Novo cardeal de Barcelona é um pastor não periférico para os pobres

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29 Junho 2017

Dom Juan José Omella, de Barcelona, é o estranho entre os cinco novos cardeais que estão sendo criados pelo Papa Francisco hoje, quarta-feira, pois a capital catalã é uma sé que tradicionalmente recebe um barrete vermelho. Um sinal de como as escolhas não ortodoxas de Francisco se tornaram a regra foi que a maior surpresa deste consistório é que ele não surpreendeu.

A reportagem é de Austen Ivereigh, publicada por Crux, 28-06-2017. A tradução de Isaque Gomes Correa.

Comecemos pelo próprio consistório: quem dos seguintes líderes eclesiásticos a receber o barrete cardinalício, hoje, nos seguintes lugares, é o estranho surpreendente?

Será Anders Arborelius, bipo de Estocolmo, na Suécia? Será o bispo de Bamako (Mali), Jean Zerbo? Será Dom Juan José Omella, arcebispo de Barcelona? Ou Dom Gregorio Rosa Chávez, bispo auxiliar de San Salvador? Ou ainda o bispo que se regozija no nome de Louis-Marie Ling Mangkhanekhoun, administrador apostólico de Vientiane, capital do Laos?

Quem acompanhou o feed de notícias do Twitter romano ontem, poderá optar por Zerbo, pois ele é o único sob a nuvem de comportamento inadequado num caso envolvendo o dinheiro da Igreja e ó único a sofrer um bloqueio estomacal que o manteve no hospital até pouco tempo antes da cerimônia de hoje.

Mas isso seria elaborado demais. A resposta que eu estava buscando é mais direta.

A resposta é, evidentemente, Barcelona, porque a capital catalã e a segunda maior cidade da Espanha é uma sé cardinalícia, quer dizer, uma grande arquidiocese urbana que, por tradição, sempre recebe o barrete vermelho.

Nenhum dos outros quatro lugares (ou seus países) que estão recebendo barretes neste dia haviam tido cardeais antes, enquanto Juan José Omella será o oitavo arcebispo de Barcelona a receber tal honraria – o que aconteceu com os seus três antecessores imediatos.

Em outras palavras, o que se destaca é a escolha que costumava ser a tradicional. Dito de outra forma: Um sinal de como as escolhas não ortodoxas de Francisco se tornaram a regra foi que a maior surpresa deste consistório é que ele não surpreendeu.

O que aconteceu, no entanto, não deixou de surpreender Omella (pronunciado “Omeia”), que ficou chocado ao saber, em 21 de maio, que seria feito cardeal.
“Pensava que Barcelona não continuaria a ser uma sé cardinalícia”, disse ele ontem a jornalistas, “porque o Papa Francisco parecia ter mudado o critério, optando por bispos da periferia”.

Isso é certamente verdadeiro com os outros quatro. Somente a metade dos 6 milhões que compõem a população de El Salvador são católicos, e são pessoas muito pobres. Menos de 2% dos 17 milhões de habitantes que compõem Mali, país de maioria muçulmana, são católicos, enquanto que o Laos conta com 45.000 católicos – menos de 1% da população – e não possui dioceses. A Suécia tem somente uma diocese, com 113.000 fiéis (cerca de 1,15% da população).
Por que motivo o papa rompeu o padrão no caso de Barcelona é um mistério para Omella. Desde que soube da notícia, “com medo e tremor”, ele não esteve disponível para falar.

Mas vendo-o ontem, ficou fácil entender por quê. Tudo o que o seminarista da pequena localidade aragonesa de Creta havia pedido em sonho era ser um padre do povo, ou um missionário na África.

Por 20 anos ele fez estas duas coisas: um ano no Zaire, seguido por 19 anos como pároco, antes de ser nomeado vigário episcopal e bispo auxiliar da diocese de Zaragoza em 1996. Em 2004, tornou-se bispo de Calahorra e Calzada-Logroño e foi nomeado arcebispo, em 2015, depois de muitos anos como capelão nacional para as “Manos Unidas”, importante organização espanhola ativa na luta contra a pobreza e financiadora de projetos em países em desenvolvimento.

Jovial, de vida simples, comprometido com os pobres e, acima de tudo, Omella é uma escolha típica de Francisco. Em 2001, ele até mesmo replicou – sem querer, suponho – as palavras de Dom Jorge Mario Bergoglio sobre ser feito cardeal, dizendo que não o via como uma promoção, e sim como um convite a servir de forma mais plena.

Omella disse que meditou sobre o modelo de serviço de Jesus nas cartas de São Paulo e o viu não como algo honorífico, mas como uma espécie de autorrebaixamento.

