09 Setembro 2026
O jornal “Faz” relata como o partido de extrema-direita está se preparando para ocupar todos os setores da administração pública.
A reportagem é de Tonia Mastrobuoni, publicada por La Repubblica, 09-09-2026.
Ulrich Siegmund, líder da AfD que aspira governar a Saxônia-Anhalt, deixou suas opiniões sobre o sistema judiciário bem claras: "Ele é politizado. E eu o considero um grande problema." A declaração soa familiar aos ouvidos italianos, mas ainda mais aos ouvidos russos, húngaros e poloneses.
Regimes iliberais detestam a divisão tripartite de poderes que sustenta toda democracia. E detestam juízes independentes porque estes representam um poder autônomo difícil de conciliar com seu autoritarismo. Inevitavelmente, a AfD na Saxônia-Anhalt já começou a atacá-los, como relatou recentemente Christian Löffler, juiz em Magdeburgo e presidente da Associação de Magistrados da Saxônia-Anhalt: "A AfD está atacando o judiciário", disse ele ao web.de. Ele observou que a plataforma eleitoral contém insultos contra uma suposta "justiça branda" que é "demasiado de esquerda".
Isso é "totalmente falso", segundo Löffler, mas "ao ser repetido tantas vezes, é um conceito que entra na cabeça das pessoas". E o juiz apontou trechos nos planos da AfD que são "incompatíveis com o Estado de Direito".
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Em maio, Sven Rebehn, presidente da Associação Nacional de Juízes, foi ainda mais explícito: "É evidente que o judiciário, como órgão de supervisão independente, é um freio à ambição deles de 'governar até o fim'". Ele teme que a AfD consiga entrar no governo e nomear um ministro da Justiça na Saxônia-Anhalt. Na Alemanha, aliás, eles têm o poder de direcionar os promotores. "Além de dar indicações gerais sobre quais áreas investigar prioritariamente, um ministro também pode interferir nos julgamentos. E pode pressionar os promotores a investigar em uma direção em vez de outra", enfatizou. Se a AfD fizer isso, como já ameaçou durante a campanha eleitoral, "será o fim da justiça".
A intolerância da AfD à autonomia dos juristas é certamente uma das razões pelas quais mais de mil juristas alemães — advogados, juízes e procuradores — assinaram uma petição para proibir o partido. Mas a ambição da extrema-direita vai muito além do controle judicial: o jornal FAZ noticiou que o partido está se preparando para ocupar militarmente todos os ramos da administração pública. Esse "estado paralelo" é o alvo diário de seus principais propagandistas. E, como é sabido, um dos primeiros órgãos que atacarão será o Serviço Secreto, a mesma agência que "ousou" rotulá-los de "extrema-direita" em 2023.
Um dos efeitos dessa anunciada guinada autoritária já é evidente. Uma pesquisa recente da associação Jurafuchs com 1.737 estudantes de direito revelou que quase ninguém se mudaria para a Saxônia-Anhalt para ocupar um cargo público caso a AfD chegasse ao poder. No geral, 57,7% estariam dispostos a trabalhar no estado como juiz, promotor, em um ministério ou outro órgão público.
Mas com a AfD no governo, essa porcentagem cai para 17,7%. Isso representa uma queda de 70%. Questionado pelo jornal Repubblica, Carl-Wendelin Neubert, cofundador da Jurafuchs, explicou que "só podemos especular sobre os motivos", mas a AfD "pretende, por exemplo, criar uma 'milícia civil' para apoiar a polícia, ou já insinuou a possibilidade de pressionar juízes ou funcionários politicamente inconvenientes. Essas são ideias difíceis de conciliar com um poder estatal ditado pela lei e pela ordem." Essa opinião também é compartilhada pelos estudantes: a pesquisa mostra que 75,3% acreditam que a ascensão da extrema-direita constitui um sério desafio à democracia e ao Estado de Direito.
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