Risco nuclear: "Vivemos em uma casa cujas paredes são de dinamite". Entrevista com David Gross

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02 Outubro 2026

A ilha alemã de Mainau, no lago de Constança, tem certa tradição quando se trata de anunciar o fim do mundo. Em 15 de julho de 1955, com Hiroshima ainda recente, dezoito ganhadores do Prêmio Nobel reunidos ali advertiram sobre o perigo das armas atômicas, liderados por Otto Hahn, um dos descobridores da fissão. Em 2024, David Gross (Washington, 1941) foi o promotor e porta-voz de uma nova Declaração de Mainau, já assinada por 104 laureados: “Existe uma probabilidade significativa de que essas armas sejam utilizadas, por acidente ou deliberadamente, e de que a civilização chegue ao fim”, advertia. Neste verão, durante os encontros de Lindau, deu novo impulso à iniciativa, com vários objetivos: levar a China à mesa de negociações e garantir, entre outras coisas, que nenhuma inteligência artificial possa decidir sozinha um lançamento.

A entrevista é de Carlos Manuel Sánchez, publicada por XL Semanal, 01-10-2026.

Gross é o mais influente entre os que ainda vivem daquela geração que construiu o Modelo Padrão, o mapa das partículas e das forças que sustentam a matéria. Em 1973, descobriu como funciona a força que mantém unido o núcleo do átomo, o que lhe valeu o Nobel de 2004. Dirigiu o Instituto Kavli de Física Teórica, em Santa Bárbara, na Califórnia, preside há um quarto de século as lendárias Conferências Solvay e, em abril passado, recebeu o Prêmio Breakthrough de três milhões de dólares pelo conjunto de sua carreira.

Eis a entrevista.

O senhor dedicou sua vida a tentar unificar as quatro forças da natureza (a gravidade, o eletromagnetismo, a força nuclear forte e a força nuclear fraca). Agora diz que talvez não cheguemos a conseguir isso, não por ser difícil, mas porque não haverá tempo.

Sou pessimista. No pior momento da Guerra Fria, estimava-se que o risco de uma guerra nuclear girava em torno de 1% ao ano. Hoje, calculo que seja o dobro. É um cálculo meu e rudimentar, admito. Mas com os tratados expirados e sem ninguém verificando o que há nos arsenais, acredito que estou até subestimando o risco. Repita esse cálculo ano após ano e faça as contas.

Matemática não é exatamente o meu forte...

Daqui a 34 anos, a probabilidade de nossa civilização ainda estar aqui é a mesma de obter cara ao lançar uma moeda. Daqui a 70 anos, resta cerca de 25%. Para um bebê que nasce hoje, chegar à velhice parece francamente improvável.

Mas veja, convivemos há 80 anos com uma potencial destruição e aqui estamos.

Mas se você joga roleta-russa e continua apertando o gatilho repetidas vezes, mais cedo ou mais tarde a sorte acaba. E nós tivemos muita sorte.

Nem tudo são más notícias. Na Guerra Fria, havia 70 mil ogivas nucleares; hoje são cerca de 12 mil.

A redução foi um enorme sucesso. Contudo, o número não é o único problema. Em fevereiro, expirou o New START, o último tratado que limitava os arsenais implantados, e sem esse freio eles podem voltar a crescer. Também importa quem os possui, e agora existem nove potências nucleares, além de outros países que estão considerando esse caminho. Não apenas o Irã, mas também a Arábia Saudita, a Coreia do Sul... Até mesmo o Japão, onde falar disso era um tabu.

Por que acredita que o mundo é mais perigoso agora?

A teoria dos jogos construiu toda essa doutrina, que já era uma loucura, e ela só funciona com dois atores. Cada um sabe quem o atacou e contra quem responder. Com três, deixa de haver um ponto de equilíbrio claro; com nove, você nem sabe de onde saiu o míssil. Vivemos em uma casa cujas paredes são de dinamite, e basta um fósforo para explodir tudo. Houve centenas de acidentes, falsos alarmes e crises que não escalaram por puro milagre.

