O terror das deportações do ICE abala Veneza em apenas 25 minutos

Foto: Wikimedia Commons

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10 Setembro 2026

Laura Poitras e a jornalista Rachel Lauren Mueller apresentam "They're Here", um curta que mostra como opera o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA e como os vizinhos se organizam contra ele.

A reportagem é de Javier Zurro, publicada por elDiario.es, 09-09-2026.

O assassinato de Renee Good, em 7 de janeiro, foi um ponto de inflexão. Não era a primeira vez que o ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA, matava alguém (antes já havia havido, que se saiba, mais quatro), mas a impunidade, a injustiça e a sangue-frio com que tudo ocorreu, e com que se tentou não dar atenção ao ocorrido, provocaram um abalo de indignação em nível mundial. Esse abalo é o que provoca They're Here, o curta-metragem de não ficção dirigido pela mestra do documentário Laura Poitras, que ganhou aqui o Leão de Ouro por La belleza y el dolor, e pela jornalista Rachel Lauren Mueller.

Em apenas 25 minutos, as duas diretoras conseguem transmitir o terror que vivem os migrantes das ruas de Minneapolis, para onde se desloca sua câmera para testemunhar como as pessoas são detidas ilegalmente. O curta, que faz referência à frase que dizem quando avistam os agentes do ICE ("Eles estão aqui"), mostra as prisões, a brutalidade policial e os aviões nos quais essas pessoas são expulsas do país. Um trabalho jornalístico de urgência que não precisa de mais minutos nem de floreios para transmitir a magnitude do problema.

No entanto, a aposta das diretoras é não se concentrar apenas nesse terror, mas em como as comunidades migrantes se organizaram para evitar ser presas. Por meio de mensagens de celular, de grupos de apoio e de aplicativos para localizar carros que sabem ou suspeitam serem do ICE, essas pessoas criaram unidades para sobreviver ao horror. Em meio à loucura, sua união é um pequeno sinal de esperança. Poitras consegue depoimentos de gente que vive com o medo no corpo, que volta para casa no porta-malas do carro, e a quem esses grupos estão salvando a vida todos os dias. 

O formato do curta-metragem não se deveu à ausência de material, mas à "urgência do material". "Não houve uma razão estratégica por trás disso, mas um motivo puramente artístico: sentimos a urgência de realizar este projeto. Queríamos lançá-lo enquanto ainda fosse atual. Sempre alternei entre curtas e longas-metragens, e em parte se trata simplesmente de querer responder ao momento que se vive e à atualidade", explicou Poitras a um pequeno grupo de jornalistas internacionais, entre os quais estava o elDiario.es, no Festival de Veneza.

Essa urgência também foi sentida por Rachel Lauren Mueller, que tinha muito claro que seu papel como jornalista era sair às ruas e gravar tudo para "criar um arquivo rapidamente". O apoio de Laura Poitras e "seu conhecimento sobre o que implica trabalhar num filme que desafia o poder do Estado" fizeram com que ela se sentisse respaldada e segura. Ao ver como esses grupos de vizinhos se organizaram contra o ICE, ela chegou a sentir esperança: "O orçamento do ICE ultrapassa os 70 bilhões de dólares, e um grupo de voluntários de bicicleta conseguiu afugentá-los da cidade. Isso é pessimismo? Ou é resistência? Não tenho tanta certeza. Na verdade, é uma ação que levou a uma mudança significativa. É verdade que o ICE continua atuando, mas o perigo do pessimismo é que ele nos leva a cruzar os braços e ficar no sofá".

Poitras acrescenta que acredita "na resistência e no cinema", e que por isso gosta de uni-los em trabalhos que sempre desafiam o poder, como Citizenfour, no qual falou sobre Edward Snowden e suas revelações sobre vigilância mundial. "Essa mobilização massiva de pessoas armadas apenas com seus celulares, os mesmos que todos vocês têm aí sobre esta mesa, realmente enfrentou essa força paramilitar de maneira muito eficaz. Quer chamar isso de esperança? Eu chamo de resistência", apontou.

Nesses 25 minutos, ambas colocam no corpo do espectador essa sensação de pavor, e é isso que queriam. Por isso, ressaltam que "não é uma reportagem jornalística, mas um documentário", e brincam com a encenação e até com códigos do gênero de terror, com esses homens encapuzados cujo rosto não se vê. "É importante que as pessoas sintam isso no corpo em vez de intelectualizar; porque o outro caminho é algo que já vimos bastante. Podemos intelectualizar isso até o dia em que morrermos, mas a questão é: em que momento você realmente consegue mobilizar as pessoas?", questionam as diretoras. 

Apesar dessa esperança, elas insistem que "o ICE continua ativo, seu orçamento atual é de 70 bilhões de dólares, e em junho e julho foi registrada a maior taxa de detenções da história da instituição, com 90 mil pessoas detidas em dois meses". "Eles estão muito ativos e continuam operando a pleno vapor. Acredito que parte do papel deste filme é manter o tema presente na consciência pública, algo que o ciclo de notícias não consegue fazer plenamente, e desnormalizar a violência que vemos e que esse ciclo informativo continua", explica Poitras, que quer que o filme seja "um antídoto contra a passividade".

Num Festival de Veneza em cuja seção oficial foram exibidos dois filmes sobre o sensacionalismo e o desvio do jornalismo, They're Here mostra o contrário, o "essencial" do bom jornalismo. "Sinto muito orgulho de trabalhar no âmbito documental combinando elementos que, sem ser jornalismo noticioso convencional, estão profundamente enraizados no jornalismo: trata-se de proteger as fontes, de evitar a hipérbole ou o exagero. Assim, embora usemos recursos do gênero cinematográfico, a realidade que mostramos é muito autêntica", diz Lauren Mueller.

As pessoas que aparecem no filme lhes disseram, ao vê-lo, que foram as primeiras a captar o que se sente ao passar por esse medo diário. Elas esperam que isso seja "mobilizador" para a sociedade. "O jornalismo é essencial porque se trata de dizer a verdade e de se basear em algo real, não de dizer às pessoas o que pensar. Sinto um grande respeito pelo público; não queremos dar explicações nem dizer que opinião devem ter. Estamos mostrando a elas o que acontece. Damos a isso uma abordagem cinematográfica e emotiva, e esperamos que isso as faça sentir algo. Mas não se trata de propaganda", acrescenta Poitras, que sabe que seu trabalho pode ter consequências. Ela vê isso como "parte do trabalho", porque esse trabalho "consiste em questionar o poder".

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