Problemas em Cuba? Ligue para o Papa

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14 Janeiro 2015

"Francisco pareceu ser um herdeiro à altura de João XXIII, unindo os fiéis com sua humanidade e espírito que parece mais inclinado a perdoar do que a castigar. Desde os seus primeiros meses de papado, ele pôs a Igreja numa posição mais confortável de coexistência com evolução", escreve Ted Widmer, assessor para projetos especiais da Brown University e pesquisador na New America Foundation, em artigo publicado pelo The Boston Globe, 11-01-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

A Nova Inglaterra [1] foi fundada quando e onde se teve certeza que, desde o início, os seus colonos estariam submetidos a um drama global de poder e religião. Ao norte, os colonos franceses eram uma ameaça constante; ao sul, os espanhóis comandavam um império enorme, reafirmado por bula papal. Os navios traziam notícias das guerras religiosas que consumiam a Europa. Dentro deste cenário, um inimigo se elevava acima de todos: o papa. Para este povo pronto a temer a autoridade central, o chefe do Vaticano parecia ter todas as qualidades de um inimigo perfeito – aparentemente um poder ilimitado sobre os reis e sacerdotes, legiões de adeptos sombrios e um armário cheio de chapéus pontudos. Os primeiros habitantes da Nova Inglaterra chamaram a Igreja Católica de “a Meretriz de Roma”, “a grande prostituta”, e nomes piores. Cotton Mather estava convencido de que o papado era o anticristo previsto no Apocalipse.

Felizmente, as coisas se acalmaram desde então. Massachusetts é, hoje, o estado americano mais católico (44%), tendo ultrapassando Rhode Island em 2010. Um papa celebrou uma missa em Boston em 1979. Mais recentemente, a Nova Inglaterra encontrou outros motivos para dar as boas-vindas a uma intervenção papal em grandes assuntos de Estado. No mês passado, quando os Estados Unidos e Cuba anunciaram o desejo de renovar as relações após um impasse infrutífero de 54 anos, o Papa Francisco recebeu os créditos por ajudar na intermediação do acordo, com uma ajuda significativa do Cardeal Sean O’Malley e da organização sem fins lucrativos sediado em Cambridge chamada Beyond Conflict.

Esta eletrizante boa nova ecoou uma intervenção anterior feita por um papa diferente, João XXIII, durante uma das passagens mais obscuras da história americana. A Crise dos Mísseis de Cuba, em outubro de 1962, representou o ponto alto da Guerra Fria e pôs cara a cara as duas superpotências mundiais, EUA e União Soviética. Finalmente, como sabemos, a razão prevaleceu, e a guerra foi evitada por uma margem mínima. Grande parte dos créditos foram dados a John F. Kennedy – o nosso primeiro e único presidente católico – por sua gestão hábil da crise. Mas, o que até certo ponto não foi reconhecido na época, o papa também desempenhou um papel fundamental. Uma vez mais, a rota para o seu envolvimento se deu através da Nova Inglaterra.

Quando estourou a crise dos mísseis, tanto Kennedy quanto João XXIII já estavam se mobilizando. O Concílio Vaticano II foi aberto em 11 de outubro de 1962 e começou a varrer alguns dos antigos ritos, incluindo a missa latina. Três dias depois, a 14 de outubro, um avião U-2 sobrevoou Cuba e juntou provas fotográficas das novas instalações soviéticas para fabricação de mísseis, lançando a crise. Dia após dia, as pessoas se perguntavam se o mundo iria terminar em conflagração. Billy Graham anunciou que o fim dos tempos estava começando.

Para a maioria das pessoas que liam as notícias, havia uma sensação de impotência antes destes grandes eventos. Mas na Phillips Academy, em Andover, deu-se um pequeno conclave, que iria se mostrar extremamente importante para os eventos que ocorriam em Washington, Moscou e em Cuba. A chamada Conferência de Dartmouth era uma reunião de pensadores americanos e russos que vinham se encontrando, anualmente, desde 1960, para melhorar as relações entre os dois países. Assim que viram as notícias, resolveram fazer algo além de simplesmente aceitar uma lenta descida para o impensável.

Um sacerdote visitante vindo do Vaticano, Pe. Felix Morlion, perguntou aos russos e americanos na ocasião se uma intervenção do papa poderia ajudar a evitar a guerra. Um dos americanos, editor de revista chamado Norman Cousins, telefonou para a Casa Branca e falou com Ted Sorensen, chefe do departamento que produzia os discursos do presidente Kennedy. Sorensen confirmou que um pronunciamento papal poderia ajudar e, em breve, de Roma, uma mensagem foi enviada para o mundo todo, convocando os líderes a evitar um holocausto nuclear e lembrando-lhes de que o destino de todos os povos estava envolvido.

