24 Setembro 2026
O Brasil é o atual laboratório político-eleitoral da América Latina. Se Lula perder, o México ficará quase isolado diante do pujante avanço das ultradireitas em quase todo o continente. A ultradireita, sob o segundo mandato de Donald Trump, está imparável. Há uma clara ingerência estadunidense por meio das embaixadas, pressão direta com tarifas ou coerção diplomática. O empréstimo de 20 bilhões de dólares à Argentina de Javier Milei foi um ostensivo gesto de apoio da Casa Branca.
A reportagem é de Bernardo Barranco V., em artigo publicado por La Jornada, 23-09-2026.
Além disso, as ultradireitas latino-americanas, como a chilena, a peruana, a boliviana e agora a colombiana, contaram com o apoio tóxico da inteligência artificial durante seus processos eleitorais. Plataformas digitais, bots, fazendas de perfis falsos e algoritmos orientaram a conversa pública com falsas percepções. A guerra suja e espiritual instaura julgamentos políticos e fomenta o pânico moral.
A captura de Fernando Cerimedo na Bolívia abre a cloaca digital de manipulação de uma boa parte dos eleitores latino-americanos. Mostra como as disputas eleitorais se convertem em guerras cognitivas; assim as denomina Rafael Barajas. Guerras culturais que pretendem capturar a consciência dos cidadãos, impor uma visão e um senso comum da realidade.
Um terceiro fator no retorno das direitas conservadoras e autoritárias é o fortalecimento da extrema direita que, a partir do campo religioso, almeja colocar Deus no centro da cena política. Paradoxalmente, o fortalecimento dos ultraconservadores materializou-se graças à laicidade constitucional de muitos países e à liberdade religiosa. A política secular corre o risco de ser atravessada pelos absolutos da religião. Essa tendência obriga a repensar a relação entre as crenças religiosas e a política, entre a laicidade e o poder.
🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google
O atual presidente colombiano, Abelardo de la Espriella, no ato de posse, que mais parecia uma cerimônia religiosa, encerrou seu discurso exclamando: “Viva Cristo Rei!”, evocando a Guerra Cristera que, no México, custou mais de 200 mil vidas. Posteriormente, De la Espriella nomeou diferentes pastores evangélicos para cargos-chave em seu governo.
Em menos de 50 anos, o perfil religioso da América Latina mudou de maneira radical. Houve uma transformação com duas grandes vertentes. Na primeira, observa-se na região uma megatendência: a estrondosa queda do catolicismo. Na segunda, a ascensão das igrejas evangélicas, principalmente pentecostais e neopentecostais, o que não apenas transforma o campo das crenças, mas também irrompe na vida política de muitos países. Essa transformação tem suas raízes em mudanças culturais e sociais na região, que foram rápidas e profundas.
A ultradireita mobiliza uma gramática religiosa para interpretar a realidade por meio de dicotomias como as seguintes: os bons contra os maus; a defesa da vida contra os promotores da morte; a relação absolutamente binária do casal diante dos defensores da diversidade sexual. Os que seguem Deus e os que o hostilizam ao negá-lo. A fé purifica por si só a política, considerada corrupta e suja. Não é o pastor que pede o voto; é o valor religioso que empresta à política uma autoridade moral que se desfigurou.
O Brasil, hoje o país-chave, terá eleições em primeiro turno daqui a alguns dias. Tem 214 milhões de habitantes. Segundo o último censo, há aproximadamente 56 milhões de evangélicos, o que representa cerca de 27% da população total do país. É preciso dizer: nem todos os evangélicos têm simpatia por Bolsonaro. A estratégia de Lula não foi confrontá-los, mas conquistá-los. Veremos qual será o resultado de sua aposta.
O Instituto de Estudos da Religião (ISER) apresentou uma pesquisa dentro de seu programa Religião e Vida Pública no Brasil. Sobre a relação entre o voto e os espaços religiosos, 90% dos brasileiros se opõem à realização de campanhas eleitorais dentro dos templos. Trata-se de uma rejeição que permanece elevada entre diferentes grupos religiosos, regiões, níveis de renda e preferências partidárias. No entanto, a pesquisa também mostra que isso não implica ausência de mediação política. As recomendações de voto existem e se manifestam de diversas formas e intensidades, conforme as igrejas e denominações.
O perigo grave é a instrumentalização da fé para que, em nome de Deus, se legitimem projetos políticos regressivos que levem, por meio da democracia eleitoral, a retrocessos, a um iluminismo sombrio.
A fé religiosa muitas vezes é utilizada como instrumento de disputa política; por isso, é necessário refletir sobre seus limites. Devemos analisar a relação entre religião e política a partir da perspectiva da democracia. No Ocidente, a modernidade gerou marcos normativos para regular essa relação. Ambas sempre estiveram relacionadas, fazem parte da liberdade de consciência, de expressão e de organização. No entanto, a ultradireita na América Latina vem instrumentalizando politicamente a fé. Ressurgem velhos fantasmas, como o anticomunismo.
Por isso, hoje, as eleições no Brasil, o gigante da América do Sul que não cabe no papel de quintal, são determinantes para a vida do continente.
Leia mais
- “Promiscuidade antidemocrática” e crise do STF: as relações entre poder, dinheiro e religião. Entrevista especial com José de Souza Martins
- Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça
- Trump, fanatismo religioso e a sua “guerra santa” para “salvar” os Estados Unidos
- IHUCast – Deus, urnas e extrema-direita. Religião e a disputa pelo sagrado na política brasileira
- Deus como estratégia de voto na extrema-direita: religião e a disputa pelo sagrado na política brasileira
- Capitalismo como religião: a luta fundamental na relação religião e política. Artigo de Jung Mo Sung
- A extrema-direita como religião substituta. Artigo de Adolfo Silóniz
- Religião e política: por que a direita está vencendo nessa luta?
- O Arco-Íris: Um fenômeno natural entre religião e política. Artigo de Ayleen Over
- Estudo: a hostilidade em relação à religião aumentou significativamente em todo o mundo
- A religião demonstrada no comício de Trump em Washington não era o Evangelho de Jesus Cristo
- “Um mundo instável por alianças desfeitas. A religião usada como desculpa para os conflitos”. Entrevista com Cardeal Jean-Paul Vesco