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18 Junho 2012

Existe alguma parte ou função do nosso cérebro que nos permita, nos facilite, nos garanta o contato com o sobrenatural? É uma pergunta a qual buscam responder, há vários anos, os especialistas do estudo do cérebro humano. Em muitas experiências religiosas, de diversas matrizes culturais e confessionais, vê-se que existe uma capacidade de se conectar com o transcendente, de superar o próprio eu. O êxtase, a experiência dos sufis, o samadhi e a iluminação das disciplinas orientais representam de forma específica esse ir além do próprio eu e representam em alguns casos o aspecto central da espiritualidade.

A reportagem é de Marco Tosatti, publicada no sítio Vatican Insider, 13-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os estudiosos observaram no passado que essa capacidade está ligada a um fenômeno particular, presente em algumas pessoas, a saber, o de minimizar o funcionamento do lóbulo parietal direito e enfatizar o uso de outras áreas. A oração e a meditação seriam os instrumentos úteis e necessários para desenvolver essa capacidade. E graças a esse treinamento seria possível desenvolver e melhorar a possibilidade de afinar a própria percepção com a dimensão espiritual.

Agora, Maria Beatrice Toro, psicóloga e psicoterapeuta, enfatiza um ulterior desenvolvimento da pesquisa nessa fascinante fronteira entre fé e ciência. "Os novos estudos – publicados no International Journal of the Psychology of Religion – mostram que a situação neurológica correspondente à experiência espiritual é mais complexa do que haviam pensado os primeiros estudos de Newberg e de D'Aquili: mais do uma área distinta, segundo os cientistas da Universidade do Missouri, se trataria de múltiplas áreas que se ativam segundo um esquema peculiar".

As pesquisas mais recentes não desmentem o dado de base aceca da menor atividade do lóbulo parietal direito. Mas apontam que outras áreas estão envolvidas nessa completa operação: o lóbulo frontal e também zonas subcorticais. "A espiritualidade, com base nesses estudos, aparece como algo dinâmico que utiliza diversas partes do cérebro para poder ser experimentada", escreve Toro. O lóbulo parietal direito cuida de áreas cerebrais dedicadas à orientação no espaço e no tempo, dois elementos que, na experiência da meditação profunda e da oração, desaparecem.

As técnicas de meditação, focalizadas na respiração, na oração, na concentração sobre um ponto, abrem a mente para experiências qualitativamente diferentes, de atenção a "algo maior". Brick Johnstone, professor de psicologia da saúde, estudou 20 indivíduos com um trauma cerebral que envolvia o lóbulo parietal direito, descobrindo que se sentiam menos concentrados sobre si mesmos e mais dispostos para a espiritualidade.

Além disso, as pessoas que vivem experiências religiosas profundas ativam o lóbulo frontal, enquanto se assiste à desativação parcial ou total, temporária, de algumas funções do lóbulo parietal direito.

A "neuroteologia" nos mostra que existe uma função ou um uso global do cérebro que gera um sentido de conexão com o transcendente. É interessante notar como a teologia clássica falava (e fala) de "sentidos espirituais", que, graças a essas pesquisas, encontram agora uma confirmação neurológica, nos mostram como é possível que se chegue a dimensões cognoscitivas peculiares da pessoa religiosa. Isso explicaria o "como". Responder o "por que" é outro assunto.

Justin Barrett, cientista que se ocupou várias vezes de temáticas religiosas – Cognitive Science, Religion and Theology (2011) e Born Believers: The Science of Children’s Religious Belief (2012) –, afirma que, embora haja provas científicas em favor de um fundamento biológico da crença religiosa, não é o seu trabalho no campo da ciência cognitiva que o levou a acreditar em Deus. Como muitos cristãos, ele teve a forte impressão de que há "significados mais profundos e uma finalidade nos eventos" que acontecem.