Papa se reconcilia com Lutero no berço da Reforma

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24 Setembro 2011

Bento XVI prestou homenagem nesta sexta-feira a Martinho Lutero, sublinhando a sua "paixão profunda" pela "questão de Deus", um gesto simbólico para com os protestantes na cidade de Erfurt (leste da Alemanha), onde surgiu a Reforma.

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada no sítio Religión Digital, 23-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"O que não lhe dava paz (a Lutero) era a questão sobre Deus, que foi a paixão profunda e o impulso da sua vida e de todo o seu caminho. (...) O pensamento de Lutero, toda a sua espiritualidade era totalmente focada em Cristo", declarou o papa, em um discurso pronunciado a portas fechadas no convento dos agostinianos, onde o pensador da Reforma viveu seis anos.

Bento XVI se reuniu nesta sexta-feira com 15 representantes do Conselho da Igreja Evangélica Alemã, a quem ele lembrou que "o mais necessário para o ecumenismo" é que católicos e protestantes se ajudem mutuamente a acreditar, que não percam "o que têm em comum" e não cedam à "pressão da secularização".

Nesse sentido, o papa recordou que "foi o erro da idade confessional ter visto, acima de tudo, apenas aquilo que separa" e não ter percebido "de modo existencial aquilo que temos em comum", como as "grandes diretrizes da Sagrada Escritura e as profissões de fé do cristianismo antigo".

Segundo explicou o pontífice, no testemunho "comum do Deus de Jesus Cristo neste mundo", os cristãos reconhecem "esta comunhão como fundamento imperecível", embora tenha advertido que, "infelizmente, o risco de perdê-la não é irreal" e que, por isso, católicos e protestantes "devem se ajudar mutuamente a acreditar cada vez mais viva e profundamente".

Além disso, Bento XVI advertiu que "a ausência de Deus" na sociedade "é cada vez mais pesada" e sublinhou que "a história da sua revelação" parece "relegada a um passado que se afasta cada vez mais".

"É necessário, talvez, ceder à pressão da secularização, tornar-se modernos mediante uma diluição da fé?", questionou-se o pontífice, destacando que, "naturalmente, a fé deve ser repensada e sobretudo revivida hoje", de modo "novo", para que se converta em algo "que pertence ao presente".

No entanto, o pontífice lembrou que "não são as táticas", que "salvarão o cristianismo", mas sim uma fé "pensada e vivida de um modo novo, de modo que Cristo entre no mundo".

Durante o encontro, que ocorreu no Convento de Santo Agostinho, onde o fundador da Igreja Protestante, Martinho Lutero, iniciou o seu caminho teológico, se pronunciou uma bispa da Igreja Evangélica da Alemanha Central, Ilsa Junkermann, que destacou que esse encontro é "historicamente significativo" e pediu que católicos e protestantes encontrem "comunhão no diálogo recíproco e na Palavra de Deus".

Além disso, o presidente do Conselho da Igreja Evangélica Alemã, Nikolaus Schneider, lembrou que Lutero é "a chave que une ambas as Igrejas" e convidou "todos os cristãos" a se alegrar "conosco" pelo fato de que Deus "doou a todas as Igrejas uma teologia forte em um tempo de grande insegurança".

De sua parte, Bento XVI reconheceu sentir-se "emocionado" ao celebrar o encontro, precisamente "neste lugar histórico". O papa enfatizou que o que tirava a paz de Lutero "era a questão de Deus, que foi a paixão profunda e o impulso de sua vida e de seu caminho". Conforme explicado pelo pontífice, a grande pergunta de Lutero era "como ter um Deus misericordioso", que se encontra "em toda a sua pesquisa teológica e em toda a sua luta interior".

Assim, o pontífice sublinhou que poucos "se ocupam atualmente dessa questão" e lamentou que "a maior parte das pessoas, mesmo cristãos, dão por certo hoje que Deus não se interessa pelos nossos pecados e pelas nossas virtudes".

No entanto, o papa lembrou que o mal "não é uma inépcia" e destacou que ele "não seria tão poderoso" se os cristãos colocassem Deus "realmente no centro da nossa vida".

Além disso, o pontífice destacou que Deus "é algo diferente de uma hipótese filosófica sobre a origem do cosmos", mas sim um Deus que "tem um rosto e nos falou, é Jesus Cristo feito homem".

Nesse sentido, o pontífice recordou que, para Lutero, o "critério" para interpretar as Sagradas Escrituras era "o que conduz à causa de Cristo" e pediu que os cristãos coloquem Jesus no "centro da sua espiritualidade" para que ele "oriente as suas vidas".

De fato, o papa lembrou que os mártires "da época nazista aproximaram mutuamente" ambas as Igrejas e destacou que a fé "é a força ecumênica mais forte" em um mundo "secularizado".

Depois desse encontro, o papa e o presidente do Conselho da Igreja Evangélica Alemã, o pastor Nikolaus Schneider, entraram juntos na capela do Convento de Santo Agostinho para presidir uma celebração ecumênica.