Nikita Khrushchev, líder da União Soviética, mais tarde considerou esta declaração papal como a “o único raio de esperança” num momento próximo da escuridão total. Os líderes comunistas russos eram conhecidos por serem céticos quanto à religião. Porém a mensagem do papa ressoou e forneceu uma cobertura diplomática tão necessitada. Em breve, Khrushchev retirou os mísseis e o mundo respirou aliviado.

A história, no entanto, não termina aí. A crise dos mísseis pode ter se desdobrado nos famosos “Treze Dias”, pegando emprestado o título do livro de memórias de Robert Kennedy. Mas, hoje, está claro que se passou quase um ano para que a crise se resolvesse por completo. Em 1963, os líderes dos EUA e da União Soviética se certificaram de que eles jamais iriam chegar tão perto da beira do precipício.

O Papa João XXIII foi um aliado essencial, movendo-se tanto publicamente quanto nos bastidores para apoiar uma resolução pacífica. O fato de que ele estava bastante doente não diminuiu o impacto de suas palavras. No ápice da Crise dos Mísseis, ele concebeu a necessidade de se produzir um documento especial sobre a paz. No dia 11 de abril de 1963, publicou a sua grande encíclica “Pacem in Terris” (Paz na Terra), que clamou por uma ordem mundial “mais humana” e amplos direitos humanos. Ele dirigiu-se não só aos católicos, mas a “toda família humana”, e esboçou um mundo que poderia, algum dia, valorizar a razão e a igualdade em vez da força. Foi a primeira encíclica papal a ser publicada por inteiro no The New York Times.

O papa morreu em 3 de junho, pouco antes de o presidente Kennedy proferir o seu principal discurso, em 10 de junho, na American University. Ao pedir por uma nova filosofia da coexistência com a União Soviética, ele efetivamente deu fim à fase mais perigosa da longa Guerra Fria, e tornou possível o Tratado para a Proibição Completa dos Testes Nucleares, que seria assinado meses depois. Com um fim apropriado para a imersão inesperada do papa na política externa americana, o discurso presidencial reproduziu algumas partes da Pacem in Terris, pedindo pelo “tipo de paz que torna a vida na terra válida de ser vivida”.

Este discurso mostrou como a política pode desafiar as expectativas. Durante a campanha de 1960, o medo de que o primeiro presidente católico fosse influenciado pelo papa tinha se tornado numa espécie de paranoia nacional, espalhada por evangélicos e partidários contrários a Kennedy no sul e no oeste. Kennedy levou este medo a sério a ponto de fazer um importante discurso em Houston, declarando-se a favor da separação entre a Igreja e o Estado. Ironicamente, em 1963, o papa havia influenciado-o de forma bem diferente do que ele ou qualquer outro poderia esperar: na prevenção da guerra nuclear, onde poucos poderiam imaginar.

Mais de meio século depois, muita coisa mudou. O papa vem das Américas. A Guerra Fria faz parte da história. A Rússia irrita os EUA, mas não pode mais nos ameaçar como certa vez pôde. Não esperamos que o papa intervenha nos negócios dos grandes países. Mas como Francisco mostrou no mês passado com a questão envolvendo Cuba, há momentos em que ele pode facilitar o diálogo.

Francisco pareceu ser um herdeiro à altura de João XXIII, unindo os fiéis com sua humanidade e espírito que parece mais inclinado a perdoar do que a castigar. Quando canonizou João XXIII no último mês de abril, ele o elogiou pela disposição de pensar o novo, mensagem que Francisco claramente assume para si. Desde os seus primeiros meses de papado, ele pôs a Igreja numa posição mais confortável de coexistência com evolução. E, neste começo de 2015, ele está enviando sinais de que está pronto para mudar a atmosfera novamente, desta vez clamando por uma atenção maior para com o meio ambiente.

A anúncio dos novos cardeais, feito semana passada, incluiu um significativo número de prelado de lugares afetados por mares que se elevam cada vez mais, e na próxima semana o papa vai viajar para as Filipinas, país que se recupera de tufões recentes. Na metade deste ano, Francisco irá publicar uma encíclica sobre o meio ambiente, no intuito de encorajar as negociações que irão ocorrer na ONU em setembro (onde ele irá estar em pessoa) e em Paris em dezembro. Este pode ser um ano animador.

Nota 1: A Nova Inglaterra (New England) é uma região dos Estados Unidos localizada na ponta nordeste do país. Boston é seu centro cultural e econômico.