02 Setembro 2026
A retórica do Apocalipse tornou-se a ferramenta de marketing usada pelas grandes empresas de tecnologia para capturar a atenção do público. E, mais importante, o dinheiro dos investidores. A nova edição da Tech Away, a newsletter semanal do editor da Italian Tech, aborda esse tema.
O artigo é de Federico Ferrazza, diretor do Italian Tech, publicado por La Repubblica, 01-09-2026.
Eis o artigo.
O mais recente a se manifestar foi Bill Gates. Há alguns dias, o fundador da Microsoft, em entrevista ao New York Times, voltou a discutir seus temores sobre o desenvolvimento da inteligência artificial: do desemprego em massa ao bioterrorismo. As palavras de Gates seguem declarações semelhantes feitas nas últimas semanas por Sam Altman (OpenAI), Dario Amodei (Anthropic) e Elon Musk (xAI). Eles, com argumentos diferentes, dizem a mesma coisa.
Por um lado, afirmam que a tecnologia mais importante da história da humanidade está sendo construída. Mas, por outro, alertam que essa mesma tecnologia pode se tornar incontrolável, destruir milhões de empregos, manipular nossas sociedades, concentrar poder em excesso e, no pior cenário, até mesmo ameaçar a sobrevivência da humanidade.
Hipocrisia
É curioso que sejam justamente essas pessoas que estão construindo essa tecnologia. Poderíamos, portanto, descartar tudo com um julgamento direto: declarações hipócritas. Porque é isso que elas são. Mas há algo mais: não se trata apenas de duplicidade ou inconsistência entre palavras e ações. É uma estratégia de marketing deliberada. Na verdade, quanto mais nos convencemos de que a IA terá um enorme impacto – incluindo efeitos colaterais – na sociedade e na economia, maior será o valor das empresas que a desenvolvem.
Dois lados da mesma moeda
Se a inteligência artificial for uma tecnologia como qualquer outra, alguns bilhões de dólares podem ser suficientes para desenvolvê-la. Mas se for a inovação destinada a transformar o trabalho, a medicina, a educação, a pesquisa, a defesa e a economia global, então, de repente, centenas de bilhões de dólares gastos em chips, centros de dados, energia, modelos e infraestrutura tornam-se plausíveis. Em suma, medo e entusiasmo são dois lados da mesma moeda.
Considere, por exemplo, uma das siglas mais usadas em excesso desta era: AGI, inteligência artificial geral, o tipo de inteligência capaz de simular a inteligência humana em todos os aspectos, capaz de se adaptar a qualquer contexto. Há anos se debate quando ela surgirá, quão inteligente será, quais empregos poderá substituir e até mesmo o que poderia acontecer se ela se tornasse mais capaz que os humanos.
Mas há um aspecto que corremos o risco de esquecer: cada vez que descrevemos a Inteligência Artificial Geral como uma tecnologia quase inevitável, também estamos aumentando o valor econômico da corrida para alcançá-la.
Se, daqui a alguns anos, existir de fato uma máquina capaz de realizar uma parcela significativa do trabalho intelectual humano, isso leva uma empresa a investir tudo o que puder hoje para ser a primeira a construí-la. E é racional para um investidor financiar essa corrida. Assim como é racional para um governo se preocupar em não ficar para trás em relação aos outros.
O grande paradoxo
A profecia, portanto, corre o risco de se tornar uma profecia autorrealizável. Este é o grande paradoxo da corrida do ouro tecnológica: quanto mais nos convencemos de que a IA será relevante, mais lucrativo se torna investir em seu aprimoramento. Um raciocínio que leva a uma assimetria significativa.
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De fato, quando um empreendedor de uma grande empresa de tecnologia, como os mencionados acima, afirma que a inteligência artificial pode substituir milhões de trabalhadores, essa declaração representa uma ameaça para o trabalhador. Para a empresa que vende sistemas de IA e seus investidores, no entanto, pode ser uma descrição de seu mercado potencial.
A mesma frase, portanto, muda de significado dependendo do ponto de vista de quem a ouve. Assim, a questão não deveria ser simplesmente se devemos ter medo da inteligência artificial. Deveríamos nos perguntar quem se beneficia da forma como esse medo é apresentado.
Problemas reais, debate ineficiente
Isso não significa, é claro, que os riscos sejam inventados. Os problemas são reais: a concentração do poder tecnológico, o impacto nos empregos, a desinformação, a segurança dos modelos, a possibilidade de usar sistemas cada vez mais autônomos em áreas sensíveis.
Mas, justamente porque os riscos são reais, devemos exigir algo mais do debate público. Devemos aprender a distinguir entre o risco e a narrativa que o acompanha; entre o alerta e o interesse próprio de quem o emite.
Um terremoto
Há outra consequência da retórica do Apocalipse: ela pode transformar os principais atores da IA de entidades a serem regulamentadas em entidades indispensáveis para a regulação. Mas aqui também nos deparamos com um paradoxo: é um pouco como pedir à indústria do petróleo que projete a transição energética porque ela entende de petróleo melhor do que ninguém.
Muitas vezes, quando se levantam receios sobre a IA, a metáfora mais comum é a de um "monstro" escapando do laboratório. Talvez essa não seja a imagem mais precisa. Deveríamos usar a imagem de um terremoto. Os grandes empresários da tecnologia estão nos dizendo que um terremoto pode acontecer. E talvez eles estejam certos. O problema é que, ao mesmo tempo, estão construindo alguns dos maiores edifícios bem na linha de falha geológica. Porque na economia da IA, o medo não é necessariamente o oposto dos negócios. Pode ter se tornado uma de suas formas mais sofisticadas.
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