“Muita gente está dando uma segunda oportunidade à Igreja graças a Francisco”. Entrevista com José Tolentino

Papa Francisco (Wikimedia Commons)

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12 Junho 2018

Elogio da sede foi o tema proposto por José Tolentino Mendonça, quando o Papa Francisco o convidou para pregar os exercícios espirituais à Cúria Romana, na última Quaresma. Era a primeira vez que um sacerdote português recebia tal incumbência. Estas meditações serão publicadas na Espanha, por Sal Terrae, em um livro com o mesmo título, nos próximos meses.

A entrevista é de António Marujo, publicada por Vida Nueva, 10-06-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Suas meditações quaresmais começavam falando do assombro. O que podemos aprender dele?

Em uma viagem interior, o grande perigo é a rotina, fazer por fazer. Na vida dos padres, por exemplo, há um retiro anual que o próprio calendário impõe. É como se um piloto automático dirigisse nossa vida. O assombro é poder abrir os olhos e se dar conta do que somos. É ter uma visão crítica sobre a nossa própria realidade. É essa frescura que permite ao Espírito se infiltrar em nossas vidas.

A quais tipos de sede, que o mundo de hoje sofre, o Evangelho deveria dar resposta?

Crer não é ter as soluções, nem ter encontrado as respostas. Crer é habitar o caminho, habitar a tensão... Neste sentido, mais que estar saciados de Deus, nós, crentes, aprendemos os benefícios da sede, a importância de viver no desejo de Deus. Um crente não tem a Deus, não o domestica com seus rituais e suas crenças. Ele vive na expectativa de Deus e de sua revelação que, em grande medida, é sempre surpreendente. Por isso, a sede é um lugar necessário no itinerário cristão.

O Papa comentou que, em suas meditações, a Bíblia e a literatura, a poesia e o cotidiano se entrelaçam. É também o modo que ele tem de apresentar as coisas...

Certamente. Quando me convidou, disse-me que me sentisse muito livre e que fosse eu mesmo. Em minha experiência de vida e em minhas leituras, reflete-se o que me parece que são os caminhos do presente e do futuro da Igreja. Sempre em diálogo com o magistério do Papa Francisco e o que ele representa, com esse impulso reformista que está introduzindo neste tempo.

A teologia não pode ser uma ideologia, nem se pode confundir a espiritualidade com um conjunto de abstrações. A literatura traz histórias de vida, modelos do vivido em nível pessoal para aplicá-los a uma reflexão de conjunto. A grande vantagem de utilizar o texto bíblico e a tradição espiritual cristã – mas também a antropologia, o cinema, a literatura, a pintura e as artes em geral – é que tornam possível uma tradução existencial da mensagem cristã.

Em sua exortação ‘Gaudete et exsultate’, o Papa recorda que a defesa da vida também deve incluir as condições de vida das pessoas, não só seu início e seu fim...

Não podemos limitar a defesa da vida a situações concretas do curso da existência, mas apoiar a pessoa em todas as circunstâncias. O Papa Francisco convida a ver em cada ser humano um irmão. O cristianismo deve abraçar a humanidade, especialmente a humanidade frágil e mais vulnerável, em uma opção clara, sem ambiguidades, pelos mais pobres.

Este Papa tem sido um motor extraordinário para o catolicismo contemporâneo, porque trouxe essa sede, esse sonho de um cristianismo capaz de sair de si mesmo e de gerar uma cultura do encontro, de serviço à humanidade. Não é por acaso que tanta gente esteja dando outra oportunidade à Igreja com Francisco.