A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do Assunção 22º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de Mateus 16, 21-27.
“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24)
No interior da belíssima cúpula de São Pedro em Roma está escrito em latim e grego o versículo de Mt 16,18 no qual Jesus afirma que “Pedro é Rocha” e que sobre esta rocha edificará sua Igreja, contra a qual não prevalecerão as forças do mal e da morte. Este foi o tema do evangelho do domingo passado.
Neste domingo, o evangelista Mateus acrescenta, no versículo 23, as duras palavras de Jesus contra o próprio Pedro: ao querer desviar Jesus do seu caminho, Pedro se torna pedra de tropeço, pedra de escândalo e satanás (aquele que divide).
O fato de que Pedro seja santo e pecador, já preanuncia que a Igreja também é, ao mesmo tempo, santa e pecadora, casta e prostituta, segundo os antigos padres. Isto nos liberta de todo triunfalismo idealista e espiritualista, nos faz compreender que a Igreja é humana e divina, que ela não pode ser compreendida à margem de sua história concreta, de seu peregrinar em meio às fragilidades, incoerências, perseguições e consolos de Deus. A história faz parte da eclesiologia do mesmo modo que o Jesus histórico faz parte da cristologia.
Depois de elogiar a resposta de Simão (“tu és o Cristo!) e de chamá-lo “Petra” (Rocha da Igreja), Jesus aprofunda no tema e revela sua missão messiânica (realização do Reino) na linha da entrega em favor de todos. Ele não é o Messias vencedor que se impõe, mas aquele que quer e pode dar a vida, através do perdão, do amor sem medida, do não julgamento...
Neste momento de sua vida, Jesus descobre que, na fidelidade ao projeto de Amor do Pai, Ele deve encarnar e cumprir a verdade desta mensagem: deve entregar-se por amor, não para buscar sofrimento de maneira masoquista, mas para amar, doando sua vida até o final em favor da vida.
Ele está a caminho de Jerusalém e os conflitos com os homens da religião vão se acentuando; tem consciência da presença da Cruz no horizonte de sua missão, mas leva seu compromisso com o Reinado do Pai até às últimas consequências. Ele não veio para instaurar um Reino pela força e pelo poder, mas através da entrega e do serviço.
Sobe a Jerusalém sem armas, não para triunfar, mas para revelar seu excesso de amor a todos.
No entanto, Pedro e seus companheiros não estão sintonizados com o caminho da doação de Jesus; não aceitam essa visão e esse projeto d’Ele e, numa busca de prestígio, continuam pensando naquilo que o Reino poderia lhes dar. Pedro atreve-se a corrigir Jesus, em nome da boa tradição israelita. Mas Jesus rejeita a pretensão de Pedro e sua maneira de entender o messianismo como triunfo do poder político.
Nesse contexto, o evangelho deste domingo recolhe um duro enfrentamento que aconteceu no interior do grupo de Jesus e no início das primeiras comunidades cristãs: seu projeto de Reino tornou-se discutível.
Tudo nos permite supor que o texto atual de Mateus recolhe as controvérsias messiânicas que surgiram mais tarde nas comunidades cristãs. O próprio Jesus precisou purificar o sentido de seu envio e sua missão messiânica, a serviço do Reino, apresentando-se, em um dado momento, como Filho do Homem que entrega a vida pelo Reino.
No texto deste domingo, Mateus não quer apresentar a oposição entre a bondade de Jesus e a maldade de Pedro, mas de traçar a novidade e as consequências daquele messianismo que Jesus iniciou na Galileia e que devia culminar em Jerusalém. Jesus des-vela (tira o véu) e propõe algo que não estava previsto nos esquemas messiânicos antigos; por isso, Pedro se opõe.
Pedro imagina que, sendo Messias, Jesus deveria subir a Jerusalém como Filho de Davi, para que Deus o coroasse Rei definitivo, instaurando o Reino em chaves de poder. Ele quer ser “Rocha gloriosa”, cheio de poder, fundamento de um edifício sem risco algum de perseguição, sem entrega da vida.
Contrariamente ao pensamento de Pedro, Jesus decide subir a Jerusalém como Filho do Homem, não para triunfar de um modo régio, mas para entregar sua vida em favor de todos.
