Sob o signo de Bergoglio, ‘padres vileiros’ avaliam seu trabalho no novo contexto político e social da Argentina

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Por: Jonas | 17 Mai 2016

Um documento assinado por dez sacerdotes que têm em comum o fato de viver de maneira estável nas vilas de emergência de Buenos Aires e do amplo conurbado que surge em torno da capital argentina. Leva a data do aniversário da morte do padre Carlos Mugica, dia 11 de maio, de 42 anos atrás, que os dez sacerdotes reconhecem como ponto de referência ideal e ao qual se consideram continuadores. “Nós nos reconhecemos nele, em sua obra e em seu pensamento”, declara sem titubear o signatário número um, José María di Paola, que há três anos dedica sua vida às vilas de León Suárez, que possuem nomes pouco conhecidos: La Cárcova, 13 de Julho, Independência e Vila Curita.

 
Fonte: http://bit.ly/257mmUn  

A reportagem é de Alver Metalli, publicada por Tierras de América, 15-05-2016. A tradução é do Cepat.

O texto com dez pontos, a mesma quantidade de signatários, é dirigido “a nossas comunidades e a todos os sacerdotes que estão trabalhando nos bairros populares e que querem compartilhar com outros sua experiência a partir da realidade que nos toca viver, porque a realidade – afirmam, fazendo referência à inequívoca paternidade – é superior à ideia”. Mas, também é dirigido às autoridades do governo, as que acabam de assumir as rédeas após o terremoto das eleições presidenciais, em fins do ano passado. Os sacerdotes das vilas reivindicam a intervenção do Estado nos bairros mais carentes, para que se garanta “o direito dos mais pobres a uma vida digna”.

“Uma intervenção inteligente”, explicitam, dando a entender que houve algumas que, em absoluto, não foram. A principal referência dos ‘padres vileiros’ explica o que há por trás dessa palavra. “O Estado veio até estes lugares sem inteligência, sem seriedade”, acusa José María di Paola, padre Pepe para todos. “Por outro lado, o importante é que o poder público se faça presente com iniciativas que favoreçam o trabalho, as comunidades, os movimentos sociais organizados que foram se formando nos bairros por iniciativa das pessoas e da Igreja”. Também, neste caso, resulta evidente a influência de seu antigo bispo. “No trabalho que foi se fazendo, nestes anos, os três ‘T’ (terra, teto e trabalho) que o Papa enfatiza em suas viagens sempre foram a base de nossa presença. Na realidade, eu diria que definem nosso horizonte. Compartilhamos totalmente a proposta do Papa aos movimentos sociais e a fazemos própria como ‘padres vileiros’”.

Por mais estranho que possa parecer, em épocas de inflamadas exortações, críticas e denúncias, os padres das vilas não estão propensos a fazer proclamações. Só há dois antecedentes no passado aos quais o texto destes dias se soma. Primeiramente, a respeito da integração urbana, de 2007, citada pelo Papa Francisco na África, no bairro marginal de Kangemi, no Quênia. “Nesse sentido, proponho retomar a ideia de uma respeitosa integração urbana. Nem erradicação, nem paternalismo, nem indiferença, nem mera contenção. Necessitamos de cidades integradas e para todos. Necessitamos superar a mera proclamação de direitos que na prática não são respeitados. Concretizar ações sistemáticas que melhorem o habitat popular e planejar novas urbanizações de qualidade para acolher as futuras gerações. A dívida social, a dívida ambiental com os pobres das cidades, paga-se tornando efetivo o direito sagrado aos “três T”: terra, teto e trabalho”. O segundo documento é de 2009 e aborda o debatido tema da descriminalização do consumo de droga. Foi escrito para se opor às pressões – sobretudo políticas – neste sentido. No texto destes dias, volta-se a confirmar a oposição à liberalização da droga. “A sociedade argentina nunca trabalhou com seriedade o tema da prevenção e da recuperação”, explica Di Paola.

“As alquimias da política preferem estender a cortina de fumaça da descriminalização e da legalização, ao invés de fazer um sério exame de consciência e admitir que se fez pouco ou nada no terreno da prevenção e da recuperação”. O padre Pepe propõe um programa baseado em esporte, escola, centros de formação profissional, clubes e paróquias, em “um círculo virtuoso”, clama, “que arranque as crianças e os jovens das garras da droga e da violência”.

Perguntamos ao padre Pepe qual a contribuição deste novo documento dos padres vileiros em relação aos anteriores, 2007 e 2009. “Deu-se um passo a mais, cruzou-se a General Paz”, responde, a grande avenida que marca em Buenos Aires o limite da capital com a imensa província. Também mudou o contexto, com um Papa argentino e um governo de centro-direita, e era necessário fazer uma intervenção de esclarecimento. “Gostamos muito da frase do Papa que fala da paróquia como um hospital de campanha. Nas vilas onde vivemos queremos que a Igreja seja isso, um lugar onde são curadas as feridas da humanidade enferma que mora nas periferias”.

A pergunta é obrigatória: Que posição os sacerdotes das vilas assumem frente ao novo governo do presidente Macri, que derrotou nas urnas a versão do peronismo que instalou a família Kirchner no poder, durante doze anos. “O capitalismo selvagem destrói uma sociedade, o liberalismo fomenta um individualismo que abandona os mais fracos a seu destino de degradação humana. Ao mesmo tempo, sabemos por experiência que em todos os governos há funcionários que compreendem e apoiam nosso trabalho, tanto no governo anterior como no governo atual”.