18 Outubro 2014
Desde o início do Sínodo, a frente conservadora lamentou o fato de que o Sínodo estaria sendo manipulado, ou seja, o modo pelo qual as informações são dadas pelo Sínodo favoreceria os "liberais" e calaria os outros. Isso certamente não é verdade, basta ver o número de entrevistas publicadas pelos membros do Sínodo de todas as tendências.
A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio TheHuffingtonPost.it, 17-10-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Schönborn e o "desenvolvimento da doutrina"
O nono dia do Sínodo viu na coletiva de imprensa um dos cardeais teólogos mais destacados do Sínodo e na Igreja nos últimos 30 anos, o arcebispo de Viena. O dominicano Christoph Schönborn falou de "desenvolvimento da doutrina" (a propósito da "teologia do corpo" de João Paulo II) para dizer que houve mudanças operadas também recentemente por parte do ensinamento dos papas, e explicou mais a sua visão de uma nova linguagem e uma nova relação da Igreja para com os homossexuais, com referências à teologia do Concílio Vaticano II e ao Catecismo da Igreja Católica em 1992 (do qual o jovem Schönborn foi um dos principais redatores).
O fato é que, nesses mesmos minutos, a Sala de Imprensa do Vaticano estava carregando na internet os relatórios dos circuli minores (divididos por grupos linguísticos: italiano, inglês, francês, espanhol), e a imagem que surgia da teologia desses grupos era em parte diferente – exceto para o grupo liderado pelo próprio Schönborn.
Os grupos mais críticos são os de língua inglesa (norte-americanos, australianos, africanos) e um dos espanhóis. As críticas voltadas ao relatório publicado na segunda-feira são muitos, mesmo que não haja apelos claros para jogar no lixo esse texto-base. Neste ponto, há várias ideias que sobrevivem daquele texto-base, mas o trabalho para o texto final de sábado será muito complicado.
Acréscimos à supercomissão
Dentro do Sínodo, os norte-americanos, os africanos e outros anglófonos se fizeram sentir nos últimos dias, e isso está na origem da decisão do Papa Francisco de acrescentar à "supercomissão" de redação do texto final também o cardeal sul-africano Napier e o australiano Hart (presidente dos bispos australianos).
Não é apenas um critério geográfico (na comissão, a África e a Oceania estavam ausentes), mas também cultural: no chamado global South do cristianismo católico, os "valores" da família são sentidos de maneira diferente da Europa (especialmente sobre a questão homossexual à qual a Europa é mais tolerante, apesar de tudo).
O fato é que, sobre essa questão da família, a maior Igreja do mundo, a dos Estados Unidos, pertence, de fato, ao global South, em um alinhamento que representa uma novidade na história da Igreja Católica. Não é surpreendente que dos grupos de língua inglesa tenham vindo particularmente observações críticas ao texto-base para o documento final do Sínodo.
Manipulações e traduções
Desde o início do Sínodo, a frente conservadora (tanto os bispos quanto os jornalistas próximos a eles) lamentou o fato de que o Sínodo estaria sendo manipulado, ou seja, o modo pelo qual as informações são dadas pelo Sínodo favoreceria os "liberais" e calaria os outros.
Isso certamente não é verdade, basta ver o número de entrevistas publicadas pelos membros do Sínodo de todas as tendências. Mas certamente é verdade que, no Sínodo de 2014, houve inúmeros incidentes de natureza variada: as aspas atribuídas ao cardeal Müller ("vergonhoso"), depois desmentidas; a entrevista com o cardeal Kasper sobre o papel dos africanos; a retradução apenas no inglês da passagem da Relatio sobre os homossexuais é uma tentativa de manter calmos os conservadores, mas não é uma tradução fiel do texto (é simplesmente incorreto traduzir "accogliere" [acolher] por "provide for" em inglês: mas há muitos outros exemplos desse tipo de tradução nos parágrafos 50-52).
Mas, remetendo aos casos que veem o envolvimento da imprensa, parece, em suma, que também aconteceu com a imprensa católica aquilo que aconteceu com a imprensa política, ou seja, a perda da distinção entre o papel de ator interessado no resultado do processo e de jornalista desinteressado ao "cui prodest".
Os jornalistas no Vaticano II certamente eram menos numerosos, mas certamente mais confiáveis do que certos aprendizes de feiticeiro de hoje.
EUA e África, estranhos "companheiros de cama" – strange bedfellows
Esse clima de suspeita em que ninguém confia mais na neutralidade e na objetividade dos jornalistas tem consequências muito pesadas dentro de certas Igrejas, como a norte-americana, cujas tentativas de influenciar o fluxo das informações e da sua interpretação nos últimos dias criou uma situação grave.
Professores de prestigiosas universidades católicas (até mesmo daquelas cujo conselho de administração é composto em grande parte de bispos, como a Catholic University of America, em Washington) acusaram de racismo um cardeal e conselheiro do papa. Isso aconteceu nessa quinta-feira, quando foi publicada em inglês a entrevista arrancada do cardeal Kasper, em que, substancialmente, ele diz que a questão homossexual na África é um tabu, e que o Sínodo não pode confiar nos tabus para buscar novos caminhos na pastoral de pessoas humanas: importantes jornalistas e teólogos católicos norte-americanos acusaram Kasper de racismo, alimentando um ciclo de notícias que não se esgotou com o pôr do sol, mas se tornou o golpe típico das campanhas eleitorais norte-americanas, o "gotcha" de Sarah Palin.
Esse fato também é relevante para entender a artificialidade da aliança que os neocon norte-americanos tentam criar com os bispos africanos sobre a questão homossexual. Bastaria ir ler o que disseram esses neocon norte-americanos ideologicamente próximos de Wall Street quando o cardeal de Gana, Peter Turkson (presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz do Vaticano), publicou em outubro de 2011 um documento oficial que acusava o sistema econômico e financeiro internacional de criar injustiças e desigualdades no mundo global: como disse George Weigel, "esse documento nada mais é do que uma 'nota' publicada por um escritório secundário da Cúria Romana".