O Congresso Pan-Americano apela por um diálogo mais equitativo entre a América do Norte e a América do Sul

Foto: Reprodução/@congreso.panamericano/Instagram

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24 Agosto 2026

Em 2027, o Brasil sediará a quarta edição deste encontro de líderes progressistas do continente.

A reportagem é de Mar Centenera, publicada por El País, 24-08-2026.

Uma maior integração regional e um diálogo mais equitativo entre a América do Norte e a América do Sul sobre paz, segurança, saúde e sistemas de bem-estar social são essenciais. Essas são algumas das conclusões do terceiro Congresso Pan-Americano, realizado no último fim de semana em Montevidéu. Movimentos progressistas nas Américas buscam retomar a iniciativa em um continente que se desloca para a direita e se torna cada vez mais fragmentado. O resultado do encontro é agridoce: a retórica autoritária ganha terreno, assim como a interferência dos EUA na região, mas também há sinais de resistência e discursos renovados que apontam para um caminho a seguir. O Brasil sediará o próximo encontro em 2027.

O Congresso contou com a presença de cerca de 150 líderes de esquerda de 15 países das Américas, incluindo legisladores, governadores provinciais e ex-presidentes como Gabriel Boric, do Chile, e Ernesto Samper, da Colômbia. Uma ausência notável foi a de Gustavo Petro, figura central da primeira edição, realizada há dois anos em Bogotá. Os organizadores cancelaram preventivamente sua participação para evitar sanções, visto que o ex-presidente foi incluído na lista do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA, juntamente com sua esposa, seu filho mais velho e seu ministro do Interior. Os nomes na lista são de pessoas acusadas de envolvimento com o narcotráfico, sem que tenha havido um julgamento prévio para comprovar as acusações.

Na cerimônia de encerramento, o coordenador do evento, David Adler, enfatizou a necessidade de repensar o diálogo entre a América do Norte e a América do Sul “em termos mais equitativos”. Suas palavras contradizem a abordagem adotada pelo governo Trump nos Estados Unidos: uma versão atualizada da Doutrina Monroe que prevê a intervenção explícita dos EUA em todo o continente.

Militarização regional

Os presentes denunciaram a crescente militarização, inclusive na segurança pública, em grande parte da América Latina e suas consequências. A deputada estadual equatoriana Jahiren Noriega, por exemplo, destacou que já existem relatos de “graves violações de direitos humanos no âmbito da colaboração existente entre militares equatorianos e estrangeiros”.

Vindo do Brasil, alguns dias antes, o senador Humberto Costa alertou que a inclusão de dois grupos brasileiros na lista de organizações terroristas dos EUA constitui um ataque direto à soberania nacional e abre caminho para intervenções militares sob o pretexto de combater o narcotráfico. Costa pediu atenção especial ao gigante sul-americano devido às eleições presidenciais de outubro. Até o momento, o apoio explícito de Trump a Flávio Bolsonaro, candidato da oposição a Luiz Inácio Lula da Silva, teve o efeito contrário ao pretendido pelo presidente americano.

Os congressistas americanos presentes observaram que as eleições de meio de mandato também serão realizadas lá, o que o Partido Democrata espera que fortaleça sua posição em ambas as casas do Congresso. Jesús “Chuy” García defendeu a priorização do bem-estar da classe trabalhadora, o respeito aos direitos humanos e a soberania das nações latino-americanas.

O terceiro Congresso Pan-Americano aconteceu entre sexta-feira, 21, e domingo, em Montevidéu. Houve apresentações públicas, bem como debates a portas fechadas. A figura do ex-presidente Pepe Mujica, falecido no ano passado, foi um tema constante nos discursos daqueles que pediram que se deixasse de lado as lamentações e se olhasse para o futuro. “Pepe Mujica nunca sucumbiu à nostalgia; mesmo com quase 90 anos, continuou a nos falar sobre o futuro”, observou Boric, instando os líderes presentes a não darem as costas às transformações tecnológicas e culturais que estão mudando a sociedade. O ex-presidente chileno esteve no centro de um dos momentos mais emocionantes do encontro, quando leu uma carta para sua filha

Violeta diante da plateia. “Estamos felizes e radiantes. Também consternados e furiosos”, escreveu ele.

No Teatro Solís, local do encontro, Macarena Gelman, neta recuperada do poeta argentino Juan Gelman, também foi ouvida, juntamente com a carta que ele lhe escreveu quatro anos antes de as Avós da Praça de Maio a encontrarem e lhe devolverem a identidade que a ditadura argentina lhe havia tirado ao nascer.

O debate continuará no próximo ano no Brasil, escolhido como o próximo país anfitrião de um congresso que já foi realizado na Colômbia, no México e no Uruguai.

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