Mladić está morto, não a sua ideologia. Artigo de Edin Krehić

Foto: Wikimedia Commons

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03 Setembro 2026

Mais de trinta anos depois do fim da guerra na Bósnia e Herzegovina, muitos jovens sérvios nascidos depois do genocídio de Srebrenica exaltam o nome de Ratko Mladić, celebrando o criminoso de guerra como um herói. Que futuro espera uma sociedade em que os jovens não conseguem distinguir a verdade do mito nem se opor ao nacionalismo?

O artigo é de Edin Krehić, escritor e jornalista, publicado por Settimana News 02-09-2026.

Eis o artigo.

Eu tinha acabado de completar dezoito anos quando Sarajevo foi cercada pelo exército sérvio-bósnio, com as armas do poderoso Exército Popular Iugoslavo (JNA). Na cidade não havia eletricidade, água, gás nem comida. Enquanto os projéteis caíam e os atiradores de elite disparavam, íamos buscar água e ajuda humanitária, mas também íamos ao cinema, ao teatro e a concertos organizados em espaços fechados e mais ou menos seguros. Arriscávamos literalmente a vida para assistir a espetáculos teatrais, exibições de cinema e concertos.

Era também uma forma de defender a cidade. E a defendemos todos juntos, bosníacos, croatas e sérvios, sem distinção, exatamente como havíamos crescido juntos.

Lembro-me de uma frase pronunciada na época pelo general sérvio Ratko Mladić: "Ataque Velušići, lá não há muitos sérvios!" Ele havia errado o nome daquela parte de Sarajevo (a referência é ao bairro de Velešići, que fica no território de Novo Sarajevo, um dos quatro municípios que compõem a cidade de Sarajevo, nota do tradutor).

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Hoje, mais de trinta anos depois do fim da guerra, como pai, nutro uma profunda preocupação. Partindo da consideração de que o mundo está nas mãos dos jovens, uma pergunta atormenta hoje a Bósnia e Herzegovina: que mundo estamos deixando para as novas gerações que decidirão o futuro do nosso país? A resposta a essa pergunta talvez emerja com maior clareza a partir da forma como os jovens enfrentam os temas ligados à guerra, às vítimas e aos criminosos condenados.

Memórias contrastantes

A morte de Ratko Mladić, condenado por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra, trouxe novamente à tona o tema da memória histórica. Se alguns veem a morte de Mladić como o fim da trajetória de um assassino, outros, entre eles muitos jovens nascidos depois da guerra, acendem tochas, cantam canções e o celebram como um herói.

Um homem morreu, mas não sua ideologia. Essa frase talvez resuma melhor as reações à notícia da morte de Ratko Mladić. Nas cidades e vilarejos da Republika Srpska, uma das duas entidades que compõem a Bósnia e Herzegovina, o ex-general é homenageado, organizam-se manifestações, seu nome é entoado, acendem-se tochas.

As redes sociais foram inundadas por vídeos de seus discursos durante os conflitos dos anos 1990, suscitando comentários que se transformaram numa verdadeira guerra, felizmente apenas verbal, diferentemente da guerra na antiga Iugoslávia, que teve seus episódios mais sangrentos justamente na Bósnia e Herzegovina.

Alguns comentários que se ouvem na Republika Srpska são realmente ameaçadores e infundem temor até nos bosníacos que criam seus filhos em Srebrenica, onde foi anunciado um evento público para quarta-feira, 2 de setembro, em homenagem a Mladić.

As reações

Conversamos com Davor Gjenero e Dragan Banjac, conhecidos analistas políticos, de nacionalidade croata e sérvia, respectivamente, sobre as reações à notícia da morte de Ratko Mladić.

"A tendência de ignorar os fatos, a manipulação e o nacionalismo, mas também a proximidade com o regime de Putin, que se apresenta constantemente como aquele pronto a 'salvar o povo sérvio', da mesma forma que estaria pronto a 'salvar Mladić', criaram uma mistura explosiva extremamente perigosa nos Bálcãs", afirma Davor Gjenero, cientista político e consultor político independente.

