10 Setembro 2026
Um matemático afirma que a empresa de tecnologia usou pesquisas anteriores e "pressionou" para excluir outro pesquisador da Anthropic.
A reportagem é de Patricia Fernández de Lis Jordi Pérez Colomé, publicado por El País, 09-09-2026.
Na terça-feira, a OpenAI afirmou ter resolvido um dos maiores problemas da história da matemática: o chamado "problema da existência e suavidade" das equações de Navier-Stokes, um dos sete Problemas do Milênio do Instituto Clay de Matemática, cada um valendo um milhão de dólares, que permaneceu sem solução por quase 90 anos. Este tem sido um objetivo importante para empresas de IA há anos, e outras empresas, como o Google DeepMind, também estavam na disputa. Em teoria, é um marco: apenas um Problema do Milênio havia sido resolvido antes (a conjectura de Poincaré), e esta seria a primeira vez que uma máquina resolve um problema matemático dessa magnitude. Nenhum cientista externo verificou de forma independente a afirmação da OpenAI: ela foi publicada em 8 de setembro, e uma revisão dessa escala normalmente leva meses.
As equações de Navier-Stokes tentam responder a uma pergunta aparentemente simples: um fluido (água, ar, qualquer líquido ou gás) pode se mover suavemente, sem vórtices infinitos ou velocidades vertiginosas, para sempre, independentemente do tempo que passe? As equações de Navier-Stokes são as fórmulas matemáticas que descrevem como qualquer fluido se move.
Elas foram escritas há mais de 250 anos e funcionam muito bem: são usadas para projetar aviões e prever o tempo. O problema é que, matematicamente, ninguém sabe se essas equações são seguras em um sentido muito específico: se um fluido se move suave e ordenadamente, sem pontos incomuns ou turbulência extrema desde o início, esse fluido pode, simplesmente ao longo do tempo e seguindo essas mesmas equações, eventualmente atingir um ponto em que a velocidade se torna infinita? Isso é chamado de "singularidade", e é a questão que paira no ar há 90 anos. Até, supostamente, agora.
“É sem dúvida um dia emocionante, testemunhar o anúncio de avanços significativos na compreensão humana da matemática”, disse o matemático Martin Bridson, presidente do Instituto de Matemática Clay. “Nossa demonstração revela que existem fluidos que começam como perfeitamente normais e, sob as equações de Navier-Stokes, atingem velocidade infinita em um tempo finito”, observou Ven Chandrasekaran, cientista da computação da OpenAI, em uma coletiva de imprensa. A empresa já declarou que não reivindicará o prêmio de um milhão de dólares.
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Mas o anúncio foi ofuscado por uma disputa de prioridades e ética que abalou as comunidades matemática e de inteligência artificial. Tudo começou com uma série de rumores: “É verdade que nos envolvemos nisso porque na semana passada circularam rumores na internet de que os modelos da Anthropic haviam resolvido um Problema do Milênio, e ficamos curiosos para ver se o nosso também conseguiria”, escreveu Sam Altman, CEO da OpenAI, no X.
A OpenAI afirma que em 1º de setembro começou a treinar seu novo modelo para resolver os Problemas do Milênio, depois de saber que dois pesquisadores (Tristan Buckmaster, matemático da Universidade de Nova York, e Levent Alpöge, pesquisador da Anthropic que trabalha no projeto a título pessoal) já haviam resolvido um.
Isso não era totalmente verdade: Buckmaster e Alpöge, baseando-se em um método desenvolvido pelos espanhóis Diego Córdoba e Luis Martínez-Zoroa, deram um passo em direção à equação de Navier-Stokes em 15 de agosto, mas não encontraram a solução completa. Terence Tao, ganhador da Medalha Fields e uma das poucas pessoas no mundo capazes de avaliar se isso se confirma, classificou o trabalho como uma "conquista notável" e afirmou não ver obstáculos óbvios para estender o método à equação de Navier-Stokes.
Foi justamente nessa direção que a OpenAI realizou seu próprio teste. A empresa utilizou um modelo interno muito superior ao ChatGPt-6 Astra, que acabara de lançar. E conseguiu implantar quase 10 mil agentes de IA autônomos por 88 horas.
Na noite anterior ao anúncio da OpenAI, Buckmaster publicou uma declaração (um PDF postado em seu site da Universidade de Nova York) com sérias acusações: que a OpenAI havia tomado conhecimento de sua pesquisa privada e não publicada na última semana, que a empresa já possuía provas da resolução antes de contatá-lo e que lhe ofereceram a opção entre uma publicação conjunta ou a redação do resultado por conta própria, atribuindo-o a um modelo da OpenAI.
Segundo seu relato, o cientista da OpenAI, Sébastien Bubeck, pressionou duas vezes para que Alpöge fosse excluído da autoria devido à sua ligação com a Anthropic. Bubeck classificou a versão de Buckmaster como "falsa e inflamatória" e prometeu fornecer mais detalhes. "Uma das opções que discutimos foi que Buckmaster fosse o autor principal de uma reescrita da prova de Navier-Stokes da OpenAI. Foi nesse contexto que eu disse: 'seria mais simples se Levent não fosse funcionário da Anthropic', porque me pareceu inadequado que um funcionário da Anthropic aprovasse o trabalho da OpenAI", afirma Bubeck, em uma das explicações que deu no X em meio a um debate bastante acirrado sobre quem deveria receber mais crédito por essa solução: não apenas humanos, mas também máquinas.
Além disso, há outra questão: Buckmaster questiona se a OpenAI teve acesso às suas anotações e instruções no Codex, a ferramenta de programação da OpenAI criada para agilizar sua pesquisa. Em outras palavras, se plagiou seu trabalho. Se confirmado, isso seria uma catástrofe para a imagem pública de ferramentas da OpenAI como o ChatGPT e o Codex.
A OpenAI afirma que seus agentes não tiveram acesso ao trabalho dos dois pesquisadores de forma alguma antes de sua publicação, embora não descarte completamente o acesso a dados "desidentificados" — ou seja, dados que o modelo da OpenAI pode ter utilizado por terem permanecido em seu sistema após a inserção. A OpenAI explica isso em seu comunicado à imprensa: "Nós (os pesquisadores e agentes) não vimos o trabalho deles de forma alguma até que o tornassem público; em particular, nenhum dado específico do usuário foi acessado para resolver este problema. Embora improvável, não podemos descartar que dados desidentificados derivados do uso de nossos produtos por eles possam ter contribuído para [aprimorar nossos modelos]". Essa consequência serviria como um sério alerta para qualquer pessoa que utilize esses modelos com dados confidenciais ou privados.
Além da questão de quem disse o quê, Tao levantou a questão que realmente preocupa a comunidade: se um boato pode levar um concorrente com mais recursos a mobilizar milhares de agentes com milhões de dólares em poder computacional, que incentivo resta para que alguém compartilhe ideias promissoras antes de finalizá-las? Tao também criticou o encobrimento de tentativas fracassadas e do processo de prova, e defendeu padrões que valorizem tanto a ideia matemática quanto o resultado final.
O envolvimento e a pressão das empresas de IA na matemática já causaram problemas no passado: a OpenAI afirmou no verão passado ter ganho uma medalha na Olimpíada de Matemática, quando a verdade, segundo este jornal, é que nem sequer participou.
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