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E, no entanto, as pessoas quase não falam disso.

Porque não viveram essa experiência. A maioria dos que têm menos de 50 anos não sabe quase nada sobre o tema. Além disso, os governos escondem muita informação.

Em abril, em plena guerra com o Irã, Donald Trump escreveu que “toda uma civilização vai morrer esta noite”. Alguns interpretaram o comentário como a possibilidade de um ataque nuclear localizado. Confesso que não consegui dormir. O senhor levou a declaração a sério?

Não acredito que estivesse se referindo a armas nucleares, mas, sim, às suas grandes bombas convencionais. Os líderes entendem o perigo porque seus generais lhes explicam isso. Sabem que estariam entre os primeiros alvos e que provavelmente morreriam. Ninguém em sã consciência se arriscaria, mas não sabemos o que se passa na cabeça de líderes tão erráticos quanto os atuais.

Como deter um líder errático?

Com milhões de pessoas exigindo isso. Os governantes não acordaram um dia pensando: “O planeta está aquecendo, vamos fazer alguma coisa”. Foram os cientistas que disseram isso, e eles não lhes deram ouvidos. As pessoas saíram às ruas, votaram, pressionaram e, mesmo assim, o mundo levou 40 anos para levar o problema a sério.

A inteligência humana nos ajudou a sobreviver, mas também nos deu as ferramentas para nos destruir.

Os seres humanos são assim. Brigamos sem parar: uma tribo contra outra, uma nação contra outra. A ciência nos deu um poder extraordinário. Não aprendemos a administrá-lo.

A inteligência artificial o preocupa menos do que a bomba?

Pelo menos a IA é construída para nos ajudar. O problema é que sempre há alguém que encontra uma forma de usá-la para outra coisa. As armas nucleares, porém, foram projetadas expressamente para matar.

Há quem pense que civilizações avançadas se autodestroem. O senhor concorda?

É muito possível. Enrico Fermi formulou um paradoxo: se existem centenas de bilhões de estrelas na galáxia e a vida surgiu aqui, onde está todo mundo? Deveríamos ter companhia, mas não a vemos.

Talvez a galáxia seja grande demais.

Nem tanto. Uma civilização que sobreviva por tempo suficiente acaba crescendo tão rapidamente que nada mais a impede de ocupar a galáxia inteira, como um organismo bem-sucedido que coloniza um ecossistema. Bastariam alguns milhões de anos, um suspiro comparado à idade da Via Láctea. E não parece que isso tenha acontecido.

Talvez o mais difícil já nos tenha acontecido e o raro seja o surgimento de vida complexa.

Pode ser. Mas a explicação que mais me inquieta é a oposta: que as civilizações aprendam a se matar antes de poder se expandir. E, entre todas as formas pelas quais o Homo sapiens pode ser extinto, a mais rápida é a guerra nuclear. A questão climática me preocupa, mas ela avança mais lentamente.

E se amanhã uma arma atômica for usada?

As simulações dos jogos de guerra mostram como seria difícil conter a escalada. Não sabemos se todas as armas acabariam sendo utilizadas, mas interromper o processo seria extraordinariamente difícil.

E depois?

A fuligem das cidades incendiadas subiria à estratosfera e formaria uma barreira capaz de permanecer ali por mais de uma década. Ela bloquearia parte da luz solar. As temperaturas médias cairiam cerca de dez graus de forma repentina e as colheitas entrariam em colapso. É o inverno nuclear de que já se falava nos anos 1980, quando as pessoas realmente se assustaram e exigiram uma mudança.

Acabaremos como os dinossauros?

É uma comparação útil. O meteorito provocou uma destruição brutal junto ao golfo do México, mas não foi a explosão que matou os dinossauros da África ou da Ásia. A poeira e a fuligem bloquearam a luz e desencadearam uma glaciação.

Há alguns bilionários que construíram bunkers e esperam sobreviver.

Eles resistirão alguns meses com seus estoques de comida e água, mas acabarão tendo de sair para um planeta devastado. E sabe de uma coisa? Vão ter uma grande decepção.

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