Numerosos usuários das redes sociais na Croácia destacaram o fato de que Ratko Mladić nunca foi chamado a responder pelos crimes cometidos na Croácia, onde sua carreira militar teve início em 1991, quando, como comandante do Corpo de Exército de Knin, do JNA, liderou operações na Dalmácia setentrional, incluindo Zadar, Šibenik e o interior. As forças de Mladić também participaram do ataque a Škabrnja e Nadin.

"É absurdo que a Croácia esteja explorando a morte de Mladić para relançar a tese de que o Tribunal de Haia seria um tribunal político, que teria tentado, sem sucesso, reescrever a história das guerras na antiga Iugoslávia", afirma Gjenero.

Embora lamente o fato de os crimes cometidos por Mladić na Croácia não terem sido incluídos no processo, o cientista político considera que, se Mladić tivesse sido julgado também por esses crimes, o processo penal teria sido muito mais longo e decisivamente menos eficiente. E a ineficiência e a lentidão são consideradas os principais pontos fracos do Tribunal de Haia. Com um processo longo demais, correria-se o risco de repetir o caso Milošević, que morreu impune antes que se pudesse chegar a um veredicto.

Uma regressão social e política

"A morte de Mladić demonstra o quanto está devastada a cultura política, enquanto os riscos ligados às tensas relações interétnicas aumentam exponencialmente", destaca Gjenero.

O problema, segundo o cientista político, é que a Sérvia e a Republika Srpska sofreram uma regressão nos últimos quinze anos. Mladić foi preso na Sérvia depois de mais de uma década foragido, durante o mandato do governo pró-europeu de Boris Tadić.

"A regressão da Sérvia em relação ao período do governo de Tadić", explica Gjenero, "é consequência da política nacionalista e populista de Aleksandar Vučić, que inicialmente havia tentado dar de si a imagem de um apoiador da europeização da Sérvia, mas agora obstrui abertamente o desenvolvimento do Estado de direito, a adoção dos valores europeus e a adesão da Sérvia à União Europeia".

Para Gjenero, a situação na Republika Srpska é ainda mais absurda, porque "ali permaneceu sempre no poder a mesma liderança, com Milorad Dodik como ator-chave, que no passado era favorável à extradição de Mladić, enquanto hoje se apresenta como um fervoroso defensor da figura e dos crimes de Mladić".

"A atitude em relação a Mladić demonstra que, na cultura política dominante na Sérvia, assim como na menor das duas entidades da Bósnia e Herzegovina, instaurou-se uma espécie de desumanização, voltada sobretudo contra os bosníacos, levando ao desenvolvimento de uma narrativa centrada exclusivamente no conceito de território, ignorando as pessoas que foram expulsas ou brutalmente mortas por pertencerem a 'nacionalidades indesejáveis'", adverte Gjenero.

O cientista político cita as recentes iniciativas dos estudantes que se opõem ao regime autoritário de Vučić e que publicaram um Memorando sobre o Kosovo. Os estudantes sérvios parecem ter adotado o esquema de desumanização dos albaneses próprio da Sérvia nacionalista, e a atitude em relação à "contribuição histórica de Mladić" demonstra como esse esquema pode ser aplicado também a outros, sobretudo aos bosníacos.

"Esses jovens não têm culpa alguma, foram sistematicamente educados nesses 'valores', permanecendo, portanto, completamente alheios a ideias alternativas. Infelizmente, a atitude em relação à Bósnia e Herzegovina hoje é pior do que a dos anos 1990, quando algumas pessoas ainda eram influenciadas pelo tipo de sociedade do período anterior (o iugoslavo), na qual, apesar de todos os defeitos daquele país, a desumanização de comunidades étnicas inteiras era inaceitável", destaca o cientista político.

