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09 Setembro 2020

"2021 será o Ano de Dante, sete séculos após a morte do Poeta: e já junto com muito barulho e muitas banalidades, algumas coisas novas, originais e confiáveis também estão sendo preparadas. Já sabemos - e estamos calculando os resultados – que isso aconteceu em 2019-20, por ocasião do oitavo centenário da famosa viagem de São Francisco à Terra Santa e ao Egito, com as inevitáveis polêmicas sobre o Islã e as Cruzadas", escreve Franco Cardini, historiador, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 06-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Há uma grande reclamação contra a história marcada por centenários; como contra os festivais da história, a história-espetáculo e assim por diante. Em tempos em que a história é cada vez mais a Cinderela do que resta do ensino médio e as salas de salas das universidades vão se esvaziando obrigando as faculdades a abolir as cátedras, é importante que os profissionais da pesquisa histórica e amantes sérios da disciplina - que existem, e não são poucos - pensem seriamente em uma legítima defesa. E alguns resultados podem ser vistos. 2021 será o Ano de Dante, sete séculos após a morte do Poeta: e já junto com muito barulho e muitas banalidades, algumas coisas novas, originais e confiáveis também estão sendo preparadas. Já sabemos - e estamos calculando os resultados – que isso aconteceu em 2019-20, por ocasião do oitavo centenário da famosa viagem de São Francisco à Terra Santa e ao Egito, com as inevitáveis polêmicas sobre o Islã e as Cruzadas.

Também sobre isso, junto com muitas trivialidades tão previsíveis quanto inevitáveis, um substancial passo foi dado para tudo o que diz respeito não só à história do Pobre de Assis e do movimento dos minoritas, mas em geral também em relação ao Mediterrâneo, ao Oriente Próximo, às relações entre o mundo cristão e o mundo muçulmano, às cruzadas, às peregrinações.

Francisco no Oriente: fato certamente central, mas também problemático e talvez ambíguo daquela famosa passagem da “Regula non bullata” de 1221, no capítulo XVI, que prescreve a atitude que o frade menor deve seguir quando vai a partibus infidelium. Qual é a relação, na realidade concreta, entre aquela recomendação de ser "sujeito a cada criatura humana por amor de Deus e confissão de ser cristão" e aquela autorização, quando quiserem fazê-lo, de anunciar "a palavra de Deus". Não há já, em tudo isso, espaço para a contradição entre humildade e testemunho, numa perspectiva entre submissão e reação que pode levar à legitimação do uso das armas?

E aqui estamos, talvez, de novo na distinção (que pode até se tornar contradição) entre os dois polos já claramente indicados por Grado Giovanni Merlo, o "franciscanismo" e "minoritismo", dois termos que, depois de sua lição se tornou impossível usar como sinônimos, ao contrário do que anteriormente era feito. Mas em que medida isso implica, senão em um "abandono" ou até mesmo em uma "traição", no mínimo numa "superação", numa "redefinição" da mensagem do Fundador? Isso resulta evidente bem além da página fascinante, mas inextricável, do encontro entre Francisco e o sultão al-Malik al-Kamil, que talvez tenha desempenhado o papel do leão durante as celebrações do centenário.

A crise universitária determinou uma perda dolorosa de jovens talentos que se afastaram das perspectivas cada vez mais escassas oferecidas pelo ensino e pela pesquisa na universidade. Muitos graduados promissores optaram pela emigração e alguns deles também se colocaram de forma brilhante em universidades estrangeiras; outros se adaptaram ao ensino nas escolas (nem mesmo este, um caminho tão fácil) ou buscaram outros meios. Infelizmente perdemos alguns como professores universitários, mas não como estudiosos que continuaram a trabalhar conosco e entre nós: e talvez tenham tido uma boa carreira.

É o caso de Paolo Evangelisti, um medievalista e franciscanista (minorista?) conhecido por seus estudos sobre o pensamento político e econômico da Idade Média tardia e do início da modernidade, que hoje é o diretor de documentação do arquivo histórico da Câmara dos Deputados.

Seu último livro, Dopo Francesco, oltre il mito, parece destinado por sua sólida estrutura e ampla abordagem- três séculos de história minorita – a servir por muito tempo como plataforma para futuras pesquisas e discussões. Foi muito oportuno que essa pesquisa tenha sido publicada depois de apagados os holofotes do centenário e por isso tornou-se necessário - longe de passar tranquilamente para outro assunto, como às vezes costuma se fazer- colher os frutos de um intenso trabalho comum e transformá-los em perspectivas para o progresso dos estudos. Muito foi questionado (e nem sempre corretamente) se Francisco era "a favor" da cruzada em nome da santa obediência ao papado ou "contra a cruzada" no amor universal: que é, em grande parte, um pseudoproblema.

Paolo Evangelisti, Dopo Francesco, oltre il mito.
I Frati minori fra Terra Santa ed Europa (XIII-XV secolo).
Viella, Roma, p. 293.

Muito mais importante é o processo enérgico e original, realizado com uma pluralidade de métodos e perspectivas, através do qual os Frades menores mantiveram a fé no amor do Pobre de Assis pelos Lugares Santos e na sua mensagem de fraternidade encontrando o caminho para reinstalar-se a tempo na Terra Santa após a expulsão dos latinos em 1291 (já em 1333) e propor-se ao mesmo tempo como agentes da paz, mas também teóricos da crux peregrina e pregadores da cruzada, legados papais, diplomatas, missionários dispostos também ao martírio, mas ao mesmo tempo, protagonistas - como Evangelisti afirma com ousada eficácia - de um verdadeiro welfare cruzado, capaz de agir de maneira concreta e sensível dentro do articulado problema de encontrar e gerir os meios necessários para a organização das empreitadas cruzadas ou outros ações consideradas no plano canônico como equivalentes a elas: o que, como pode ser visto claramente, por exemplo, através das bulas de Urbano IV enviadas em 1262 para o Ministro dos minoritas da Provença, também teve uma importância capital no campo da legislação relativa à usura e do direito testamentário.

Evangelisti nos conduz com esse estudo refinado e articulado muito além dos baixios da "contradição" entre espírito franciscano de paz e gestão minorita de pregação, cruzada e missão, mostrando-nos, pelo contrário, a concreta dinâmica através da qual uma Ordem nascida dentro de perspectivas objetivamente distantes da práxis política pontifícia levou a uma função de apoio válido e indispensável à vida e à autoridade da Igreja.

 

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