24 Outubro 2012
O Sínodo dos Bispos sobre a nova evangelização atingiu o seu ponto médio na última quarta-feira, dia 17, com o "relatório após a discussão" do cardeal Donald Wuerl, de Washington, EUA, que está atuando como relator, ou secretário-geral. No mínimo, deve-se creditar a Wuerl o fato de ter sido breve – esses relatórios muitas vezes se alongam, mas ele conseguiu resumir a discussão até hoje em concisas 4.000 palavras.
A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 19-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A finalidade da relatio post disceptationem é orientar os pequenos grupos de trabalho que começarão agora a sugerir proposições, e não antecipar seus resultados. No entanto, olhando para a forma como Wuerl enquadrou as questões, parece claro que algumas das grandes conclusões do Sínodo provavelmente serão:
- Um forte acento nos leigos e leigas como portadores de vanguarda da nova evangelização;
- Pequenas comunidades cristãs, às vezes chamadas de "comunidades de base" como um valioso modelo pastoral (Wuerl descreveu-as como "centros vivos de evangelização");
- Um estímulo para uma catequese mais eficaz, talvez incluindo um ofício de "catequista" como um ministério formalmente reconhecido;
- A noção de que a nova evangelização deve ser realizada em chave ecumênica (se o objetivo é, principalmente, ir ao encontro dos católicos afastados, então não se trata de ir pescar no lago alheio – e, hoje, como muitos participantes do Sínodo disseram, todas as denominações cristãs se encontram diante dos mesmos desafios no que diz respeito ao secularismo);
- Um chamado para um uso mais eficaz das comunicações sociais e da mídia digital;
- Uma renovação espiritual, incluindo uma prática sacramental reforçada e a conversão pessoal;
- Ênfase no ensino de justiça social da Igreja e de suas obras de caridade como uma ajuda valiosa para a evangelização – como Wuerl afirmou, eles são "um sinal para que os outros reconheçam a presença de Deus trabalhando no nosso mundo";
- Forte ênfase tanto na família quanto na paróquia como ambientes comuns em que a maioria das pessoas encontram a fé e crescem nela, e, portanto, como espaços privilegiados para a nova evangelização.
Se você está procurando a omissão mais gritante, provavelmente trata-se do tratamento dado por Wuerl à discussão do Sínodo sobre o Islã. Ele lida com isso em um breve parágrafo sobre o Oriente Médio e refere-se apenas indiretamente ao "reconhecimento das dificuldades que as comunidades cristãs enfrentam".
Essa referência de passagem, para dizer a verdade, não chega nem perto de capturar o sabor do que foi dito.
Talvez Wuerl se sentiu compelido a minimizar as coisas após um momento angustiante no dia 13, quando o cardeal Peter Turkson, de Gana, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz do Vaticano, exibiu um vídeo alarmista do YouTube que prevê uma tomada de posse muçulmana da Europa (assim como do Canadá e dos Estados Unidos) alimentada pela imigração e pelas altas taxas de natalidade. O vídeo é de três anos atrás e seus dados estatísticos foram totalmente desacreditados. Vários participantes do Sínodo, incluindo diversos bispos franceses, protestaram vigorosamente.
Turkson pediu desculpas depois, dizendo que não havia sido a sua intenção "chamar os cristãos às armas", e o Vaticano foi rápido em dizer que o vídeo não havia sido aprovado pelo Sínodo. No entanto, muitas pessoas prenderam a respiração, temendo outro "momento Regensburg", quando algo dito ou feito por uma autoridade eclesial desencadeia uma tempestade.
Nesse contexto, é compreensível que Wuerl possa não ter querido agitar as águas. No entanto, há quatro pontos que não encontraram eco no seu relatório:
A preocupação no Sínodo não veio apenas do Oriente Médio. Veio também da África e da Ásia, assim como dos europeus preocupados com a crescente presença muçulmana no continente e das questões que isso levanta em termos da identidade cristã da Europa. Seria um erro pensar que essa efervescência é geograficamente limitada.
A ascensão de governos de fachada islâmica está levantando preocupações reais sobre a liberdade religiosa, e não apenas nos pontos críticos habituais. Dom Jean-Baptiste Tiama, bispo do Mali, por exemplo, relatou que um movimento islâmico "ocupa dois terços do país e ameaça a democracia e a existência de outras religiões" e também "exalta o estabelecimento da lei islâmica em todo o país".
A preocupação não foi apenas com o extremismo islâmico. Houve também diversos debates sobre os esforços missionários islâmicos, em que alguns bispos admitiram francamente que em suas partes do mundo eles estão sendo empurrados para fora por missionários muçulmanos (Ralph Martin, um dos especialistas norte-americanos no Sínodo, me disse no dia 17 que um bispo lhe dissera que as mesquitas estão sendo construídas em seu país em locais onde não há um único muçulmano, como uma forma de "demarcar território").
Uma fonte particular de ansiedade foram os muçulmanos convertidos ao cristianismo – que, de acordo com vários participantes, não são tão raros como se poderia pensar, mas são obrigados a viver uma existência catacumbal por causa da recriminação tanto de jure quanto de facto.
Em geral, o impulso pode ser resumido da seguinte forma: a Igreja não deve sucumbir ao histrionismo ou ao alarmismo com relação ao Islã e não deve jogar a toalha em termos de diálogo, mas também precisa de uma capacidade mais robusta para reagir.
Resta saber se isso irá encontrar algum eco nas proposições que serão enviadas ao papa ou se uma espécie de silêncio diplomático também irá prevalecer nelas.