“O que se pede de mim agora”, disse Omella, “é um serviço à Igreja universal, mas do jeito que o papa está nos ensina, quando lavou os pés das pessoas na prisão”.

Ser cardeal, disse, significa “servir a comunidade cristã, servir o Povo de Deus e servir a sociedade para a qual somos enviados. É assim que deve ser a minha vida a partir deste momento”.

Quando lhe pediram para identificar desafios particulares de hoje, Omella mencionou três: o primeiro foi a edificação da família, que, segundo afirmou, passa “por momentos difíceis em toda a Europa” (um estudo recente na Espanha mostrou a queda drástica no número de matrimônios, de 70% do total em 2000 para 27% no ano passado). O segundo foi trabalhar com os jovens, aos quais, disse o religioso, faltam emprego e sentido na vida.

O terceiro desafio, continuou, é implementar o capítulo quatro da Magna Carta da exortação de 2013, Evangelii Gaudium, em que há a preocupação de pôr o amor concreto na prática por meio do cuidado aos pobres.

Se, na Igreja, os que se encontram às margens – seja em termos espirituais, seja em termos sociais – não encontram um compromisso concreto com a ação para assisti-los, advertiu Omella, “a nossa mensagem de oração, catequese e pregação acaba sendo vazia”.

Em seguida, citou um velho e conhecido refrão espanhol: “Obras son amores y no buenas razones”, para sugerir a importância da ação.

Omella, porém, está igualmente comprometido com a oração (passar um tempo com o Senhor, contou aos jornalistas, foi o que lhe manteve sereno e apaixonado) e com as devoções marianas: ele tem presença regular em peregrinações à Virgem.

Omella também contou que, em sua arquidiocese, um grupo estava desenvolvendo materiais didáticos com base em Amoris Laetitia. Eles serão estudados nos grupos paroquiais, de forma que a exortação possa ser melhor conhecida e compreendida.

Amoris, disse ele, desenvolveu ensinamentos e práticas morais tradicionais, baseou-se no Catecismo e está claramente em continuidade com Familiaris Consortio.

“Precisamos avançar no sentido do acompanhamento do povo em seus processos, onde as pessoas encontram Jesus, as doutrinas da Igreja e o Evangelho”, disse, acrescentando que estes são processos que exigem acompanhamento e discernimento.

Segundo o religioso, “porque nem tudo é preto ou branco, este trabalho de acompanhamento se torna fundamental”.

O novo cardeal de Barcelona não quis se deter por muito tempo sobre a questão dos quatro cardeais que publicamente divergiram publicamente de Amoris Laetitia.

“Quando somos um assessor do papa, que é o que fazem os cardeais, e não concordamos com ele, então devemos lhe dizer sobre a discordância, mas não concordo com travar uma luta pública desse jeito”, disse. “Obedecer ao papa significa caminhar com ele. Uma disputa pública não é nem apropriada nem edificante para o Povo de Deus”.

Perguntei se esperava ouvir notícias da canonização do grande arquiteto de catalão Antoni Gaudí, criador da Catedral da Sagrada Família.

Omella respondeu que a causa estava avançando e que tinham grandes esperanças de que, em breve, Gaudí seja declarado santo, acrescentando, com entusiasmo, que o catalão era um leigo, arquiteto e intelectual que tinha uma sensibilidade especial para com os pobres, alguém que “desafia todos os preconceitos” e cuja obra continua a levar as pessoas sem religião a um encontro com o Evangelho.

“Um homem cujo amor de Deus o levou a amar grandemente os outros”, resumiu Omella. “Não me diga que isso não é o Evangelho”.

Este consistório eleva o número total de membros do Colégio Cardinalício para 225, dos quais 121 têm menos de 80 anos e podem votar em um conclave, caso fosse convocado amanhã.

Dos eleitores, 19 foram nomeados por João Paulo II, 53 por Bento XVI e 49 pelo Papa Francisco.

Este é o quarto consistório de Francisco, que expandiu o número de cardeais não europeus.

No conclave que elegeu Francisco em março de 2013, a Europa tinha 60 cardeais, a África tinha 11 e a Ásia 10, enquanto a Oceania tinha 1, a América do Norte tinha 20 e a América Latina, 13.

Depois de hoje, a Europa tem 53 cardeais, a África e a Ásia têm 15 cada, a Oceania tem 4; América do Norte tem 17, e a América Latina, 17.

A Itália permanece uma superpotência cardinalícia, com 24 cardeais eleitores, em comparação com os 10 dos EUA e os 5 da França. Brasil, México, Espanha, Polônia e Índia têm quarto cada um.

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