“Fora com as poltronas em excesso e o IOR sob vigilância, assim mudará a Cúria”

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02 Dezembro 2013

Em Verona, onde ontem abriu o terceiro Festival da Doutrina Social da Igreja, intitulado “Menos desigualdades, mais diferenças”, Maradiaga atacou o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, dizendo que “guardam somente os dados macro-econômicos, os números. Mas, o homem, onde está? A austeridade que impõem não cai bem”. E depois: “É uma Igreja do serviço e não do poder que Francisco quer”.

A entrevista é de Paolo Rodari, publicada no sítio La Republica, 22-11-2013. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista.

O poder é sempre negativo?

“Em si, não. O próprio Jesus disse: “Todo poder me foi dado”. É o uso do poder, quando nele entra o egoísmo, o querer prevalecer sobre os outros, que é mau. Também a Igreja esquece com frequência que o poder é serviço. O Papa o disse claramente: “Estou aqui para servir”. Caso contrário, também a Igreja cede às lógicas do mundo”.

Quais são estas lógicas?

“O novo bezerro de ouro é o mercado. Nele não se encontra o homem, mas somente a necessidade de fazer dinheiro ultrapassando todos. Não há nenhuma justiça social no nosso mundo globalizado. Somente desigualdades. O desenvolvimento é econômico, mas não ético. Após a Revolução francesa se desenvolveram dois sistemas: o da igualdade sem liberdade, e o da liberdade sem igualdade. De fraternidade, ao invés, jamais se ocupou ninguém. A fraternidade deve ser um novo “princípio não negociável, a defender sempre”.

No passado a Igreja se ocupava com frequência das questões políticas. Errava?

“Onde intervinha diretamente, sim. A Igreja, entendida como hierarquia, deve deixar a iniciativa aos leigos. As hierarquias, quando muito, podem dar orientações sobre os grandes princípios. Mas nada mais”.

Quem é para você Francisco?

“Defini-lo-ei como um Papa “próximo”. Para ele a prioridade é fazer-se próximo a todos, começando pelos últimos, pelos pobres, os doentes, os refugiados. Não só, é também um Papa que se faz próximo a quem não crê, como a relação que se inaugurou com Eugenio Scalfari demonstra”.

A reforma da estrutura do Vaticano é a reforma mais urgente?

“Espero não escandalizar ninguém. Mas antes deve ocorrer, também na Igreja, a reforma dos corações. Devemos todos voltar a abrir o coração ao amor. Há tantos que estão fechados em sua ideologia. Existe a Igreja de direita e a de esquerda. A tradicionalista e a progressista. O coração, ao invés, não tem estes limites. É isto que o Papa procura comunicar a todos. É preciso voltar ao Evangelho do amor. Bento XVI não escreveu por acaso: “Deus caritas est”, um texto que não passou de moda”.

Ficou espantado com o pedido de demissão de Ratzinger?

“Como todos. Mas, seu ato foi um grande gesto de humildade. E no futuro também outros Pontífices poderão imitá-lo se, como ele, sentirem que as forças não os sustentam mais. Sua discrição com Francisco demonstra que a convivência não é por nada um problema”.

Francisco falou da necessidade de reformar imediatamente as finanças.

“Certamente, far-nos-ia falta. A reforma está em andamento. O Vaticano necessita de um banco central, isto é evidente. Mas, junto ao IOR eu creio que sirva um ministério das finanças que trabalhe sob o signo da competência e da transparência. Não é mais o tempo das suspeitas. Não serve à Igreja esconder nada”.

Sobre o que trabalhará o Conselho dos oito no início de dezembro?

“Estamos recolhendo sugestões sobre os diversos dicastérios da cúria romana. E, quando tivermos sistematizado tudo, faremos recomendações para o Santo Padre. Há ministérios a incorporar. Há quem fala da necessidade de uma Congregação dos leigos e quem sugere a ideia de um “moderator curiae”. Veremos, não está decidido”.

Uma mulher poderá um dia tornar-se cardeal?

“Creio que não. Não serve clericalizar o papel das mulheres na Igreja. Valorizar mais, isto sim.”

Pensa que Francisco no futuro voltará a habitar no apartamento do palácio apostólico?

“Segundo meu ponto de vista, não. Aquele apartamento é um confinamento lá no final de um corredor no último andar do prédio. E ali as pessoas comuns teriam dificuldade de entrar. O Papa quer junto a si o povo. Uma grande graça em Santa Marta é a capela. Francisco escolhe quem vai participar da Missa matinal. Quis primeiro os trabalhadores do Vaticano, começando pelos jardineiros e pelos encarregados da limpeza. Quando terminarem os cinco mil dependentes, sem mais começará a chamar os simples fiéis, as paróquias, os movimentos. Em Santa Marta pode, ademais, viver em pobreza. Não quer uma cozinha especial, mas a comida que comem todos. Com frequência convida quem passa por ali a sentar-se à mesa com ele. Não são gestos populistas, mas a convicção pessoal que o faz estar com o povo”.

Por que, no conclave, escolhestes Bergoglio?

“Foi o Espírito Santo. Naquele conclave não estava de férias nem estava fazendo uma sesta. Bergoglio já havia solicitado sua demissão de arcebispo de Buenos Aires e esperava o sucessor para aposentar-se. Não pensava na eleição e tinha em mãos a passagem de retorno. Ao invés disso, o Espírito Santo sugeriu um nome diverso dos da cúria e da Itália”.