O enterro é uma esmola. Artigo de Andrea Grillo

Foto: Gustave Courbet - A Burial at Ornans - Google Art Project | Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • ​Sociólogo analisa a conjuntura eleitoral e os possíveis desfechos da eleição de domingo. “Diria que hoje, para sermos mais conservadores na análise, os dois vão para o segundo turno com um viés de alta para o Lula”

    Eleições 2026: “Brasil pode entrar numa rota de conflito interno e de ingovernabilidade radical”. Entrevista especial com Rudá Ricci

    LER MAIS
  • EUA: Conferência Episcopal apresenta parecer jurídico como ‘amicus curiae’ em caso de não discriminação contra LGBTQ+

    LER MAIS
  • O mundo pós-Trump: a reconstrução da governança ambiental global. Artigo de Carlos Bocuhy

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

01 Outubro 2026

"Não permita que, na indiferença ao outro, nós nos tornemos indiferentes ao próprio Cristo, que passa, e que permanece, sem que o reconheçamos."

O artigo é de Andrea Grillo, teólogo italiano, publicado por Come se non, 27-09-2026.

Eis o comentário. 

Dizia H. de Lubac que a teologia é quase sempre "teologia de ocasião". Ela não deriva, antes de mais nada, de uma exigência sistemática de coerência, mas de uma interrogação direta, que nasce da história e de suas circunstâncias imprevisíveis. Boas ocasiões podem se apresentar com frequência a um teólogo, quando ele é chamado a intervir seja sobre temas clássicos, seja sobre fatos da atualidade.

Essas ocasiões podem levar a pensamentos novos, a compreensões diferentes, à abertura de perspectivas promissoras e antes impensadas. É preciso acrescentar, porém, que ao teólogo está sempre aberta a possibilidade de propor um "gasosinho" (para usar a expressão irônica cunhada por um caro amigo): chamam você, você reúne as ideias já amadurecidas havia tempo, apresenta-as de modo atraente e ainda ganha um elogio, mas não se move um milímetro do que já pensava. Isso pode acontecer sempre.

Refiro-me ao caso em que uma pergunta, que poderia suscitar um digno "gasosinho", desencadeia, em vez disso, um interesse novo e leva a descobertas interessantes. Isso demonstra, entre outras coisas, que nunca se estuda o suficiente e que, de fato, nunca se para de aprender.

Pois bem, o caso é este: pedem-me, para o Festival Franciscano de 2026, uma intervenção litúrgica sobre o sepultamento dos mortos, já que o tema do Festival está sintetizado na locução de Francisco "irmã morte".

A pergunta sobre o sepultamento me levou, imediatamente, a retomar um pequeno trabalho que eu havia feito dez anos antes sobre o tema, situando-o entre as "obras de misericórdia corporal". Mas, dez anos atrás, ao escrever, eu não havia me perguntado, de forma alguma, de onde vinha essa lista de sete obras de misericórdia corporal (unida, em paralelo, às sete obras de misericórdia espiritual).

Assim, pus-me a buscar a história dessa categoria. Nisso, hoje sou diferente de dez anos atrás: interessa-me não apenas a "coisa", mas a categoria de pensamento com que ela é pensada. E assim percebo que a lista proposta pelo Catecismo (pelo CCC, mas já pelo Catecismo de Pio X) — sete obras de misericórdia corporal e sete obras de misericórdia espiritual — tem uma história muito complicada, inclusive do ponto de vista terminológico.

Embora esteja presente um uso escolástico que as chama de "opera misericordiae" (por exemplo, em Guilherme Durando), a terminologia escolástica predominante é a de "eleemosynae": é assim que fala Alberto Magno e, seguindo sua esteira, Tomás de Aquino. É Alberto Magno quem distingue entre "esmolas corporais" e "esmolas espirituais", e dele Tomás herda a distinção.

Algo igualmente interessante é que, em Tomás, do ponto de vista sistemático, as esmolas, entendidas justamente no sentido amplo de obras de misericórdia, situam-se em uma zona sistemática diferente daquela do saber compartilhado. É interessante notar que, nas duas obras principais de Tomás, encontramo-las situadas em partes diferentes do saber:

  • No Comentário às Sentenças, todo o discurso sobre as esmolas se situa dentro do tratamento do sacramento da penitência, sobretudo no comentário às distinções 15-16 do livro IV.
  • Na Summa Theologiae, o tema das esmolas se situa, ao contrário, nos efeitos exteriores da virtude da caridade, na parte II-II do texto, nas questões 32 e 33.
  • Já o CCC situa as 14 ações seja no âmbito do 3º mandamento (santificar a festa), seja no do 7º (não roubar), e aqui elas são definidas segundo uma ratio ainda diferente.

A pergunta que pode surgir espontaneamente é a seguinte: por que, antigamente, usou-se o termo esmolas no lugar de obras de misericórdia?

A resposta pode ser encontrada no texto latino da Vulgata, onde uma série de textos sobre a esmola assumiu, para os medievais, um valor decisivo em relação ao fazer penitência. Há aqui uma sobreposição interessante entre AT e NT: o valor geral da esmola, que se extrai dos textos latinos de Daniel e Tobias, prescreve uma recepção da tríade "oratio, ieiunium, eleemosyna" que se torna a forma plena e acabada da penitência.