Pedro aparece assim como “satán” (tentador) para Jesus, ou seja, como “pedra de escândalo”, que significa pedra que faz cair o caminhante ou que destrói todo o edifício.
Aqui aparece o sentido verdadeiro da Cruz, não como algo inevitável e predeterminado pelo Pai, mas como consequência de um messianismo vivido a serviço da vida.
A Cruz é um instrumento terrível da maldade, se a encaramos da perspectiva humana; e é manifestação do amor levado até as últimas consequências, se a olhamos da perspectiva de Deus.
De fato, a Redenção está na Luz e não na cruz. Esta – com minúscula – foi imposta pelos carrascos e, de nenhum modo, foi querida ou imposta pelo Pai, como expiação.
Só podemos escrever Cruz – com maiúscula – quando ela se converte em Luz, deixa de ser ensanguentado patíbulo para se revelar como progressivo Caminho de salvação. O Deus dos cristãos se fez humano para indicar-nos o Caminho da Luz, ou seja, da humanização da pessoa e do mundo.
Abraçar e dar sentido à Cruz supõe uma real e firme adesão aos valores pelos quais o Crucificado preferiu morrer a desertar e trair. Está aí uma multidão de mártires para comprovar isso.
A Cruz é a revelação da “escada de luz” que o Filho desceu até o fundo do poço da degradação na qual o ser humano estava (e está) metido. Só se regenera e se salva quem se empenha em subir por essa escada, vivendo os valores que o Crucificado viveu. Nem sacrifícios, nem méritos, nem pagamentos. Puro amor gratuito de um Deus que é Amor!
Na Cruz de Jesus, portanto, nos é oferecida uma nova forma de sentir o mundo: “tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. O madeiro onde Jesus de Nazaré morreu não é belo aos olhos humanos, não gratifica nossos sentidos; não é a marca de um “país católico”, nem a divisa da cristandade... É e será sempre fonte e origem de um novo modo possível de ver e ouvir o mundo, de olhar quem somos e como é Deus.
A Cruz, com seu mistério fascinante e tremendo, com seu mistério sempre maior, não só é fonte de salvação eterna, mas princípio de uma nova sensibilidade para um novo modo de se fazer presente neste mundo.
Não podemos venerar a Cruz e adorar o Crucificado vivendo de costas ao sofrimento de tantos seres humanos destruídos pela fome, miséria e exclusão. Se ao contemplar o rosto do Crucificado nos esquecemos das vítimas, seja qual for sua raça, cultura ou religião, então é que nosso olhar não é o olhar da fé. Segundo Jon Sobrino, a fé no Crucificado implica em fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela.
A interpretação da morte de Jesus determina a maneira de ser cristão. Ser cristão não é subir à cruz com Jesus, mas ajudar a descer das cruzes tantos crucificados que hoje podemos encontrar em nosso caminho.
Jesus, morrendo dessa maneira, revela presente um Deus esvaziado de poder, mas repleto de amor, que é a força suprema. Nesse amor reside a verdadeira salvação. Não é a Cruz que salva, mas o amor extremo que na cruz se faz visível. A “autoridade” de Deus se manifesta na vida de quem é capaz de amar até o extremo, entregando tudo o que é.
Por isso, não podemos pensar na Cruz de Jesus desconectando-a de sua vida. Sua morte foi consequência de suas opções em favor dos últimos. Não foi uma determinação prévia por parte de Deus para que seu Filho morresse na cruz e deste modo nos livrasse de nossos pecados. Jesus foi plenamente um ser humano que tomou suas próprias decisões. Como essas decisões foram as adequadas, de acordo com as exigências de seu verdadeiro ser, elas indicaram para nós o caminho da verdadeira salvação.
Quando levantamos nossos olhos até o rosto do Crucificado, contemplamos o Amor insondável de Deus; se O contemplamos mais atentamente, logo descobriremos nesse Rosto o rosto de tantos outros crucificados, longe ou perto de nós, reclamando nosso amor solidário e compassivo.
- Diante do Crucificado, trazer à memória os crucificados de hoje: isto o afeta? o deixa inquietos? o incomoda?