“Ainda é pouco: a Igreja fica nas mãos dos homens”. Entrevista com Adriana Valerio

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13 Janeiro 2021

Adriana Valerio, teóloga e estudiosa da figura das mulheres no cristianismo: o Papa permite que as mulheres tenham acesso ao leitorado e ao acolitado. Isso é um passo adiante ou a Igreja ainda está fazendo pouco pelas mulheres?

“Este é um passo institucional importante; de fato, fala-se de ‘ministérios instituídos’ que dão visibilidade a um serviço que as mulheres podem cumprir oficialmente e que também terá um impacto simbólico importante. Ver as mulheres no altar com paramentos litúrgicos, depois de terem recebido com específico rito as ordens menores de leitorado e do acolitado, certamente mudará a percepção do feminino que não será mais visto como impuro e incompatível com o sagrado”.

A entrevista com Adriana Valerio é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 12-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

No entanto, vários membros do Sínodo dos Bispos para a Amazônia haviam pedido o diaconato feminino. Por que você acha que esta etapa ainda não foi alcançada?

Porque o diaconato é o primeiro passo dentro do sacerdócio ministerial, hoje diferente daquele dos fiéis, e não se quer que as mulheres participem dele. Se o leitorado e o acolitado pertencem às ordens menores, o diaconato pertence, ao contrário, às ordens maiores que fazem parte da ordem sagrada, onde as mulheres são excluídas. Ainda são muito fortes as resistências dentro da hierarquia ligadas ao que se chama de ‘costume’ (sempre foi assim) e, sobretudo, aos próprios privilégios que zelosamente defendem.

A estrutura da Igreja ainda é hierárquica e masculina em seus vértices. Por quê?

Todas as decisões na Igreja são tomadas por homens pertencentes ao clero ainda ligados a posições que tinham sua própria justificativa quando a visão social e antropológica considerava as mulheres impuras, inferiores e inadequadas para exercer o poder ou mesmo representar o divino.

Há quem quer o cardinalato para as mulheres. Você compartilha o pedido?

Seria interessante se as mulheres, membros do cardinalato, pudessem participar do conclave e eleger o Papa; se fosse apenas um título honorífico não teria impacto institucional.

Afinal, Francisco realizou passos significativos para as mulheres na Igreja ou você ainda os considera insuficientes?

O Papa Francisco iniciou um processo fundamental de desclericalização na Igreja Católica, exortando continuamente a presença significativa das mulheres nas estruturas da comunidade eclesial, mas as suas palavras não serão suficientes se não operar uma intervenção a nível institucional que reconheça uma efetiva igualdade homem-mulher.

Reconhecer a dignidade e a autoridade da pessoa humana, de fato, significa permitir que ela participe dos processos de tomada de decisão. Não aceitar na mulher a capacidade de governar implica relegá-la à não visibilidade, à situação de minoridade de uma condição humana que requer para existir a presença da mediação masculina que controla, aprova, julga e dirige.

Por acaso os homens aceitariam se ver representados por um conselho ou sínodo de mulheres tomando decisões também por eles? Eles iriam ridicularizá-lo, ririam dele ou se insurgiriam.

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