08 Janeiro 2015
Na manhã seguinte ao discurso aos cardeais e bispos sobre as quinze “doenças” da Cúria, ontem de manhã Francisco enviou via Twitter uma mensagem como um pro - memória: “Às vezes somos escravos do pecado. Senhor, vem libertar-nos!”.
A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada pelo jornal Corriere della Sera, 24-12-2014. A tradução é de Benno Dischinger.
O cardeal Walter Kasper, uma experiência de vinte anos na Cúria, grande teólogo a quem Francisco confiou o relatório introdutório ao Sínodo sobre a família, diz o essencial quando se lhe pergunta se Bergoglio tenha desejado “censurar” os curiais: “O Santo Padre solicitou um exame de consciência. E no que me diz respeito, solicitou-o a mim, pessoalmente. Quanto aos outros, não compete a mim dizer coisa alguma: se havia uma crítica, cada um o deve avaliar na própria consciência”.
O exame de consciência: “O Santo Padre falou um pouco como um guia espiritual jesuíta, quando se fazem os Exercícios. A coisa fundamental é que ele quer uma reforma espiritual da Cúria. Por certo também a reforma das estruturas é importante e ele está trabalhando nisto. Mas, no fundo o problema é espiritual”, reflete Kasper.
Um retorno às origens?
“Certamente, sempre se deve reatingir o espírito evangélico. É também uma questão moral: disto depende o meu comportamento na Cúria como padre e como bispo”.
Por certo existiu a surpresa: a “patologia do poder”, a “doença do sentir-se imortais” ou talvez indispensáveis, “uma visita aos cemitérios nos poderia ajudar!”, o elenco parecia não terminar mais.
“Talvez se esperassem os augúrios de Natal, uma atmosfera festiva, e em vez disso o Santo Padre colocou questões de alto perfil espiritual e tomou um pouco a todos em contrapé”, sorri o arcebispo Ignacio Carrasco de Paula, sacerdote do Opus Dei e presidente da Pontifícia Academia para a Vida.
Surpresa relativa, aliás:
“Santo Inácio de Loyola começa precisamente pelo discernimento dos espíritos. Francisco está insistindo muito no aspecto espiritual, no exame de consciência. Desde o primeiro ano de seu pontificado sucedeu uma coisa que passou quase inadvertida: o Papa nos levou todos quantos perto de Arícia, para fazer os exercícios espirituais. Recordo o seu exemplo, naquela semana: comportou-se com grande simplicidade, observou o silêncio, somente no final tomou a palavra para agradecer ao pregador do retiro”.
E, quem fala de bastonadas na Cúria?
"Exagera, sem dúvida. O Santo Padre retém que se deva exigir mais, isto sim. Chama a um grau de responsabilidade mais elevado, também no nosso serviço. Vem-me à mente uma anedota, a resposta de João XXIII a um embaixador americano que lhe perguntava quantas pessoas trabalhavam no Vaticano: “A metade, mais ou menos”.
O cardeal Leonardo Sandri, argentino como Bergoglio, conta ter-se aproximado do Papa após o discurso na sala Clementina e lhe ter dito: “Como os padres no deserto!”
Em que sentido, eminência?
“São os padres que chamam à austeridade de vida, aos ideais evangélicos. São as coisas que o Santo Padre repetiu a toda a Igreja nestes dois anos. A coisa importante, e também muito útil, é que Francisco tenha feito uma espécie de síntese, o seu “catálogo” põe em ordem todas as tentações em relação às quais exorta a Igreja a estar em guarda: é uma chamada à conversão para todos”.
À Cúria em particular, no entanto.
“Certamente. A Cúria deve ser exemplar em seu comportamento. Como dizia Gregório Magno, tu foste colocado para custodiar o povo de Deus. Deves ser um modelo de vida, não um motivo de escândalo que cria mal-estar ou até alimenta a incredulidade”.