O sujeito que se converte deve trabalhar em três níveis, que hoje poderíamos traduzir com este esquema:

  • oratio é a oração, como linguagem de pedido, perdão, louvor, ação de graças, bênção. Aprender a falar com Deus e a Deus torna-se a primeira escola de penitência; trata-se de aprender a falar assim, a Deus e com Deus, para sermos ricos dele com o próximo e para com o próximo;
  • eleemosyna é a ação de misericórdia, em cujo interior se distingue uma dimensão corporal (alimentar os famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, hospedar os peregrinos, visitar os enfermos, visitar os presos, sepultar os mortos) e uma dimensão espiritual (aconselhar os que duvidam, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar pacientemente as pessoas importunas, rezar a Deus pelos vivos e pelos mortos). Toda essa "não indiferença" a ser cultivada, a ser exercitada, torna-se não apenas "consequência" de uma virtude, mas escola e forma de vida do discípulo de Cristo;
  • ieiunium é a suspensão de algumas ações necessárias, como a alimentação, a geração, o divertimento, a palavra, o movimento... Aprender a temperança e a abstinência é um caminho inevitável para sermos humanos e para sermos cristãos. Saber interromper e resistir torna-se decisivo para permanecermos humanos.

É evidente que, nesse esquema, o termo esmola assume um significado que passa a abranger um mundo de ações surpreendentemente vasto, que nós reduzimos, por muitos motivos, à simples entrega de uma moedinha a quem a pede, a um ato de devoção totalmente marginal.

Igualmente evidente é que a diferente localização, no âmbito moral e no âmbito sacramental, pressupõe uma compreensão diferente e também uma relação mais complexa entre moral e liturgia. Se oração, esmola e jejum são recebidas pelo mundo moderno como devoções, tendem a perder tanto o vínculo com a fonte litúrgica e sacramental quanto a seriedade da tarefa moral.

Por outro lado, foi justamente a transcrição moral de esmola e jejum (ligadas à virtude da caridade e à virtude da temperança) que preparou, indiretamente, a transcrição devocional.

Sobretudo deve surpreender a tarefa de ressignificação que hoje é exigida da tradição cristã, com base nessa sabedoria antiga, que nos leva a repensar tanto o sacramento quanto a moral. Gostaria de mostrar aqui as primeiras consequências dessa redescoberta.

  • A Quaresma aparece, à luz dessa nova acepção de esmola, não como o continente de devoções, mas como o tempo de exercício da ação de misericórdia como verdade da existência. Entrar mais radicalmente na misericórdia-esmola significa deslocar o centro da identidade para o outro.
  • A compreensão da penitência torna-se muito mais articulada. Em particular, seu sentido de virtude e seu sentido de satisfação sofrem uma mudança de fundo. Com efeito, por um lado é a vida cristã toda que é marcada por uma sequência que a tradição expressa com uma tríade (oração, esmola e jejum), que fizemos deslizar para o âmbito das devoções individuais, mas que foi elaborada em relação à conversão do sujeito batismal e penitencial. São os três registros (de palavra, de ação e de omissão) que pensamos, no Confiteor, como ocasiões de pecado, mas que estruturam, antes de mais nada, a vida de graça: na vida cristã, aprende-se a rezar, aprende-se a agir com misericórdia e a ser temperante, capaz de resistência.
  • Um sentido de esmola não ligado estritamente ao dinheiro é uma grande conquista. Pensar a esmola como ação de misericórdia transforma o modo de ser cristão e abre a tradição a possibilidades novas, inéditas. A recuperação de sentido é, porém, um ato eclesial e um ato cultural. Justamente a força com que a Igreja Católica soube "fazer cultura" torna-se um obstáculo, no momento em que precisamos fazer uma mudança de paradigma e sair de uma visão restrita e mesquinha da tradição. Que anunciar o Evangelho signifique aprender a viver a tarefa da esmola parece, hoje, quase uma bobagem. Que isso não seja verdade exige um trabalho teológico, um investimento pastoral e uma elaboração cultural de primeira qualidade.
  • O estatuto da misericórdia como prática muda seu papel na identidade. Se recolocarmos as práticas de misericórdia na raiz da forma de vida cristã, saímos das tristes oposições entre interior e exterior e voltamos a alimentar a experiência de relações que crescem pelo fato de serem concretamente exercitadas. Um conceito diferente de esmola como prática de misericórdia torna-se também um objetivo de uma autêntica formação cristã, de uma verdadeira iniciação.

Gostaria de terminar com uma expressão usada em uma catequese do papa Francisco, justamente ao falar das obras de misericórdia por ocasião do último jubileu. Ele citou uma fórmula feliz de Santo Agostinho, quando diz: "Timeo Jesum transeuntem". Temo que Jesus passe. Em que sentido se pode fazer uma afirmação como essa? Somente se permanecer claro, nos cristãos, que a esmola, ou seja, a ação de exercício da misericórdia para com o próximo, é o lugar teológico do juízo final, no qual, no pobre, no nu, no estrangeiro, no importuno ou no inconsolável, mostra-se o próprio Cristo ou, melhor, um alter Christus. Não permita que, na indiferença ao outro, nós nos tornemos indiferentes ao próprio Cristo, que passa, e que permanece, sem que o reconheçamos.

Em síntese e para concluir, o pedido de falar sobre sepultar os mortos, entendido como obra de misericórdia e, portanto, como esmola, no contexto do Festival Franciscano me fez descobrir, sob outro ângulo, e segundo uma perspectiva verdadeiramente impressionante, a bela expressão de alter Christus, que teve, justamente nos textos franciscanos, ou melhor, nos textos mais antigos que definem Francisco, um de seus lugares mais originários.

Francisco vivia de esmola, mas no sentido de que fazia do dar esmola o estilo de quem vigia a passagem do Senhor em meio aos seus, que aparece naquilo tanto das práticas de misericórdia de que nos permitimos a liberdade.

Leia mais