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07 Setembro 2012

A voz se apagou em um dia de maio de 2010. Tornou-se um sopro suave, um assovio amplificado por um microfone. A onda de uma altíssima espiritualidade forçada a se retirar, a recuar, mas não de se encolher diante do mal, o mal de Parkinson, com o qual estava acostumado a conviver e que o consumia desde os dias felizes de Milão. Era uma subtração física, e não uma subtração do pensamento ou da alma.

A reportagem é de Paolo Baldini, publicada no jornal Corriere della Sera, 01-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O cardeal Martini saiu, naquela primavera, de uma semana de internação no hospital San Raffaele. Estava magro e provado. Silabava, assoviava, pedia desculpas. Do arcebispo que Milão havia aprendido a amar de repente, do homem que sabia falar com os ateus e os terroristas, do cardeal que a Igreja queria como papa, desse homem restavam a figura imponente e os olhos azuis e profundos, a luz boa do olhar.

"Vocês já viram os melhores momentos e os piores momentos", disse um dia, com humildade. Dos três anos de visitas periódicas para preparar e redigir juntamente com Armando Torno a coluna Cartas ao Cardeal Martini, aqueles foram os dias mais duros.

A última residência do cardeal Martini foi o Instituto Aloisianum de Gallarate, a casa dos jesuítas a 40 quilômetros de Milão, refúgio final depois dos anos da meditação e dos estudos em Jerusalém. Duas pequenas salas e um pequeno banheiro no terceiro andar. Ao redor, os traços de uma vida irrepetível. Os comprimidos cotidianos que ele custava a engolir como se fossem pedras, os amados discos de Mozart, as máquinas para a fisioterapia, cada vez mais cansativa. O jornal Corriere sobre a mesa, as páginas voltadas sobre os assuntos mais caros, da bioética à dor do mundo. Raras fotografias, os sinais dos encontros mais importantes: um jovem com síndrome de Down, um sacerdote, um voluntário.

Ele era curioso, as novas tecnologias chamavam a sua atenção. Ele usava o computador, escrevia livros, enviava e-mails, se apaixonou pelo iPad. Antes daquela internação, havia as saídas da quinta-feira, os passeios pelo jardim do Aloisianum. Agora não mais.

Ele desejava o contato com os leitores. O fenômeno-cidade, ponto de encontro de tensões e esperanças, era um interesse recorrente, o seu reservatório. O seu conhecimento era acompanhado por uma formidável elaboração de pensamento, quase um sexto sentido, uma imaginação profética que ele desenvolvera no triângulo Roma, Milão, Jerusalém. As cidades da sua vida. A resposta a esses apelos estava traçado há muito tempo: "Eu estarei com vocês aonde quer que vão".

Ele acreditava na oração de intercessão. Seu lema episcopal, da regra pastoral de São Gregório Magno, era Pro Veritate adversa diligere, isto é, "pelo serviço à verdade, estar pronto para amar a adversidade". A pior das condenações era para ele não ser entendido ou, pior, mal entendido. Na pequena biblioteca, volumes escolhidos: a última polpa de uma vida de leituras em muitas línguas, antigas e modernas. Em um canto, com pudor, uma belíssima fotografia, tirada no seminário: destacava-se entre os rostos felizes dos estudantes um jovem alto e nobre, o olhar doce e orgulhoso.

Ele segurava a Bíblia aberta sobre a modesta mesinha de fórmica, esverdeada como os velhos bancos de escola. O boneco de Winnie the Pooh, o ursinho de A. A. Milne, amado presente dos anos passados em Jerusalém, um copo de limonada, pequena delícia entre os remédios amargos, os óculos com a armação dourada, como um bom avô, que o tremor do Parkinson lhe fazia cair sobre o nariz.

A sua janela dava para a igreja do instituto. O sofá, a poltrona das tardes de reflexão. Na parede, o pergaminho de Premiolino, o reconhecimento que ele recebeu em 2010 pela coluna no Corriere. Ele gostava de lembrar que a sua primeira paixão havia sido justamente o jornalismo. Uma vez eu lhe disse: se a sua vida não tivesse mudado de percurso, Montanelli teria tido um temível rival. Ele sorriu.

Ele custava cada vez mais a escrever, mas retirou disso uma razão de vida. De todas as cartas, fez um pequeno arquivo em que navegava para obter ideias. Ele se preocupava para não falar aos jovens, mas sim pelos jovens. Seguia o preceito de Paulo: transformem-se renovando a sua mente.

Os dias eram marcados pelos cuidados, pela oração, pelas visitas de intelectuais, homens de pensamento, padres famosos e párocos desconhecidos, pessoas comuns que buscavam um caminho, um sentido. Com todos, ele sabia usar palavras fortes. Assim, mês após mês, ele ensinou aos seus leitores que o Paraíso existe, que os anjos da guarda nos acompanham e nos protegem. As discussões sobre os papas do século XX, todos amados, as palavras do cardeal Schuster: "Respiro com a Igreja na sua mesma luz de dia, na sua mesma escuridão de noite". E depois a crise econômica, "a ser enfrentada com coragem civil". A sensação da dor, que ele percebia disseminada naquela correspondência tão sofrida.

Quando lhe pedimos um comentário sobre o escândalo da pedofilia, ele se levantou e saiu da sala, em silêncio. Estava muito perturbado, sofria com a humilhação da Igreja, tinha lágrimas nos olhos. Rezou sozinho por cerca de 10 minutos, depois voltou para a nossa frente. Estava comovido, mas mais sereno, aliviado. Retomou as severas palavras de Jesus: "Ai daquele que produz escândalos! Seria melhor para ele que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar, do que escandalizar um desses pequeninos" (Evangelho segundo Lucas 17, 2).

O encontro, o último, com o papa Ratzinger foi em junho de 2012 durante o Encontro das Famílias em Milão. O diálogo ocorreu através dos olhares. Um ano antes, eles haviam se encontrado no Vaticano: a árdua viagem em cadeira de rodas, o abraço entre dois amigos, o teólogo e o biblista, que por caminhos diferentes se estimavam. O diálogo com Bento XVI foi em alemão, mas poderia ter sido em muitas outras línguas.

Frequentemente ele dizia: "Eu gostaria de fazer parte de uma Igreja que se indigna e luta ao lado dos pobres e dos deserdados, que chicoteia os poderosos da Terra quando se enchem a boca de Deus e estão tão distantes da sua obra".

E mais: sobre o escândalo vaticano do "corvo" e dos documentos vazados, ele respondeu no Corriere que a Igreja deveria renunciar aos seus tesouros, e ele "ficaria bem contente com isso", mas também se esforçar para recuperar o tesouro milenar da confiança. Quando começou a sua coluna, ele escreveu: "Hoje, a negação da verdade assume muitas vezes a figura da omissão desejada e culpada, condicionada pelo medo ou pelo interesse, ou mesmo pela pacatez: livre-me o Senhor dessas armadilhas".