Escândalos de abuso mostram que a 'Hora dos Leigos' deve incluir responsabilização

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Junho 2016

Em outro lugar no site da Crux hoje, Jack Valero publicou um texto insistindo conferir que o clericalismo deve ser relegado às latas de lixo da história e que a Igreja deve abraçar plenamente o papel dos leigos. Com efeito, sugere que os leigos "representam" a Igreja tanto quanto o clero, se não em termos de sua autoridade de ensino, em sua missão evangelizadora.

Isso é um argumento que, sem dúvida, terá eco em muitos católicos, incluindo o Papa Francisco, cuja aversão para o clericalismo é bem documentada. Uma história exclusiva da Crux, no entanto, oferece um lembrete importante de que os leigos devem lidar tanto com o ônus quanto com o bônus: se quiserem ser autorizados a algo, também têm que se responsabilizar.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 03-06-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Em poucas palavras, Austen Ivereigh relatou do Peru que o líder de um tribunal da Igreja de lá teria escrito uma carta meticulosa documentando os esforços para informar o Vaticano sobre acusações de abuso sexual e outras formas de abuso contra o fundador de um movimento leigo poderoso conhecido como o Sodalício de Vida Cristã, expressando uma indignação visivelmente crescente com a falta de resposta ao longo de quatro anos.

Foi apenas em maio que Congregação dos Religiosos do Vaticano finalmente nomeou um delegado para supervisionar um processo de reestruturação, e ainda não impôs qualquer punição eclesiástica sobre o fundador, Luis Fernando Figari.

Certamente, o atraso é difícil de entender, porque a primeira acusação contra Figari foi transmitida a Roma em 2011, não décadas atrás, quando tal letargia era a norma. Isso foi depois da explosão dos escândalos de abuso nos EUA em 2002/2003, após a propagação que começou na Irlanda e varreu a Europa em 2009/2010.

Até 2011, o compromisso de "tolerância zero" tornou-se mantra público do Vaticano. O fato de que as acusações possam ter sido ignoradas por tanto tempo, nesse ponto, portanto, é intrigante, para dizer o mínimo.

Na tentativa de explicar a situação - o que, para constar, é diferente do que defendê-la - há provavelmente vários fatores.
Um deles é que por um "Instituto de vida consagrada" reconhecido pelo papa encontrar-se sob a autoridade da Congregação dos Religiosos, o caso Figari acabou não se deparando com a Congregação para a Doutrina da Fé, o departamento que tem estado por muito tempo na dianteira das respostas do Vaticano aos escândalos de abuso e tem pessoal e estrutura adequados para lidar com esses casos.

Outra é que uma transição na liderança estava se desenrolando na Congregação dos Religiosos quase simultaneamente. No início de 2012, havia rumores de que o arcebispo norte-americano Joseph Tobin , um ex-superior religioso redentorista e o segundo dirigente da congregação naquele momento, poderia estar encaminhando sua saída, e em outubro de 2012, foi nomeado como o novo arcebispo de Indianápolis.

Se Tobin ainda estivesse no posto, a resposta poderia ter sido mais agressiva - e a congregação tardiamente confirmou o fato, nomeando-o seu delegado com o Sodalício.

No entanto, há outro elemento também, que é que Figari é leigo, e não padre.

Foi concedida autoridade à Congregação para a Doutrina da Fé de dispensar o estatuto habitual de limitações na lei da Igreja, a fim de processar os casos de abuso sexual, e ela baseia-se amplamente nessa autoridade. No entanto, a sua capacidade para anular esses limites só se aplica ao clero.

Não está claro neste momento que qualquer pessoa tenha autoridade para tirar conclusões semelhantes em relação a um leigo, o que pode ter levantado dúvidas na Congregação dos Religiosos sobre sua capacidade legal para abrir um processo formal contra Figari, uma vez que a maior parte das acusações contra ele data da década de 1970.

Com efeito, o catolicismo parece ter evoluído em uma espécie de sistema de duas vias da justiça: punição rápida e relativamente certeira para a maioria dos sacerdotes que cometem abuso e consequências mais lentas e mais confusas para todos os outros.

(Há também um problema de responsabilização pelos bispos que não administram bem as reclamações de abuso, mas isso é outra conversa.)

Aqui é onde nos cruzamos com a questão do estatuto dos leigos.

O "empoderamento leigo", quando concedido, em seu sentido integral não significa segurar escritórios ou representar dentro da Igreja institucional - significa aproveitar a vocação laica no mundo secular, transformando-a de dentro para fora, à luz do Evangelho.

No entanto, os leigos insistem, apropriadamente, na igualdade de condições no interior da Igreja também, obviamente, com papéis distintos dos do clero, mas iguais em direitos e dignidade. Se a demanda significa alguma coisa, no entanto, provavelmente também tem de incluir a igualdade no enfrentamento das consequências de suas ações.

Em outras palavras, os católicos mais zelosos sobre a realização de uma "hora dos leigos" também devem ser os primeiros a insistir que a lacuna na lei da Igreja que pode ter distanciado Figari por tanto tempo seja preenchida.

Para ser franco, o empoderamento sem responsabilização é ainda um embuste. Isso também parece ser parte da história Figari.