Vaticano sobre Brittany: ''Não houve dignidade''

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06 Novembro 2014

Nenhum julgamento sobre a pessoa, nenhuma investigação nos meandros da consciência de Brittany Maynard. Mas a reafirmação de que "suicidar-se não é uma coisa boa, é uma coisa ruim". Foi o que declarou o presidente da Pontifícia Academia para a Vida, o bispo Ignacio Carrasco de Paula, comentando o gesto extremo que está gerando discussão nos Estados Unidos e no mundo, o suicídio assistido de uma jovem com câncer no cérebro.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 05-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Não julgamos as pessoas, mas a dignidade é outra coisa, não pôr fim à própria vida", explica o prelado. Palavras, reitera, que "absolutamente não são uma condenação para essa pobre mulher que já sofreu bastante". Mas, esclarece De Paula, "o gesto de Brittany Maynard é, em si, condenável", ainda que "o que aconteceu na consciência nós não o saibamos", porque "a consciência é como um santuário em que não se pode entrar".

"Reflitamos – sugeriu o presidente do órgão consultivo da Santa Sé para as questões de vida e de bioética – sobre o fato de se, um dia, se levasse a termo o projeto para que todos os pacientes se tirem a vida. Estes seriam abandonados completamente: o perigo é iminente, porque a sociedade não quer pagar os custos da doença, e esta corre o risco de se tornar a solução".

Brittany "fez isso pensando em morrer com dignidade, mas aqui está o erro: o suicídio não é uma coisa boa, é uma coisa ruim, porque é dizer 'não' à própria vida e a tudo o que ela significa em relação à nossa missão no mundo e em relação às pessoas que temos por perto".

O prelado espanhol fala da sua experiência com quem sofre na última fase da doença: "Muitos doentes terminais, esta é a minha experiência como médico, têm a ideia de suicídio, mas, na Itália e na Espanha, por exemplo, ninguém o põe em prática, e, de todos os modos, nunca na minha vida eu aconselharia o suicídio para alguém".

"Não acredito que essa garota – acrescenta – tenha feito isso por covardia, por uma reflexão intelectual ou por um silogismo. As pessoas que ela tinha à sua volta não a ajudaram, foi aconselhada por um grupo pró-eutanásia."

Dom Carrasco de Paula faz questão de salientar, no entanto, que as suas palavras não são de condenação e que, em casos como esse, ou como o de Piergiorgio Welby – o doente de distrofia muscular progressiva, militante radical, que morreu em 2006, depois de ter obtido que lhe fosse suspensa a respiração artificial –, "são coisas sobre as quais não se pode insistir. O único que sabe como as coisas verdadeiramente estão é Deus. Ele deve ter entendido e acolhido".

"Profunda tristeza" e "uma grande derrota para todos" são as expressões do bispo Vincenzo Paglia, presidente do Pontifício Conselho para a Família. A SIR, a agência de notícias da Conferência Episcopal Italiana, entrevistou Salvino Leone, médico ginecologista, professor de teologia moral e presidente do Instituto de Estudos Bioéticos "Salvatore Privitera" de Palermo, sobre o assunto: "Na dignidade do morrer, eu também incluiria o respeito – diferente da partilha – por escolhas tão trágicas, em julgamentos precipitados e sem condenações, porque, se algum de nós tivesse que se encontrar infelizmente na mesma situação, eu não sei, de fato, mesmo em um horizonte de fé cristã, qual decisão tomaria".