O Papa ao Congresso sobre Lutero: “Olhar a história sem rancores”

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

03 Abril 2017

Um estudo “atento e rigoroso”, “livre de preconceitos e polêmicas ideológicas”. Distanciar-se dos “erros, exageros e fracassos, reconhecendo os pecados que levaram à divisão”. Só assim se poderá assumir aqueles elementos “positivos e legítimos” da Reforma Protestante. São palavras de Francisco e dirigidas aos participantes de um congresso inédito sobre a figura de Martinho Lutero. O Papa convidou para olhar a história com olhos diferentes, cinco séculos depois das famosas teses do teólogo alemão que desencadearam a ruptura com Roma.

A reportagem é de Andrés Beltramo Álvarez e publicada por Vatican Insider, 31-03-2017. A tradução é de André Langer.

Lutero 500 anos depois. Uma releitura da Reforma Luterana em seu contexto histórico e eclesial”. Esse é o título do encontro convocado pelo Pontifício Comitê de Ciências Históricas e que abordou, com contribuições de católicos e luteranos, todo o contexto que influiu na reforma.

Originalmente, não estava prevista uma audiência com o Papa, mas no último momento Bergoglio quis intervir. Saudando os presentes confessou sentir “gratidão a Deus” e “certo temor” com a conferência, considerando que “muito tempo atrás teria sido totalmente impensável”.

Destacou que abordar a figura de Lutero, católicos e protestantes juntos, por iniciativa de um organismo da Santa Sé, é “como tocar com as mãos os frutos da ação do Espírito Santo”, que “supera toda barreira e transforma os conflitos em oportunidade de crescimento na comunhão”.

Assegurou que os estudos sérios sobre esse personagem e a crítica que lançou contra a Igreja de seu tempo e o Papado contribuem para superar o clima de mútua desconfiança e rivalidade que “durante muito tempo” caracterizou as relações entre católicos e protestantes. Embora tenha reconhecido que todos estão muito conscientes de que “o passado não pode ser mudado”.

“Hoje, após 50 anos de diálogo ecumênico entre católicos e protestantes, é possível realizar uma purificação da memória, que não consiste em fazer a impossível correção do que aconteceu há 500 anos, mas contar essa história de uma maneira diferente, sem mais vestígios daquele rancor pelas feridas sofridas que distorcem a visão que temos uns dos outros”, disse.

“Hoje, como cristãos, somos todos chamados a nos libertar dos preconceitos contra a fé que outros professam com um acento e um idioma diferente, para trocar mutuamente perdão pelos pecados cometidos por nossos pais e invocar juntos a Deus o dom da reconciliação e da unidade”, acrescentou.

Na sexta-feira, 31 de março, foram realizadas as sessões conclusivas do congresso que começou no dia 29 de março. Nem todas as conferências se centraram na pessoa do frade agostiniano. Também foi abordado o conceito de “reforma católica”, assim como as histórias de outros bispos reformadores e da reforma nas ordens religiosas. Houve espaço, também, para analisar o equilíbrio de forças políticas na Europa daquela época.

“É preciso perguntar-se pelos elementos não teológicos que levaram à ruptura, entre eles os políticos. Não devemos esquecer que na Alemanha havia tensões entre os príncipes espanhóis e os imperadores”, explicou Bernard Ardura, presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas.

“Determinadas releituras permitem descobrir que houve mal-entendidos. Com distintas formas temos a mesma fé, embora depois permaneçam outros aspectos, como a constituição da Igreja, os sacramentos, que ainda estão pendentes”, acrescentou.

Explicou que o objetivo do congresso é promover “uma história neutra”, “honesta” e “sustentada pelos documentos”, mas aceitou que se trata de uma tarefa difícil.

E constatou: “No início, ele queria fazer uma reforma interna à Igreja. Houve uma evolução, pressões de todo tipo, que desembocaram na ruptura. Mas é claro que, no início, Lutero tinha buscado um caminho espiritual. Nos séculos passados ele foi visto como a encarnação do diabo, aquele que rompeu a comunhão e outras coisas. Hoje, não se trata, para nós, de dizer que o que fez foi algo bom, mas podemos explicar como isso aconteceu”.

Leia mais