Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba. Artigo de Isidro Lamelas

Foto: Wikimedia Commons

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06 Outubro 2026

"Se para todos morrer é uma 'passagem', para o cristão Francisco esse transitus é uma verdadeira Páscoa, e por isso, o Santo de Assis partiu cantando e celebrando com seus irmãos, com Jacoba e os seus biscoitos", escreve Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia, em artigo publicado por 7Margens, 04-10-2026.

Eis o artigo.

Francisco é, realmente, um santo singular. E revela-se como tal inclusive no modo como encarou a sua morte.

Narram os que com ele viveram seus últimos momentos, que, ao sentir aproximar-se a “irmã morte”, Francisco manifestou o desejo especial de se despedir da sua amiga romana de longa data, Jacoba de Settesoli, e de saborear, pela última vez, os seus deliciosos biscoitos romanos (mostaccioli). A originalidade do Santo volta a surpreender-nos. Como uma grávida que ao morrer (verdadeiro parto) tem desejos aparentemente pouco “santos”, o Pobre de Assis quer despedir-se da terra saboreando uma guloseima que lhe lembra quão doce é a amizade e o amor puro e verdadeiro.

E Deus fez-lhe a vontade. Pouco tempo após o Santo ter manifestado tal desejo, alguém bateu à porta: com surpresa de todos, era a amiga Jacoba que pressentira a urgência e vinha despedir-se.

E como alguns dos seus frades se mostrassem incomodados, senão mesmo escandalizados, com a presença de uma mulher na clausura conventual, Francisco pacificou-os: “Com esta senhora não deve observar-se a norma da clausura.” Facto ainda mais espantoso é que ela não se tinha esquecido dos bolinhos tão apreciados por Francisco (Legenda Perusina, 101).

É só mais uma e última prova da ternura e humanidade de alguém que, longe de querer fazer da morte um espetáculo espalhafatoso ou mesmo miraculoso, nos ensina a morrer bem, depois de ter ensinado a viver melhor. Afinal que há de mais “comum” e familiar do que a morte? Francisco recuperou a vida, mas recuperou também a morte, irmanando-a com a vida. Para ele, a morte é o cume e a porta da vida, e toda a existência é um caminho de encontros só aparentemente interrompidos, o último dos quais, nesta vida, é com a “irmã” mais certa.

Se para todos morrer é uma “passagem”, para o cristão Francisco esse transitus é uma verdadeira Páscoa, e por isso, o Santo de Assis partiu cantando e celebrando com seus irmãos, com Jacoba e os seus biscoitos.

Jacoba de Settesoli era amiga do Santo e da Ordem havia alguns anos. Um dia o Santo confiou-lhe o cuidado de uma ovelhinha que tinham oferecido a Francisco e que aprendera com ele a acompanhar os irmãos no canto dos Salmos. Tendo acompanhado, com sentidas lágrimas, a morte de Francisco, mereceu, quando chegou a sua vez de partir deste mundo (cerca do ano 1239), o privilégio de ficar sepultada ao lado de Francisco, junto dos seus primeiros companheiros mais chegados.

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