A OpenAI altera discretamente seu "Teste do Milênio" para citar matemáticos importantes que havia descartado ao anunciar a descoberta

Foto: Bozhin Karaivanov/Unplash

Mais Lidos

  • Pesquisador de Anthropic renuncia ao cargo e alerta para os perigos da IA: "Ela pode nos matar antes de 2030"

    LER MAIS
  • Primeiro catador de materiais recicláveis conhecido no mundo a defender uma tese de doutorado é do RS

    LER MAIS
  • O autor da história oral dos ataques,

    “Os efeitos dominó do 11 de Setembro explicam o mundo de hoje”. Entrevista com Garrett Graff

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

11 Setembro 2026

A empresa de tecnologia reconhece, portanto, que se baseou no trabalho dos pesquisadores espanhóis. Charles Fefferman, o especialista de Princeton que formulou o problema, confirma que o resultado da IA ​​apresentado é a solução para o desafio.

A reportagem é de Patricia Fernández de Lis, publicado por El País, 11-09-2026.

Horas depois de anunciar que havia resolvido um dos problemas mais importantes da história da matemática, a OpenAI modificou discretamente o artigo científico em que demonstrava a solução, para incluir os pesquisadores humanos que trabalharam durante anos na solução encontrada pela IA em poucas horas. A primeira versão, publicada às 17h29 do dia 8 de setembro (horário do leste dos EUA), não incluía entre as referências o trabalho de Diego Córdoba e Luis Martínez-Zoroa, os matemáticos espanhóis cujo método constitui a base de toda a demonstração que resolve um dos chamados Problemas do Milênio.

Três horas depois, às 20h04, essas citações apareceram, juntamente com algumas referências que, segundo usuários do Mastodon, continham sublinhados como se fossem espaços reservados. A postagem no blog que acompanhava o anúncio não mencionava essa mudança. Ambas as versões foram arquivadas no Wayback Machine (uma plataforma que serve como registro do que é publicado online), permitindo a comparação linha por linha.

Levent Alpöge, o matemático da Anthropic que, juntamente com Tristan Buckmaster, havia feito progressos semanas antes em um problema relacionado usando o mesmo método, ainda não é citado em nenhuma versão do artigo. Assim, a OpenAI reconhece o trabalho dos matemáticos independentes nos quais baseou seu desenvolvimento, mas não o de sua principal concorrente, a Anthropic.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

A empresa nega que a mudança esteja relacionada às críticas. Questionada se utilizou o trabalho não publicado de Buckmaster e Alpöge para orientar seu modelo, a OpenAI respondeu na rede social X: "Não utilizamos suas sugestões ou testes para orientar nossos modelos ou agentes", embora tenha acrescentado que, "embora improvável, não podemos descartar que dados derivados do uso de nossos produtos possam ajudar a aprimorar nossos modelos".

Por sua vez, quando questionado pelo El País, o matemático Charles Fefferman (que redigiu o enunciado oficial deste importante problema matemático para o Instituto Clay em 2000) confirmou que o resultado apresentado pela OpenAI é de fato a solução para o problema tal como ele o formulou. O matemático esclarece, contudo, que para se “convencer completamente” da sua correção será necessário, além da verificação automatizada na linguagem Lean, uma reescrita do artigo em prosa matemática clássica e uma revisão minuciosa por diversos especialistas. Ele estima que esse processo levará vários meses. Fefferman traça uma linha clara quanto à autoria da ideia original: a disputa, aponta ele, é “entre a equipe da OpenAI e a equipe de Buckmaster e Alpöge”, visto que ambas se baseiam nas ideias “seminais” de Córdoba e Martínez-Zoroa, que, aliás, não estão diretamente envolvidos na disputa.

Este episódio não é um caso isolado: a Scientific American documentou que outros dois resultados matemáticos atribuídos pela OpenAI ao seu modelo Astra incorporaram ideias de estudos anteriores sem a devida citação. Isso levou alguns matemáticos a discutirem abertamente a "má prática acadêmica" e a reconsiderarem como as descobertas são comunicadas e atribuídas. Em conversa com o El País, matemáticos espanhóis confessaram que este caso muito provavelmente mudará a prática da sua disciplina. Como apontou o pesquisador Terrence Tao, se um boato pode desencadear a implantação de milhares de agentes com milhões de dólares, que incentivo tem um cientista para compartilhar ideias promissoras antes de finalizá-las?

Leia mais.