11 Setembro 2026
O conceito está associado, desde o latim, há 2 mil anos, à combinação de elementos diferentes e até mesmo opostos.
O artigo é de Alex Grijelmo, membro eleito da Real Academia Espanhola. Doutor em Jornalismo e com um PADE (Administração de Empresas) pela Business School, integrou as equipes de gestão do El País e da Prisa de 1983 a 2022, com exceção do período em que foi presidente da Efe (2004-2012), durante o qual fundou a Fundéu. Publicou uma dezena de livros sobre linguagem e comunicação, publicado em El País, 10-09-2026.
Eis o artigo.
A chegada de milhares de pessoas vindas de Marrocos a Ceuta tem sido referida na política e na mídia nas últimas semanas como um “ataque híbrido”. Mas híbrido de quê?
Há talvez mais de 2 mil anos, o conceito de "híbrido" tem sido associado à mistura de elementos diferentes e até opostos, visto que esta palavra em latim significava "produto do cruzamento de dois animais diferentes" (Corominas e Pascual), e também "de raça mista"; bem como "filho de mãe escrava e pai livre" e filho de "pai romano e mãe estrangeira" (Vox Latin-Spanish, Spanish-Latin illustrated dictionary, 1990).
O Vocabulário Universal em Latim e Línguas Românicas, publicado por Afonso de Palencia em 1490, inclui a entrada ibridem, na qual é explicada (atualizo a grafia): “Chamam [ibridem] o porco que nasce de uma porca doméstica e um javali. E já dissemos que o nascido de um pai vilão e uma mãe nobre era chamado híbrido [em latim].”
A palavra “híbrido” apareceu pela primeira vez no dicionário acadêmico em 1803 (terminando em um “a” invariável, como o termo original em latim, hybrida, anteriormente ibrida), com esta definição: “Animal nascido de duas espécies diferentes, como a mula”. E também, “adjetivo que se aplica a palavras formadas ou compostas a partir de duas línguas diferentes; como Monóculo”. (De fato: do grego mono, “um”; e do latim oculus, “olho”).
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Uma música dos Les Luthiers, o hilariante grupo argentino, também fundiu elementos muito díspares quando criaram a “candonga” em 1970: um “híbrido de candombe e milonga”. (Candonga dos Coletivos).
Hoje, o dicionário nos diz que "híbrido" é um animal ou planta produzido por dois indivíduos de genética ou espécies diferentes; ou algo produzido por elementos de natureza diferente; ou o motor ou carro adequado para funcionar com eletricidade ou combustível.
No caso de conflitos armados, estudiosos consideram que ataques híbridos consistem na combinação de guerra convencional (exércitos, bombas, canhões, rifles, tanques…) e formas modernas de engano: ofensivas digitais, mentiras bem-sucedidas, manipulação massiva de bots nas redes…
A anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 é frequentemente citada como um exemplo de guerra híbrida. Vladimir Putin combinou operações militares secretas, desinformação e ciberataques, invadindo assim uma parte da Ucrânia sem declaração de guerra ou assumir a responsabilidade. Operações semelhantes foram realizadas pelo chamado "Estado Islâmico" (uma organização terrorista) e por Israel em Gaza.
No contexto do conflito de Ceuta, o que constitui um ataque híbrido? Sim, várias ações são combinadas (a entrada em massa de indivíduos enganados, a permissividade oficial, a manipulação vil das redes sociais…); mas talvez o que esteja faltando seja o elemento misto que tem sido incluído nesse conceito até agora: ação militar, movimentação de tropas, disparos, uso da força. Em outras palavras, a combinação de ações militares e não militares.
Guerra híbrida em Ceuta? Não sei. Etimologicamente, isso exigiria a mistura de componentes muito diferentes. Para mim, parece mais um ataque de desinformação, pressão psicológica, interferência política em outro país, uma agressão sem um perpetrador claro ou armas, uma ofensiva com custo pessoal mínimo e alto dano externo, sem violência organizada: uma guerra branda. Ora, se o seu vizinho do corredor o atacasse assim, não seria guerra híbrida, mas pelo menos você pararia de falar com ele.
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