendência”. Assim, “a experiência mística apresenta-se como caminho de plenitude humana e de realização existencial”.

A reflexão da Clelia se deu no âmbito da série Temas Eclesiais em Debate, promovida pelo Cepat, em parceria com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, o Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá – UEM, o Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB e as Comunidades de Vida Cristã – CVX, Regional Sul.

O evento, que aconteceu no dia 08 de agosto de 2026, gravitou em torno do seguinte tema: Mística e sentido da vida em tempos de incerteza. A atualidade da espiritualidade de Edith Stein. Coincidentemente, a atividade é realizada às vésperas do dia da sua trágica morte em Auschwitz, ocorrida no dia 09 de agosto de 1942, ao lado de sua irmã Rosa.

Clelia Peretti é professora e pesquisadora em Teologia na PUCRS. Realizou pós-doutorado em Fenomenologia pelo Centro Italiano di Ricerche Fenomenologiche e pela Pontifícia Universidade Lateranense. É doutora em Teologia pela Faculdades EST e mestra em Educação pela PUCPR. Possui graduação em História, Pedagogia e Ciências da Religião. Clelia participa como perita da Comissão da Doutrina da fé, da CNBB.

A professora da PUCRS partiu do tempo presente, caracterizando-o como um tempo de “incerteza, de aceleração histórica e de fragmentação subjetiva”, no qual “a busca por sentido torna-se urgente”. A modernidade líquida, ou a sociedade do cansaço, prima “pela fluidez das referências e pela erosão das estruturas de significado” e revela “uma crise profunda da subjetividade”. Acrescenta, para completar o diagnóstico, que os avanços nos campos da biotecnologia, da robótica e da inteligência artificial, “desafiam a experiência elementar de si”.

“É nesse horizonte de desorientação e busca que a espiritualidade e a mística de Edith Stein emergem com surpreendente atualidade”, acredita Peretti. “Sua reflexão fenomenológica e sua experiência espiritual oferecem uma resposta profunda às crises contemporâneas: mostram que a unidade interior, a verdade e o sentido não são construções arbitrárias, mas caminhos que se revelam na abertura ao mistério e na relação com o Absoluto”.

Para a estudiosa de Edith Stein, a sua espiritualidade e mística “oferecem um caminho de integração da pessoa e de reconstrução do sentido da vida em contextos marcados pela incerteza, pela fragmentação interior e pela crise antropológica contemporânea”, razão pela constitui “uma resposta consistente aos desafios atuais, iluminando a identidade humana e a vocação ao amor e à comunhão”, e “reaparece como linguagem de reconstrução interior”.

Destaca que “sua fenomenologia da interioridade evidencia que a busca de sentido não é mero exercício intelectual, mas um movimento integral da pessoa, envolvendo liberdade, afetividade e transcendência”.

A aproximação de Edith Stein da filosofia cristã, cuja tarefa é preparar o caminho para a fé, constitui “o ponto de partida para compreender os fundamentos da experiência mística em seu pensamento”.

A articulação entre conhecimento natural e fé “ilumina o percurso intelectual realizado por Stein: de Tomás [de Aquino] a Dionísio e destes à tradição carmelitana de Teresa de Ávila e João da Cruz. Nesse itinerário, sua fenomenologia dialoga com a metafísica tomista, reconhecendo pontos de convergência entre filosofia e teologia, embora ambas permaneçam distintas em seus métodos”.

Segundo Clelia, “para compreender como Edith Stein concebe a integração da pessoa e o sentido da vida, podem ser destacados alguns elementos centrais. No âmbito da integração pessoal, sobressaem a unidade entre razão e fé, a abertura à transcendência e a superação do individualismo. Quanto ao sentido da vida, destacam-se a busca da verdade e do ser, a cruz como caminho de plenitude e a incorporação da experiência mística no cotidiano”.

Citando a francesa Elisabeth de Miribel, Clelia observa que “a filosofia de Edith Stein é a batalha espiritual de uma alma santificada que procura compreender o sentido do mundo e da vida humana”.

Enfatiza também que entender a mística como um “repouso em Deus”, que era a atitude de Edith Stein, “não corresponde a uma atitude passiva, mas a uma receptividade ativa, na qual uma vida nova brota de uma força que não é meramente humana, mas divina”. Trata-se antes “de um percurso exigente, cujo termo nem todos alcançam”.

Uma das razões é porque exige assumir a cruz, não como “busca do sofrimento pelo sofrimento”, mas, a exemplo de Edith Stein, “como solidariedade com seu povo, com a Igreja e com toda a humanidade ferida. Sua espiritualidade mostra que a cruz cristã não aliena da história, mas aprofunda a responsabilidade diante do sofrimento do mundo”.

Assim assumida, a cruz revela-se “como caminho de união com Cristo e de plenitude da vocação humana, na qual a pessoa encontra o sentido último de sua vida na entrega confiante a Deus”.

Clelia destaca que “a mística steiniana, essencialmente relacional, constitui um caminho que conduz a pessoa, nas palavras da própria Edith, a “introduzir-se no reino misterioso da vida interior”.

Chama a atenção para o fato de que a mística, longe de afastar das pessoas e do mundo, “conduz à solidariedade e ao serviço”. E cita, para iluminar este aspecto, as palavras de Edith Stein ditas à sua irmã a caminho do campo de concentração: “Vem, vamos por nosso povo”. Segundo ela, “essas palavras sintetizam sua compreensão da mística como abertura ao outro e compromisso com a comunidade”. Ou ainda, longe de afastar da realidade, “ilumina a existência e fortalece o compromisso ético com a dignidade humana”.

A experiência mística não representa, “uma fuga da realidade, mas a plenitude do conhecimento humano, na medida em que permite à pessoa participar da vida divina. Em Ser finito e Ser eterno (2019) Stein mostra que o sentido da existência humana se revela plenamente na relação com Deus, origem e fim de toda criatura. Assim, a realização da pessoa não depende primariamente de conquistas exteriores, mas da conformação de sua vida à vontade divina”.

A experiência mística é também uma experiência unificadora. “Essa vocação à comunhão com Deus abrange a pessoa em sua totalidade. Corpo, alma e espírito constituem uma unidade integrada, chamada a responder livremente ao amor de Deus. A liberdade, portanto, não é mera autonomia, mas a capacidade de orientar a própria existência para a verdade e para o bem”. E completa: “a plenitude da vida humana consiste na integração de todas as suas dimensões em direção à união com Deus, fonte do verdadeiro sentido da existência”.

Essa busca profunda e sincera é ainda mais relevante em um mundo dominado por éticas e espiritualidades frequentemente indolores, dominado pela “lógica da produtividade, da eficiência e do consumo, a espiritualidade corre o risco de ser reduzida a uma técnica de bem-estar emocional ou a uma experiência subjetiva desvinculada do compromisso ético e comunitário”.

Em suma, “o percurso espiritual descrito por Stein realiza um movimento que vai da interioridade à comunhão, do encontro com Deus ao encontro com o outro, fazendo da mística uma experiência profundamente relacional e eclesial”. Assim compreendida, “a vida espiritual não pode ser separada da responsabilidade pelo outro e pela construção do bem comum”, avalia Peretti.

E retornando ao tema central da sua fala, Clelia conclui dizendo que, assim entendida, “a mística em Edith Stein pode ser compreendida como uma experiência de sentido em contextos marcados pela incerteza”, o que mostra a extrema atualidade do caminho espiritual de unificação empreendido por esta mulher que viveu intensa e profundamente alguns dos grandes acontecimentos do século XX.

Disponibilizamos abaixo a íntegra da exposição e do debate.

 

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