No passado, como destaca Gjenero, esperava-se que o Tribunal de Haia, com sua jurisprudência, contribuísse para as tentativas de enfrentar de modo construtivo as consequências das guerras iugoslavas. "Parece, porém, que não houve nenhum impacto positivo, como se todos estivessem tentando apagar todo vestígio da influência construtiva do tribunal internacional".

Para Gjenero, algumas reações à morte de Ratko Mladić são inquietantes. "Não porque a guerra possa recomeçar amanhã. Ninguém pode saber isso. São inquietantes porque, trinta anos depois do fim da guerra, está crescendo uma geração para a qual os crimes de guerra são apresentados como heroísmo e os criminosos de guerra como modelos a seguir", denuncia o cientista político.

O ponto de vista de Dragan Banjac

Dragan Banjac, conhecido jornalista de Belgrado, acompanhou ao longo de sua carreira as guerras na Croácia, na Bósnia e Herzegovina e no Kosovo, permanecendo sempre fiel à verdade e desprezando a propaganda.

Banjac lembra um episódio ocorrido em Sarajevo sitiada, quando falou com Robert Frowick, ex-chefe da OSCE, na presença dos altos funcionários bósnios Haris Silajdžić e Ejup Ganić. Ao que parece, os europeus imploraram a Slobodan Milošević que intervisse para a libertação de alguns membros da UNPROFOR capturados pelos sérvio-bósnios.

"Ele prometeu fazer isso e, em troca, pediu para poder exercer uma certa pressão sobre a mídia independente. Também foram pronunciadas palavras desagradáveis, mas Silajdžić e Ganić me tranquilizaram", conta Banjac.

"Invertamos a perspectiva: sei que é impossível, mas imaginem que um bosníaco cometa um genocídio na Sérvia e, depois de ser condenado por um tribunal internacional por esse crime, cumpra quinze anos de prisão e morra ali, e que Sarajevo o sepulte com as mais altas honras de Estado e o celebre. Um cenário inconcebível", conclui Banjac.

Emir Suljagić, diretor do Memorial de Srebrenica, afirmou que a morte de Mladić não trará os mortos de volta à vida, não apagará as valas comuns e não mudará o veredicto. "O trabalho mais difícil" ainda precisa ser feito, declarou Suljagić, aludindo ao fato de que a verdade, a responsabilidade e a memória não desapareceram com Mladić.

Vale a pena lembrar as palavras pronunciadas por Mladić em julho de 1995. Após a entrada das forças sérvias em Srebrenica, ele declarou diante das câmeras: "Às vésperas de mais uma grande festa sérvia, devolvemos esta cidade ao povo sérvio. Depois da rebelião contra os dahije, chegou a hora de nos vingarmos dos turcos nestas terras".

Essas palavras são citadas em documentos conservados no Memorial de Srebrenica, assim como em numerosos documentos que analisam os fatos apurados judicialmente sobre o genocídio.

A mitificação do crime

Após a queda de Srebrenica, foi realizada uma ação de extermínio sistemático na qual foram mortos mais de oito mil homens e meninos bosníacos.

Uma guerra pode terminar com uma assinatura numa folha de papel, podem se passar dez, vinte ou trinta anos, podem se suceder gerações, políticos e sistemas inteiros. Mas enquanto as crianças nascidas depois da guerra crescerem num clima em que se celebram pessoas condenadas pelos crimes mais atrozes, a guerra continuará na mente daqueles que um dia decidirão o futuro deste país. Estamos falando de uma geração para a qual a guerra é apresentada como um mito.

Em Sarajevo, cantores, artistas e atletas são celebrados nos muros. Em algumas áreas da Republika Srpska e da Sérvia, por outro lado, o que domina os muros e as arquibancadas é a imagem de Ratko Mladić. Trata-se de duas visões de futuro completamente diferentes. O ponto não é apresentar Sarajevo como uma sociedade perfeita, nem fazer uma distinção banal: aqui são bons, ali são maus. Mas existe uma diferença.

As guerras nem sempre começam com armas. Começam também com palavras e com a mitificação dos crimes.

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